domingo, 22 de outubro de 2017

Desistir da vida

Saber envelhecer! Esta frase, que esconde um conceito ou um estilo de vida, que se supõe, penso eu, saber passar pelo tempo sem desistirmos de nós prórios, aplica-se como uma luva na minha pessoa.
Quando fiz trinta anos, da minha mãe ouvi, de forma desprendida e objectiva, “Parece que ainda estás nos vintes, meu filho”, quando cheguei aos quarenta, disse-me que parecia que ainda estava nos trintas.
Na semana passada, eu, com quarenta e três anos, encontrei um amigo da minha geração, que já não via há anos. Quando ele chamou por mim, não o reconheci de imediato, parecia-me um estranho com cinquenta e três. Para me lembrar quem ele era, de forma discreta, fiz-lhe uma pergunta-chave, “Então tudo bem? Quem são os teus pais?”. E respondeu-me, “São o Tone e a Nela.”
Identificado o João, trocámos uma palavras e como tudo o que se pensa não se deve dizer, para o animar, sem que ele me tivesser pedido, digo-lhe, “Se não estivesses careca, gordo e cara envelhecida, parecias ter a minha idade!”. De forma fraterna nos despedimos, ele virou-me as costas e eu respondi-lhe, “Até breve!”.
Mas este “saber envelhecer”, não tem haver apenas com um belo aspecto físico, há que aparentar maturidade. Po exemplo, continuo a abrir a porta ás senhoras, a dar-lhes prioridade,..., e nunca ninguém me viu a estender roupa (aparentemente).
Esta actividade exerço-a durante a madrugada entre as três e as cinco horas, inicialmente de segunda a domingo, começando a fazê-lo desde hà sete meses atrás apenas de segunda a quinta, porque num sábado de madrugada ia sendo apanhado a estender toalhas pelo meu vizinho, ainda jovem e que sai ao fim de semana!
E como tenho a ideia que exercer qualquer actividade que termine em “er”, dá muito estilo, tornei-me, primeiro, “Blogger”, depois “You tuber” e desde Agosto sou “Crossfitter”, demonstrando nesta última actividade algum amadorismo, visto que ainda não sou depilado nem tatuado!
Em suma, a vida corria-me bem, sem eu compreender como há gente com depressões e que reagem ao bom e ao mau, sem expressão...até ontem.
Sábado, 21 de Outubro de 2017, Box “Crossfit Vale de Ave”, 12h55m. No intervalo de um execício vejo um amigo (com cinquenta e três anos, mesmo) na recepção e aproximo-me dele, momentos a seguir aproxima-se uma jovem, que estava a fazer a aula comigo, e virada para o meu amigo e apontando para mim, diz:
- Olá pai! Eu não te disse que aqui no ginásio andava um senhor da tua idade.
Deste amigo, que já não via há meses, a última vez que outros amigos me falaram dele foi para dizerem o quanto ele estava acabado!

A aula para mim acabou, tomei banho, vesti-me, almocei sem sentir o sabor da comida, nem prazer na bebida, fui estender duas máquinas de roupa em plena luz do dia, desobedeci duas vezes à minha esposa, sem querer saber das consequências, e este texto foi “postado” como saiu, sem fazer nenhuma revisão,...

domingo, 16 de abril de 2017

Recorde Pascal

Em 1983, com nove anos a caminho dos dez, mantinha a minha colecção de selos, abastecida na correspondência recebida pelo meu avô no seu escritório, e desisti, ao fim de três semanas, da minha colecção de numismática depois de surrupiar todas as moedas diferentes que encontrei na carteira dos meus pais e familiares.
No domingo de Páscoa desse ano acordei cedo, sem despertador e sem os meus pais me chamarem, tão cedo que a emissão da RTP ainda não tinha começado! Acordei com um objectivo a tilintar na minha cabeça, bater o recorde do ano anterior de quinzes beijos na cruz do compasso.
Sim, com nove anos a caminho dos dez, abaixo de mim tinha um primo e o meu irmão, e acima, muitos mais primos, tios e tias, avós e tios-avós e bisavós, parecia que a minha família era a população do planeta e na casa de cada um deles podia beijar o compasso.
Como em todos os domingos, almoçávamos nos meus avós (pais da minha mãe), e desde há duas semanas, que bem cedo, eu e um dos meus primos, instalávamos nas traseiras da casa, uma banca onde vendíamos iogurtes e caramelos a quem passa-se para a missa, sem a concorrência do comércio local, sempre fechado, e das grandes superfícies, que ainda não existiam...sem concorrência praticávamos o preço que queríamos. Lembro-me de termos vendido um caramelo a dois escudos e cinquenta centavos...estávamos transformados em vendilhões do Templo!
Nessa manhã, depois da banca montada, dois extintores ao alto e uma tábua, o meu primo José Alberto expõe os iogurtes e pede-me para ir buscar os três caramelos que tínhamos em stock. Feito desentendido, faço de conta que os vou buscar e quando regresso, exclamo:
- Desapareceram! Assaltaram o nosso armazém.
O nosso armazém era uma beira debaixo das escadas, que dava acesso à cozinha, e os caramelos foram comidos por mim. A sociedade acabou, sendo eu vítima da estratégia comercial em voga na altura, os “stocks” (aos quais eu não resistia), quando eu estava talhado para o “Just in time”.
Esta minha postura comercial, a do “Surrupio”, veio a ser moda poucos anos depois entre os empresários portugueses, com a entrado do país na CEE.
Desfeita a sociedade, corro para a casa da minha avó (mãe do meu pai) onde iria dar o meu primeiro beijo na cruz. O segundo seria dado na casa ao lado, na minha tia Mina, irmã da minha avó (mão da minha mãe), desceria a rua e parava a meio, na casa do Miguel, onde actuava como infiltrado naquela família, e terminaria a rua com o quarto beijo na casa de outra tia. Regressava a casa dos meu avós e aí dava o quinto beijo. A estratégia estava montada de forma que o décimo sexto beijo, e novo recorde, fosse dado na casa dos meus bisavós, pais da minha avó, mãe da minha mãe, em Lousado.
Instalado na sala, ao lado da minha avò (mãe do meu pai), só pensava na menina de quem gostava e pela qual andava a treinar “o beijar”, principalmente com almofadas, mas também com o braço e a maçaneta da porta do meu quarto!
Ouvem-se os sinos e o pelotão pascal irrompe pela casa dizendo “Aleluia, aleluia,...”, dando a cruz a beijar. Eu, com o pensamento na menina, dou um beijo de língua nos pés de Cristo.

Escandalizado (e eu, também), o Senhor Padre não me deixou beijar mais a cruz!

domingo, 1 de janeiro de 2017

Club VIP

1987, o que tem este ano de especial? Nada..menos para mim.
Tinha 14 anos e já sabia há algum tempo que a pilinha não servia só para fazer chichi!

Desde os doze anos que os meus pais já me deixavam sair até uma pastelaria a cerca de cem metros de casa, chamada “Dália”, até ás vinte e três horas, o mais tardar.
Nesta altura da minha vida, as minhas obrigações e interesses passavam por estudar, jogar à bola, estar com os meus amigos e ir de vez em quando (ao fim de semana, sempre) à pastelaria. No final da noite costumava ajudar o Sr António, o empregado, a desmontar a esplanada (isto no Verão) e como recompensa, o Sr José, o dono, dava-me o tabuleiro de bolos, que não se tinham vendido durante o dia, que partilhava com o resto da canalha, minha amiga.
(Se és mais velho do que eu e te lembras de passar ao fim da noite na pastelaria “Dália” e ver uns putos de tabuleiro no colo a comer bolos, eu era um deles e a razão de os estarmos a comer)
Assim foi a minha vida até aos catorze anos, e continuou a ser, com a novidade de ter ido estudar para Santo Tirso e ter começado a sair de vez em quando para a “Pedra do Couto”, uma conhecida discoteca da zona.
Na primeira vez que lá entrei, apercebi-me da existente de um “Clube”, ou seja, uma área privada, à parte do resto da discoteca, mais para uma elite, nem que fosse saloia. E nesse primeiro momento apercebi-me, que a minha camisa de cornucópias, em tons de castanho, muito bonita e fashion (na altura, a sério), era digna de ser passeada nesse espaço restricto.
Como fiz isto acontecer? Fazendo-me de parvo. Característica que persiste, apesar de me esforçar para que não se faça notar.
Subo as escadas e indiferente à presença de quem controlava a entrada e saída de pessoas na porta do “clube”, entro...e sou puxado para fora.
- Não pode entrar! – diz-me o porteiro.
- Não?! – pergunto com cara de espanto e mostro-lhe o meu “cartão jovem”. Não me perguntem para que servia, mas este cartão dava ao adolescente dos anos oitenta um ar de sofisticação.
O porteiro chamava-se Silva e para sorte minha achou-me piada. E eu gostei que ele me achasse piada, porque o Silva era a pessoa certa para conhecer e pela conversa e aspecto era macho, comentando todo o “rabo de saia” que passava pela porta, deixando-me sossegado.
Fino como o Rato, para criar empatia com a minha vítima, entrei no mesmo jogo e fui mais além, comentando de forma babada, mulheres já avózinhas.
O Silva “caíu” como um patinho!
- Podes entrar! – diz-me ele, mesmo não fazendo parte de nenhuma lista VIP.
Com o tempo fui conhecendo as pessoas e quando ia à discoteca já entrava directamente pela porta do “clube”, sem nunca ter detectado nada distintivo entre as pessoas escolhidas para entrar por uma porta e escolhidas para entrar por outra!
Apesar de jovem e de fazer parte de uma “lista VIP”, nunca deixei de ir cumprimentar o Silva, que controlava a porta interior, mas sem joguinhos, comentando só as “jeitosas”.

Tinha a ideia que fazendo parte de uma lista VIP, seria mais fácil “sacar gajinhas”, mas não foi nestes tempos que a minha pilinha deixou de fazer só chichi!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ressaca de um aniversário

Apesar de estarmos a poucos dias de 2017, a dar passos firmes no século 21, e tendo eu nascido no século 20, na década de 70, e curtido o bom e o mau dos anos 80, mantenho hábitos do século 19. Não me interessam as igualdades de género (para mim de sexo), para mim, uma senhora é uma senhora! Continuo a abrir-lhes a porta, a dar-lhes a passagem, a cuidar a linguagem, a oferecer o meu lugar,...e apesar de achar que sou um espécime em vias de extinção, começo a ver jovens, que apesar das modernices de igualdade de género (para mim de sexo), têm igual comportamento. Começava a julgar-me estranho, adjectivo que utilizo para mim, para substituir o adjectivo parolo.
Ontem, dia seguinte ao meu aniversário, numa fila de trânsito, tive o comportamento normalmente estranho (parolo) em mim. Com um pisca-pisca, sinalizo assertivamente a minha mudança de direcção e ouço a buzina do carro que me seguia, dando-me indicação para parar. Estacionei e sou abraçado pelo condutor desse carro...também ele dá o “pisca”, quando conduz. Trocamos os números de telefone!
Por estas coisas e outras, há quem diga que sou uma pessoa à moda antiga, se calhar para não dizerem estranho (ou parolo), e a todas as duzentas e quarenta e quatro pessoas que me felicitaram pelo FB, sete amigos, trinta bons conhecidos, setenta e três conhecidos, cem conhecidos de vista e restantes desconhecidos, pelo meu aniversário, agradeci um a um pelas felicitações.
Algumas boas mentiras diziam, “Não te dava mais de trinta e oito”, e crente e contente, ao telefone, partilhei com a minha mãe:
- Mamã, havia quem não me desse mais de trinta e oito!
- Essa gente está tola meu filho! Se não tivesse sido eu a ter-te, não te dava mais de vinte e oito.
- Tens razão, mamã! No máximo, trinta!
- Estás tolo, meu filho! Vinte e oito.
...
Mas ontem, ao final do dia, depois de ler o título de um estudo, que dizia que elas acham os carecas mais atraentes (e eu que nem entradas tenho), sou atingido por um relâmpago de realismo, sob a forma de mensagem, enviada pelo meu amigo Miguel Paredes:
“Meu caro, parabéns atrasados pelo aniversário. Se eu fosse gaja, diria que cada vez estás melhor, mais elegante, mais charmoso, mais...Como sou gajo, digo que estás velho e mais gordo que uma vaca!!! Um forte abraço!”

Estou velho e acabado! E amanhã, pela manhãzinha, vou ligar à minha mãe!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A saga dos quarenta

Apesar de o dia ter nascido luminoso, lá fora fazia frio. Quando o telefone toca, eu estava num dos estados mais idílicos que existem, proporcionado pelo binómio quentinho/fofinho, enfiado debaixo dos cobertores.
Perante o toque irritante do telemóvel (tenho que o mudar) a querer separar esse binómio, estico o braço de debaixo dos lençóis e puxo-o para dentro do “casulo”.
- Estou?! – atendo com a voz sonolenta e melada.
- Parabéns filhinho! Como te sentes na caminhada de quarentão charmoso? – pergunta a minha mãe.
Fui apanhado desprevenido pela pergunta, não pelo lado do charmoso, mas pelo lado do quarentão. Hoje, 26 de Dezembro, faço quarenta e três anos.
Sem saber como me sentia, respondi:
- Sinto-me espectacular!!!
Desligamos e…não foi um sonho!
Passaram quarenta e três anos desde 26 de Dezembro de 1973 e quarenta  e três anos e dois dias desde que a minha mãe foi para o hospital para me ter. Demorei dois dias para nascer, claro, sentia-me quentinho/fofinho!
Ainda sonolento, ouço ao ouvido um anjo com um recado do diabo:
- Quando te levantares e antes de saíres de casa, estende a bacia de roupa que está na lavandaria...e depois estende a que está dentro da máquina.
Saí da cama com o mesmo custo com que saí do ventre da minha mãe!
Enquanto estendo a roupa, que garante a estabilidade marido/mulher, toca o telefone. É a minha tia:
- Olá Zé Augustinho, estás bom? Muitos parabéns, ainda ontem tinhas vinte e já tens quarenta e três! Estás um homem.
Perante a possibilidade de amanhã acordar com sessenta, fui pôr-me bonito!
Enquanto me arranjava, liguei o rádio. Durante as ultimas escovadelas nos dentes, o radialista que estava a passar música naquela estação, faz uma passagem que nem lembra ao diabo, de Beyoncé muda para Paco Bandeira, o gajo que canta “A ternura dos quarenta”.
No final de ouvir a canção e de, inconscientemente, ter prestado atenção à letra, pensei - A canção devia-se chamar, “A Ternura dos Oitenta” – e, despassarado, estava à procura dos meus netos!
A ideia era dar um passeio a pé, mas achei demasiado ternurento depois de ouvir Paco.
 “Faço” o saco e vou para o ginásio…miúdas, música frenética, pesos…altamente jovem!
Depois de equipado, antes de entrar no ginásio, encolho a barriga, como se ainda tivesse quarenta e dois e entro pela porta…passo o olhar pela sala e…quatro homens e música de Natal. Relaxei, a barriga também, e virei-me para os pesos.
Enquanto levantava “ferro”, um pouco acima do normal, aqueles quatro exemplares masculinos olhavam-me com admiração! E esse facto, devolvia-me a confiança abalada com a canção do Paco.
Um deles, ao reconhecer-me, diz para os outros – É o filho do Calheiros! – e vêm ter comigo, perguntando pelo meu pai. Afinal, eram quatro sessentões e um deles pergunta-me:
- Tu és da idade da minha filha, não és?
- Sim, talvez um ano mais velho!
- Tens quarenta e dois?
- Quase, faço quarenta e três!
- Tchiiiiiiii! – exclamam, olhando uns para os outros!
Virei costas e pus-me em frente ao espelho, “Estou igual!”, pensei, “Ou não?!”, voltei a pensar, “Estou, estou!”, convenci-me…e fui embora, achando o ambiente um pouco idoso!
À saída, uma boa amiga, sabendo da efeméride, abraça-me e diz-me:
- Parabéns! Deixa lá, é só um número!
O tom empregue foi o mesmo com que me deram os pêsames, dias antes, com a morte do um familiar…apenas mudava a frase!
- I will survive, Paulinha! – respondi e faço-me à estrada, em corrida, deixando o carro no parque de estacionamento.
Quando chego a casa, respiro fundo e pergunto-me como será a pulsação aos quarenta e três. Meço-a e a máquina batia tão certa como um carro, com pouquíssimos quilómetros, a sair de um stand de usados!
Afinal, eu sentia-me igual ao que era na manhã do dia anterior! Num momento tinha uma idade e no outro tinha outra..nada mudou!

O que pode mudar é a forma com que os outros encararam o meu novo número…pelo sim, pelo não, nesse dia não liguei mais o rádio!

domingo, 25 de dezembro de 2016

A extraordinária Ceia de 1973

Apesar de ter nascido no dia 26 de Dezembro de 1973, eu, dois dias antes, sem ter consciência de mim, comecei a animar de uma forma diferente uma ceia de Natal, quando o meu pai se ia servir pela segunda vez do bacalhau e dei um sinal de alarme à minha mãe:
- É agora! O nosso menino vai nascer! – diz ela
- Outra vez?! – interroga-se um dos meus tios, depois de se ter servido mais do vinho do que do bacalhau.
- Acho que a Tininha não está a falar do Menino Jesus, mas do nosso filho, que trás na barriga! – clarifica o meu pai.
Como quem se serve mais do copo do que do prato fica mais liberto de espírito, o meu tio exclama o que não teve coragem de dizer durante nove meses:
- Pensei que a Tininha estava a ficar gorda!!!
O meu avô, personagem expansiva e apreciador das diferenças, que sempre se animou com a felicidade dos outros, declara:
- Deve ser o Messias...o outro! Aquele pelo qual os Judeus estão à espera!
Meio perdido com a conversa e com uma espinha de bacalhau espetada na garganta, aquele que dois dias depois seria pai pela primeira vez, reclama:
- Messias, não! O meu rapaz vai chamar-se José Augusto.
(Tenho um tio, uma tia e uma prima que ainda me tratam por Gustinho)
- Paizinho, paizinho... – grita, aflita, aquela que dois dias depois seria a minha mãe.
(A melhor)
Aquele que dois dias depois viria a ser avô pela quarta vez levanta-se e dirige-se para o telefone:
- Estou! – e a minha avó a pensou que o meu avô estava a telefonar para a ambulância - Ès tu, António Absolum?
Do outro lado respondem afirmativamente. É o amigo judeu do meu avô.
- O vosso Messias vai nascer! Está aqui em casa, na barriga da minha filha...mas não te preocupes, vamos já para o hospital!
Do outro lado da linha António Absolum diz algo, que faz o meu avô virar-se para o meu pai:
- Ó Gusto! A vossa lua de mel...
(Este jovem que viria a ser meu pai, também é Augusto)
E sem deixar o meu avô terminar a frase, e com os dedos metidos na boca a tentar tirar a espinha, a única coisa que saiu foi:
- Quente! As noites estavam frias, mas a lua de mel foi quente!
O meu avô preferia que o meu pai tivesse cuspido a espinha em vez daquelas palavras, e virado para o telefone.
- A minha filha não vai dar à luz virgem! O vosso Messias também tem que nascer de uma virgem?
O meu tio que se esqueceu de comer e só bebia, olhava admirado para a “pança” da minha mãe e eu, sem consciência de mim, dou mais um sinal vermelho.
- ELE VAI NASCER!!! – berra a minha mãe.
O meu avô regressa à mesa e ao pegar no copo de vinho, a minha avó,
(A melhor)
 firme, ordena – Vamos já para o hospital.
Já na rua, as chaves do carro passavam de mão em mão, não estando ninguém em condições de conduzir. O meu tio a pensar que a minha mãe afinal não estava gorda; o meu pai aflito com a espinha na garganta; o meu avô, fora da realidade, a pensar, “Que ser especial estará para nascer”; as mulheres não tinham carta e a minha avó, virada para o meu primo de dessazeis anos, que só bebeu Spur-Cola nessa noite, diz-lhe:
- Levas tu o carro! – e passa-lhe as chaves para a mão, tendo sido esta a atitude mais sensata.
Chegados ao hospital, o meu tio enquanto aponta para um frasco pendurado numa maca, diz, “Quero beber daquilo!”, e foi colocado a soro; o meu pai foi para “Clínica Geral”, para tirar a espinha, e o médico ao ver a minha mãe, firme e em alta voz, anuncia, “A CRIANÇA VAI NASCER.”

E nasci...dois dias depois, no dia 26 de Dezembro de 1973. O meu avô telefonou ao seu amigo judeu e diz-lhe, “Nasceu-me mais um Messias! É o quarto, tão especial como os outros!”.


E assim deviam ser as crianças, pelo menos para os Seus...Especiais!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Liberdades

Félix, assina, como no bilhete de identidade, Felix Da Silva De Pereira e é conhecido em casa por pai e “óme” e entre os amigos e conhecidos por Félix. Quando conhece alguém apresenta-se como Félix Da Silva e quem não o conhece de lado nenhum trata-o por “aquele gajo, pá!”.
Em Março de 1974 fez quatro anos de casado, cuja cerimónia aconteceu em 1970, após a chegada de uma missão de dois anos e meio no norte de Moçambique, onde fez amizades de sangue que nunca esqueceu. Nesses quatro anos de alguma felicidade, teve quatro filhos e uma filha da mulher, a quem puseram o nome de Maria, porque desejavam que a filha fosse um exemplo de mulher, como a mãe de Cristo, e “do Céu”, porque a mãe, devota seguidora do padre da aldeia, gostava de uma passagem da homilia, em que se faz referência à “Glória do céu”.
Com cinco gravidezes e actividade física restringida às lides domésticas e a tratar dos filhos e do “home”, o corpo de Maria do Céu tornou-se desinteressante (sem nunca o ter sido) aos olhos de Félix. O casamento pela igreja e a “vergonha” não davam coragem a Félix para deixar a mulher, apesar de ele ter a certeza que era isso que queria nos festejos do  quarto aniversário. Precisava de uma reviravolta na sua vida!
Um mês depois aconteceu uma reviravolta ao país, através de um golpe de estado, com o objectivo (aparente) de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Félix Da Silva De Pereira não era muito inteligente, mas não se deixava ir pelas “ondas como os cardumes” e apercebeu-se que o “Democratizar” aconteceu por um triz, visto que alguns (talvez a maioria) capitães de Abril queriam acabar com uma Ditadura de direita e impor outra, tornando Portugal um país satélite da União Soviética; o “Descolonizar” foi apressado, fazendo 500.000 portugueses voltar à metrópole, sem nada e deixando as ex-colónias entregues a facções armadas e a população africana desprotegida; e o “Desenvolver”, através de uma reforma agrária medieval!
- Isto eu não festejo! – Pensou Félix, ainda longe de imaginar o que esperava o país, a nossa “classe política”.
Mas graças ao 25, Félix festejou os dias 26, 29 e 30, datas correspondentes aos seus 3D’s de Abril.
Festeja o “Divertir”, a 26 de Abril. Sem medo junta-se com os amigos na mesa do café ou na rua e expressa as suas opiniões e no fim vai para casa em vez de ser preso…não imaginava que fosse tão animado falar sem ser em surdina e a espreitar por cima do ombro!
A 29 de Abril festeja o “Divorciar”. Foi neste dia de 1974, que chega a casa com os papéis para o divórcio e encontra a mulher de mini-saia, a mostrar as “carnes” e a fumar SG Gigante e com uns papéis de divórcio, também na mão. Foi um espanto para ele…sempre pensou que Maria do Céu fosse feliz, a cozinhar, a limpar, a “apanhar” de vez em quando e a cuidar dos filhos e dele!
No dia 30 terminam os festejos de Abril, com o último “D” de “(en)Dividar”, o maior rasgo de desenvolvimento e modernidade português.
Neste dia de 74, Félix foi ao banco onde trabalha o amigo Tone e pergunta-lhe pelo estado da “conta”.
- Não tens dinheiro…mas também não deves nada a ninguém! – esclarece Tone.
- Está mal! – Responde Félix, continuando – Dá-me um crédito qualquer que me crie dívida.
Ao longo dos anos, Tone deu-lhe créditos para tudo, tornando Félix numa personalidade fiscal falida, mas moderna!

Nos festejos dos quarenta e um anos dos 3D’s de Félix, este foi obrigado a festejar o “dia da liberdade”, o 25, de cravo na lapela pela PDPC-DGS (Polícia do Politicamente Correcto-…)…mas o “D” de “Democratizar” vai festejar às escondidas desta, ao celebrar os quarenta um anos do 25 de Novembro de 1975.

domingo, 1 de maio de 2016

A tasca.

Quim, homem de esquerda, canhoto desde a primeira classe, quase deficiente das forças armadas, quando rasgou a gengiva ao abrir uma cerveja com os dentes, no Quartel de Chaves, é, ainda hoje, dado a frases feitas.
Apesar de nunca ter sofrido as agruras do Ultramar, diz que a sua cicatriz (que não se vê) resultou da explosão de uma granada durante uma missão no meio do mato.
Na altura, na enfermaria, aplicaram-lhe cinco pontos na ferida e desinfectaram-na com álcool, hábito que adoptou desde então, ano de 1969.
Actualmente é dono da “Tasca da Berta”, nome da enfermeira que o tratou, onde se bebe, não para molhar a palavra, mas para sarar as feridas, e tanto se bebe,  que naturalmente as cirroses começaram a aparecer!
Quem passa na rua, sempre pelo outro lado, sacudidos pelo cheiro, que atrai só os que têm vinho nas veias, vê pela porta, que se apresenta como uma moldura de um quadro de outros tempos, um balcão de madeira. Por trás, várias bancadas com garrafões e o Zé, o empregado, criteriosamente seleccionado e que se apresenta todos os dias ao trabalho, não de farda, mas sempre com 2 gramas de álcool por litro de sangue. Da parte da frente do balcão, sempre uma meias dúzia de bêbados para atender e aturar e no chão um grande tapetão com um bordado a dizer “O povo é quem mais bebe”, tapado há décadas pelo vomitado da clientela.
Todos os anos para dinamizar a tasca, o Quim promove um concurso com um prémio de três cálices de tinto, maduro ou verde, para quem adivinhar o dizer do tapetão e no tecto a única mensagem legível num pano colocado há seis anos, que diz “Assim, se vê, a força do Tinto”, para dinamizar a tasca com um concurso mensal, visto que ele se esquece, amiúde, do concurso anual, em que a clientela tenta vomitar o pano...ainda não há vencedores, nem para um nem para outro concurso e o único dinamismo visível é o decréscimo de clientes, conforme vão sendo internados, ou numa cama de hospital quando a bebedeira é moderada, ou no cemitério, quando a bebedeira é de caixão à cova.
Lá dentro, mesmo no Verão, quando os dias são longos, o ambiente escurece à medida que se bebe, parecendo por vezes meia noite quando é meio dia, e hoje, quando faltavam vinte minutos para as doze horas, o Ramos atravessou a porta para outro mundo e veio para o passeio.
- Que puta de gaja boa! – exclamou, com o máximo de cuidado que o maduro permite.
No outro lado da rua passava uma mulher anafada, de banhas expostas pelo top que vestia e coxão quase a rebentar-lhe as calças. Ela, indiferente ao comentário, sorri por dentro pelo elogio recebido!
- Ui, será que é mesmo boa?! – pergunta Ramos para si mesmo! – Ó pessoal, vinde cá fora. – chama pelos outros companheiros de copos. E aparece o Quim.
- Ó Quim, aquela gaja é boa? – pergunta.
- Que gaja? Não sei! – responde – Ó Zé, anda cá.
Sendo o menos bêbedo, porque se encontra no local de trabalho, sempre que há questões duvidosas, o Zé é chamado para esclarecer.
- O Ramos está ver uma gaja boa! Eu não estou a ver nenhuma gaja! E tu? – pergunta o Quim.
- Eu estou a ver o sapateiro! – responde ao ver a gorda, agora em sentido contrário, de bolo de aniversário na mão.

-Ahhhhh! – exclamam os outros dois.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Donos da razão

- O Pai Natal, não existe. – diz-me arrogante como se eu fosse burro.
- Existe, existe! – respondo, incrédulo.
- Tu é que és burro! – diz-me aquele pirralho.
- Não! Tu é que és burro.
- Tu é que és!Seu nabo!
- Se eu sou nabo, tu és burro e nabo!
Enquanto nos gladiávamos com palavras, os corpos iam-se aproximando.
- Tu é que és burro e nabo!
- Seu burr…
E os corpos encostam-se e a gadulha começa!
Em criança era assim que no recreio da escola, decidíamos quem tinha razão. Sem a arte do argumento, quem tinha razão era o mais forte, ou mais gordo…eu nesse tempo tinha a vantagem do peso sobre os outros meninos e quase sempre tinha razão, como nesse dia! O Miguel, ao sentir os meus quilos de chicha, voltou a acreditar no Pai Natal.
Apesar de ser por volta dessa altura que começámos a ter as nossas tendências profissionais, e a escolha recaía, invariavelmente, sobre ser piloto de rallies, jogador da bola, polícia, bombeiro, eu cá queria ser alpinista, fruto do encanto de um programa que dava aos sábados à tarde, que se chamava “A conquista do Everest” e conheci um miúdo que queria ser palhaço, mas o que todos inconscientemente queríamos era simplesmente...ter razão!
Era de prever que com o tempo, o caminho estreito e correcto para a busca da razão fosse encontrado…mas ao que parece, continua desconhecido. Para o Miguel isso pouco importa porque aquela lição na primária fez-lhe encontrar a ilusão de ter razão, não defendendo nada, apenas descredibilizando os outros…é agora um importante líder parlamentar e continua a acreditar no Pai Natal!
Mas passados muitos anos, eu e uma grande maioria, que já não acreditamos no Pai Natal, continuamos a rondar a Razão, usando fórmulas, quase ou tão infantis como as usadas em criança. Há quem A puxe para si, falando mais alto e por cima dos outros ou quem os diminua nas suas capacidades físicas (esta é a minha fórmula preferida e ontem fiz uso dela).
Estava num jogo de bola e vendo o caso mal parado, quando sofro uma falta a meio-campo, peço penalty. Perante a gargalhada do adversário, chamei-os de cegos…e convenci-os disso! O penalty foi marcado mas, com razão, fiquei chateado com a falta de seriedade do adversário.
Para me animar, um amigo de equipa, diz-me, “No fim, vou levar-te a um sítio!”.
Arrancámos e andámos muito, não sei o nome do local, mas era bem longe da Trofa e completamente estranho. À entrada do edifício, por cima da porta, uma faixa com a inscrição “Speed Dating com a Razão”, que não deixava dúvidas de que não estava num restaurante…que pena, estava cheio de fome. Entro e rapidamente me apercebo de que a sala está cheia, vou passando os olhos pelas caras e conheço muitas delas, principalmente do Facebook, que se indignam ferozmente nas redes sociais com qualquer contrariedade como se isso lhes valesse a Razão…deixei-me estar num cantinho.
Os encontros, apesar de rápidos, fizeram-me esperar muito tempo. Fui o último a entrar na sala onde iria ter a minha hipótese com a Razão. Sentei-me e Ela olhava para mim sem nenhum tipo de cansaço na expressão, ao contrário de mim, e olhava-me serena e firme. Tentei disfarçar a insegurança e lancei um olhar sensual, treinado em casa desde há muito tempo, e uma posse igualmente fabricada, cujo binómio julgo irresistível! Ela fez um sorriso triste, apercebendo-se da falsidade da pose, que de seguida fechou e de expressão imóvel cai-lhe uma lágrima pelo rosto. Percebi que aquela lágrima não era por mim, mas por todos que lá passaram, e não A conseguiram seduzir!
Saio da sala e ao fechar a porta, volto a olhá-La e vejo-A abraçada à Racionalidade.

Vim embora a pensar se os outros teriam visto o mesmo que eu!

domingo, 13 de dezembro de 2015

Adivinhação

Apesar de nunca me ter sentido apto a “capacidades do Além” e de nunca arriscar, durante anos, dizer que sim, quando me perguntavam se achava que o meu clube ia ganhar (sou sportinguista), há muito boa gente, e quando digo boa gente, é-o mesmo, que num toque de “eu sou mesmo interessante”, tenta prever “o que vem a seguir”, como se lhes conferisse um toque de sofisticação e inteligência!
Também assim o fui, em criança, quando teimava em terminar as frases da minha professora Maria Luísa:
- Está na hora... – e cortando-lhe a frase, completava.
- ...Do recreio. – e sorria para ela.
- Isso mesmo Zé! Muito bem! – respondia-me, paciente.
E os meus olhos atravessavam o resto da turma com um sorriso, como que dizendo, “Eu é que sou fino”.
Mudei sem saber se melhorei e comecei a deixar as pessoas falar até ao fim, e de extraordinário...bem, a minha mãe, sem eu saber porquê, está convencida e pensa que me convenceu, de que sou muito bom a escolher melões, sem olhar para o seu interior, e dizer se estão bons ou não! Nunca desmenti tal incapacidade e agora não tenho coragem para lhe revelar a verdade!
Hoje à tarde:
- Ò pá, eu tinha a bola nos pés, finto um, finto outro, driblo o guarda-redes...
- E marcas-te um grande golo!
- Não, pá! Não sei como, mas torci o pé e chutei a bola ao lado! O jogo parou e eu não conseguia jogar...
- E a tua equipa jogou com menos um. Que chatice!
- Não! Fui para a baliza. Agora, tenho que ter paciência, a andar dói-me...
- Muito, dói-te muito. É natural!
- Pouco. Dói-me pouco. Mas amanhã já...
- Vais ao massagista. Fazes bem, se quiseres indico-te um muito bom que...
- AMANHÃ, vou jogar outra vez. Vou ligar bem o pé e vou JOGAR OUTRA VEZ. – respondo ao meu bom conhecido em tom “viçoso”, recuperando a característica de criança, quando terminava as frases da minha professora, sem ela ter pedido.
- Pronto, está bem, mas deixa-me terminar! – diz-me o meu bom conhecido, incomodado pela interrupção - Se precisares conheço um massagista muito bom e não leva caro. E então, amanhã vais jogar com quem?
- Olha! Vou jogar com o Nando...
- Ele joga bem, não joga?
- Nem por isso! É um marreta. Também joga o Sequeira...
- O Sequeira é um bocado marreta, não é?!
- Não. O Sequeira joga bem! Também joga o meu irmão...
E desta vez não sou interrompido pelo bom conhecido, mas pelo toque do telefone.
- É uma admiradora? – pergunta-me, sem ter acertado, mais uma vez!
“Só me restam saudades”, pensei, e respondi-lhe – É a minha mãe. Espera um bocadinho, vou atender.
Após o telefonema.
- Ó Meireles, tenho que ir. A minha mãe...
- Tens que ir buscá-la. Fazes bem, Mãe só há uma!
- Não pá! Pediu-me para ir ter com ela à frutaria para escolher dois melões!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Dependências

Suzy, de 36 anos, sempre de hábitos simples, nunca teve nenhuma dependência. Em miúda, um dia o pai perguntou-lhe: – Filha, queres uma carteira de cromos da “Candy”?
- Não meu pai! Eu bem vejo como estão as minhas amigas, drógadas pelos cromos!
Esta simplicidade, desprendida de vícios, que sempre pautou a vida de Suzy, acabaria por mudar, quando há três anos atrás comenta com uma colega da confecção - Ninguém gosta de mim!
- Suzy, “gostar” é tão parolo como a saia travada com folhos que usas! O que interessa são os “likes”! – responde a colega de Suzy, com a mão em posição de quem pede boleia.
Depois de devidamente instruída, dois dias após, Suzy já tem um computador pessoal, uma conta aberta no Facebook e três saias novas, mandadas fazer numa modista amiga dela, muito jeitosa. Ao fim de 5 meses, já tem 4136 amigos, dos quais, pessoalmente, apenas conhece a colega de confecção, e 7 seguidores.
São 7 horas da manhã, o despertador toca. Estremunhada, Suzy acorda e abre o computador, com o qual dorme, pousado a seu lado. No Facebook “posta”: “Ui, ui, que soninho! Lol”.
Espera ansiosa, antes de sair da cama, por um “like”…que acontece ao fim de 15 minutos e que lhe soube melhor do que um café! Pincha da cama, lava os dentes sem ter tomado o pequeno-almoço, pelo atraso do “like”. Entra no carro, arranca e pára 50 metros à frente porque se esqueceu de colocar o cinto. Antes de o colocar, através do telemóvel, “posta” no Facebook: “Helloooo, arranquei sem pôr o cinto! ;-)”. Ao fim de 34 minutos recebe o primeiro “like” e de seguida um segundo…Animada, coloca o cinto e arranca.
Suzy chega atrasada à confecção. Antes de “picar” para dar início ao trabalho, “posta” novamente no Face: “Migos e migas, estou triste. Por mais cedo que me levante, nunca chego a horas ao trabalho! ”. Recebe novo “like” ao fim de 20 minutos, dando-lhe força para “picar” e avançar firme, com mais 20 minutos de atraso, para a sua “corta e cose” Siemens.
O resto do dia segue de forma costumeira, com “posts” frequentes e a espera ansiosa por um “like”.
À noite, no regresso a casa, tem um furo no pneu. Animadita, “posta” no Face: “Que chatice, tive o meu primeiro furo!”
Nesse momento, Guedes, mecânico e amigo facebookiano, distraidamente, faz “like”, enquanto passa, a pé, por Suzy, que se mantém de olhos postos no telemóvel. Estão alheios à existência um do outro!
Suzy chega a casa. O cansaço é superior à fome e decide por isso deitar-se, mas não sem antes partilhar com o mundo: “Mudei um pneu, estou cansada e vou dormir!”
Antes de “mergulhar” na cama, Suzy, espera pelo consentimento supremo de um “like” de um desconhecido qualquer, feito amigo, ao alcance de um click!
Passa uma hora, duas, ninguém responde…são cinco da manhã. Suzy desespera, em pé, ao lado da cama pelo primeiro “like”, para se deixar tombar…Seis da manhã, sete… e o despertador toca sem que Suzy se tenha deitado!
Em vez de tomar o caminho do trabalho, Suzy segue directa para o psiquiatra.
Exausta, explica a razão de uma noite sem dormir. Dada a gravidade da situação, o médico faz um pedido de amizade a Suzy e receita-lhe:
- Menina Suzy, quando chegar a casa, aceite o meu pedido de amizade! Iniciado o tratamento, faço imediatamente dez “likes” na sua página, para poder dormir. A partir de amanhã, os “likes” serão de 8 em 8 horas, se não for suficiente aumentamos a dose para “likes” de 6 em 6.

Pior do que perder uma Nação é perder a soberania individual!

domingo, 29 de novembro de 2015

Quase...quase

Leopoldina, nascida nos anos 50’s, quase nova, com a marca de “solteira” gravada pelo destino cruel que levou a sua grande paixão, o Lima, que deixou de escrever as lindas cartas de amor, que mesmo sem se conhecerem a cativou com as palavras doces, confessou à sua melhor amiga:
- Estou a viver um grande amor! Ele chama-se Lima. Não tarda vou casar!
- Quem?!  - pergunta a amiga, que com a Leopoldina partilha as mesmas amizades e pessoas conhecidas.
- É um rapaz que não conheço, que gosta de mim e carinhosamente me trata por Gustinha! – responde, tentando esconder o sorriso na timidez.
As cartas deixaram de aparecer, quando o Silva, carteiro das 8 às 16, de segunda a sexta e alcoólico de segunda a domingo, desde que acorda até se deitar foi despedido, e as cartas de Lima com destino à caixa de correio de Gusta, passaram a ser entregues no destinatário correcto.
Por alturas de Novembro, mês em que o Silva festeja a última bebedeira paga com o ordenado dos CTT e Leopoldina recebeu, por engano, a última carta, relembra ano após ano, que quase casou e festeja soltando um suspiro seguido de um “ai, ai!”.
Juntou quase uma fortuna, desde que recebeu a primeira carta de Lima, depois de Silva ter bebido três cervejas a acompanhar um café com cheirinho, até à última, para o arranque da vida de casada. 
Desde há quarenta anos, faz todos os dias úteis o mesmo percurso, a pé, para o local de trabalho. De tanta ida e volta, os sapatos rasos de Leopoldina estão marcados no passeio e todos respeitam estas marcas como se fossem uma passadeira válida apenas para ela.
Durante o tempo que passou entre as três cervejas a acompanhar um café com cheirinho e o despedimento de Silva, Leopoldina fazia este trajecto em passo acelerado e quase ficou em forma para o Lima...queria usar na noite de lua-de-mel um cuecão reduzido!
Sempre trabalhou no notário da terra (apesar de quase ter sido decoradora, o seu sonho, quando viu um anúncio no jornal) e há tanto tempo, que sente que foi prometida, pela mãe, para aquele trabalho. “Ainda bem!”, relembra-se amiúde. Caso tivesse sido prometida ao filho de um casal qualquer, nunca teria vivido a grande estória de amor.
Como quase foi mãe, caso tirasse o cuecão reduzido na lua-de-mel se o Silva não tivesse sido despedido, sente-se por isso abençoada e com jeito para as crianças. Sempre que um casal amigo quer passar um serão romântico, na cervejaria “Albuquerque” a comer uma francezinha e a beber uma cerveja, ela oferece-se para tomar conta das crianças.

Nestes serões com as crianças, gosta de falar de si, elas ouvem atentas, e pacientes, escutam a vida quase feliz de Leopoldina!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Liberdades

Félix, assina, como no bilhete de identidade, Felix Da Silva De Pereira e é conhecido em casa por pai e “óme”, mas é mais conhecido entre os amigos por Félix e mais conhecido entre os conhecidos por Félix. Quando conhece alguém apresenta-se como Félix Da Silva e entre quem não o conhece é conhecido por “aquele gajo, pá!”.
Em Março de 1974 fez quatro anos de casado, cerimónia que aconteceu em 1970, após a chegada de uma missão de dois anos e meio no norte de Moçambique, onde fez amizades de sangue que nunca esqueceu. Nesses quatro anos de alguma felicidade teve quatro filhos da mulher, a quem os pais puseram o nome de “Maria”, porque desejavam que a filha fosse um exemplo de mulher, como a mãe de Cristo, e “do Céu”, porque a mãe, devota seguidora do padre da aldeia, gostava de uma passagem da homilia, em que se faz referência à “Glória ao Céu”.
Com quatro gravidezes e actividade física restringida às lides domésticas e a tratar dos filhos e do “home”, o corpo de Maria do Céu tornou-se desinteressante (sem nunca o ter sido) aos olhos de Félix. O casamento pela igreja e a “vergonha” não davam coragem a Félix para deixar a mulher, apesar de ele ter a certeza que era isso que queria nos festejos do  quarto aniversário. Precisava de uma reviravolta na sua vida!
Um mês depois aconteceu uma reviravolta ao país, através de um golpe de estado, com o objectivo (aparente) de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Félix Da Silva De Pereira não era muito inteligente, mas não se deixava ir pelas “ondas como os cardumes” e apercebeu-se que o “Democratizar” aconteceu por um triz, visto que alguns (talvez a maioria) capitães de Abril queriam acabar com uma Ditadura de Direita e impor outra, tornando Portugal um país satélite da União Soviética; o “Descolonizar” foi apressado, fazendo 500.000 portugueses voltar à metrópole, sem nada, e deixando as ex-colónias entregues a facções armadas e a população africana desprotegida; e o “Desenvolver”, através de uma reforma agrária medieval!
- Isto eu não festejo! – Pensou Félix, ainda longe de imaginar o que esperava o país, a nossa “classe política”.
Mas graças ao 25, Félix festejou os dias 26, 29 e 30, datas correspondentes aos seus 3D’s de Abril.
Festeja o “Divertir”, a 26 de Abril. Sem medo junta-se com os amigos na mesa do café ou na rua e expressa as suas opiniões e no fim vai para casa em vez de ser preso…não imaginava que fosse tão animado falar sem ser em surdina e a espreitar por cima do ombro!
A 29 de Abril festeja o “Divorciar”. Foi neste dia de 1974, que chega a casa com os papéis para o divórcio e encontra a mulher de mini-saia, a mostrar as “carnes” e a fumar SG Gigante e com uns papéis de divórcio, também na mão. Foi um espanto para ele…sempre pensou que Maria do Céu fosse feliz, a cozinhar, a limpar, a “apanhar” de vez em quando e a cuidar dos filhos e dele!
No dia 30 terminam os festejos de Abril, com o último “D” de “(en)Dividar”, o maior rasgo de desenvolvimento e modernidade português.
Neste dia de 74, Félix foi ao banco onde trabalha o amigo Tone e pergunta-lhe pelo estado da “conta”.
- Não tens dinheiro…mas também não deves nada a ninguém! – esclarece Tone.
- Está mal! – Responde Félix, continuando – Dá-me um crédito qualquer que me crie dívida.
Ao longo dos anos, Tone deu-lhe créditos para tudo, tornando Félix numa personalidade fiscal falida, mas moderna!


Nos festejos dos quarenta e um anos dos 3D’s de Félix, este foi obrigado a festejar o “dia da liberdade”, o 25, de cravo na lapela pela PDPC-DGS (Polícia do Politicamente Correcto-…)…mas o “D” de “Democratizar” vai festejar às escondidas desta, ao celebrar os quarenta anos do 25 de Novembro de 1975.

domingo, 22 de novembro de 2015

Sujeição

Quase tudo se sujeita a algo! A intenção à pontuação, as palavras à expressão, o corpo à alimentação, as árvores ao vento (e o meu penteado, também), a beleza aos olhos de alguém, o comportamento às leis (e o fora de jogo, também), a História a quem a escreve, a postura à aceitação (a não ser que sejas o dono da bola), o apetite à fome, a corrente ao declive, os olhos à luminosidade, as rugas ao sorriso e ao choro (e aos cremes, também), a felicidade a ti (e a tristeza, às vezes, também), a vitória ao adversário (ganho sempre, se perdi, esqueci!), a saudade a quem está ausente, o caminhar à vontade, o trabalho à necessidade, a Natureza ao Homem (ontem transplantei oito gardénias), a espécie extinta à vaidade (menos o tamagochi?!),...
Quase tudo é subjectivo, sujeita-se a algo! E como costuma dizer um amigo meu, do alto da sua sabedoria, quando alguém opina sobre qualquer coisa, “Depende!”.
Para ele quase tudo “Depende” e facilmente é confundido como “gente sem opinião”. Mas é dos raros com o dom de “desacelerar” e pensar. Facilmente chega à conclusão que as poucas certezas que tem são as da matemática e os resultados que as contas de “mais”, de “menos”, de “dividir” e de “vezes”, lhe dão.
Sem hesitar diz que “2+2”, são “4” e quando alguém fica a pensar com dúvidas sobre o resultado de “8x7”, de postura rija e cheio de autoridade, responde, “56”.

Tudo se sujeita a algo! Até a matemática a algumas teorias, o Manel sempre à Maria, o papel à mão que escreve, o convívio aos amigos (e ao copo de vinho), o José ao Calheiros (senão era outro), o livro ao leitor, o pavão à apreciação (da pavoa!), a velocidade ao limite (no meu caso ao limite inferior),..., e todos nós à comparação (para a minha mãe sou o melhor).
Tudo é subjectivo, sujeita-se a algo! E como costuma dizer um amigo meu, do alto da sua sabedoria, quando alguém opina sobre qualquer coisa, “Depende!”.
Para ele tudo “Depende” e facilmente é confundido como “gente sem opinião”. Mas é dos raros com o dom de “desacelerar” e pensar. Facilmente chega à conclusão que certezas não tem nenhuma, nem quando fala das contas de “mais”, de “menos”, de “dividir” e de “vezes”, da matemática.
Para ele “2 e 2”, não são “4” e quando alguém fica a pensar com dúvidas sobre o resultado de “8 e 7”, de postura rija, responde, “Depende do sinal que puseres entre os números”.


Não existe uma realidade, mas tantas quantas pessoas existem! Quem tem razão? Depende!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Massificação

Tinha o sonho de ser um comando, daqueles que destroem exércitos inteiros…até ir para aquela escola! Nessa escola fiz dois amigos para a vida inteira, o António, que queria ser palhaço, e o Joaquim, que queria ser girafa no Jardim Zoológico (apesar  da baixa estatura, ele tinha muito jeito para imitar as girafas).
No primeiro momento dentro da sala de aulas, a professora, de farda cinzenta, sem maquilhagem e traços rudes, que quase se confundia com um homem, disse-nos:
- Se tendes sonhos, é melhor secá-los. Ides ser todos iguais.
Durante os anos foi-nos ensinada a imoralidade da individualidade, de ter sonhos e de alcançá-los. Impuseram-nos uma felicidade baseada no medo do sucesso (fosse material ou não).
Apesar do meu sonho de menino, aquelas primeiras palavras de há sessenta anos atrás foram um consolo! Como fiquei com medo de ser bem-sucedido, deram-me a mim e aos outros, naquela escola, o conforto da mediocridade.
Nunca ninguém se destacou, nem o que estudava e tirava boas notas, nem os calaceiros (aquilo em que me tornei), com as suas notas suf -.
Não havia mais bonitos e mais arranjados, o pentiadinho tinha o mesmo sem brilho que aqueles que não tomavam banho.
Disse à minha mãe que não precisava de comprar mais perfume, nem pentes para me aprumar logo pela manhã! Por isso e com o passar do tempo, de mais bonito, passei a ser mais um, que namorou com mais uma…e deixámos de ter nome e uma imagem, mas deram-nos uma farda e ficámos todos iguais. Com dificuldade distinguia a rapariga de quem gostava, quando estava junta com as amigas! Ainda hoje tenho dúvidas se a miúda a quem pedi em casamento e hoje é mãe dos meus cinco filhos é a rapariga de quem gostava! Mas também não faz mal, eram todas muito parecidas e interessantes da mesma maneira. As conversas que tinha com uma ou com outra ou até com outro eram todas iguais. Pensávamos o mesmo sobre os mesmos assuntos, tanto naquilo com que concordávamos, como naquilo que nos indignava ou aquilo a que simplesmente encolhíamos os ombros, tudo aprendido do mesmo manual e ensinado pela mesma professora! Não sei o que é discordar dos meus camaradas, denominação ensinada na escola, e nunca discuti com a minha mulher…apesar das dúvidas que ainda tenho sobre ela ser a certa!
Para matar saudades e tentar confirmar quem é aquela que tenho em casa, por vezes olho para uma fotografia de grupo tirada naquele tempo, salvo erro no quarto ano, todos simples, como se quer, apesar de um simplório destoar, o mesmo corte de cabelo, a mesma expressão zangada (aprendida nesse ano) e cinzenta (aprendemos a não sorrir no terceiro ano). Não distingo ninguém, aliás minto, vejo um de nós a esticar o pescoço, e aposto que é o Joaquim, que no seu íntimo nunca deixou de querer ser girafa…era um rebelde. Partilhávamos o mesmo quarto e durante a noite ele ousava sonhar com cores, quando, ainda no primeiro ano, aprendemos a sonhar entre o cinzento e o preto.

O que no início me assustou e depois me consolou, foi que o “MAIS” valia o mesmo que o “MENOS”!

domingo, 11 de outubro de 2015

Adélio Dani (20º episódio)

...
Nasce um novo dia em Campanhã, Adélio cada dia que passa está mais seguro que o dia nasce também para todo o país.

Dália já saiu para o mercado sem a preocupação do arranjo floral enquanto Adélio está na casa de banho a fazer chichi, para depois voltar para a cama. A meio da manhã acorda e toma um pequeno-almoço vigoroso, para o último dia de colagem de cartazes: um copo de leite e um pão, que seria com manteiga se ela não tivesse acabado no dia anterior.
Nesse dia, a sua acção seria bastante selectiva, estilo sniper, colaria cartazes apenas aonde ainda houvesse cartazes dos adversários à vista. Quanto aos líderes do SP-CPVT, inovaram, e em vez da tradicional campanha de feira, optaram pela campanha de esplanada, sentadinhos e com cervejola na mão…ou copo de leite morninho.
Chega a meia-noite e o fim de campanha. A cúpula do partido e o seu militante tinham combinado reunirem-se na tabacaria do Viriato. Enquanto não estão todos reunidos, os presentes vão fumando e vendo revistas porno e riem-se com algumas posições acrobáticas dignas de “circo”.
O último a chegar é Adélio, que colou a última metade do último cartaz dois segundos depois da meia-noite, sendo apanhado em incumprimento por um dos inspectores de campanha e que perante os regulamentos, Adélio pode sofrer, à sua escolha, uma de três advertências, a saber: Primeira - pagar uma multa ou subornar o inspector; segunda - pagar uma coima ou subornar o inspector; terceira – se tiveres uma irmã boa, apresenta-a ao inspector, se não tiveres, pagas uma multa e uma coima ou subornas o inspector, hoje e amanhã.
Adélio escolheu a terceira opção e tem dezoito anos para a pagar. Torna-se desta forma ainda mais urgente libertar o pai da “colcha rendada espiritual”, juntá-lo com a mãe e esperar que esta prenhe de uma menina!
Adélio chega à tabacaria a correr, às 00:30 horas. Está tudo muito alegre, menos João Inseguro que está a ressacar pela falta de um copo de leite morninho. Viriato, na sua tabacaria só vende bens de consumo para homens. Mais de metade da sua clientela já morreu de cancros diversos e cirrose…a venda de leite está proibida!
- Chegou o homem! Adélio, não percas o lanço e vai depressa à bomba comprar um litro de leite! – Diz Pietra Anda Lebre.
Sem parar, Adélio dá meia volta e corre em direção à bomba de gasolina mais próxima. Pelo caminho pensava: “Como é que vou fazer? Não tenho dinheiro e roubar não roubo!”.
Inexplicavelmente, Adélio cruza-se por um biberão cheio de leite e morninho e grita: – “Que sorte!”.
Dá meia volta e regressa à tabacaria. Quando chega:
 - Depressa, dá-me isso! – Diz Pietra Anda Lebre e enfia o biberão na boca de João Inseguro, que já revirava os olhos.
Após a recuperação de Inseguro, juntam-se à volta de uma mesa. Combinam, sem consenso, quem representaria o partido na mesa de voto no domingo, dia de eleição. Não que não quisessem estar presentes, mas ninguém queria ter que se levantar tão cedo, pois todos tinham “cenas” combinadas para sábado à noite. Jerónimo Setúbal relembra os fundamentos de esquerda, massificadores e com pouco respeito pela individualidade do SP-CPVT e propõe: – Vamos todos para a mesa de voto!
A moer, os restantes concordam!

Chega o domingo, dia de eleições. São sete da manhã. Adélio está a fazer chichi para voltar para a cama e os líderes partidários do SP-CPVT estão a acordar para se apresentarem na mesa de voto colocada na Escola Primária de Campanhã, que abre às 8 horas. Às 07:40 todos os líderes do SP-CPVT estão à porta da escola.
- Preparados, camaradas? – Pergunta Jerónimo Setúbal.
- Hum! – responde Pietra Anda Lebre.
- Eu ainda não tomei o meu leitinho! – Diz João Inseguro, amuadinho.
- Eu vi na televisão que o tempo para hoje vai estar muito bom! – Diz Joaquim Portão.
- E se nós, como verdadeiros defensores da ideologia de esquerda do nosso partido, fôssemos todos a reboque uns dos outros para a praia… que eu quero?!
- Boa ideia! E quem representa o partido? – Pergunta Jerónimo Setúbal.
- O Adélio. Ele é colher para toda a massa do partido.
- Boa, bem visto! – Apoia José Inseguro, e prossegue: – A caminho da praia, podemos parar para tomar o pequeno-almoço?
Põem-se a caminho da casa de Adélio, de onde o carregam e o levam para a mesa de voto e onde lhe explicam que vai representar o partido. Chegam à Escola Primária de Campanhã às 08:30, deixam o Adélio e arrancam para a praia de Moreiró, em Labruge.
Adélio entra na sala onde vai decorrer a votação e reconhece os representantes dos outros partidos. Todos eles são jovens com quem Adélio já se tinha travado de razões durante a campanha eleitoral. Todos eles eram coladores de cartazes…sem cão! Adélio toma o seu lugar na mesa de voto e o tempo passa sem que ninguém entre… e a temperatura a aumentar….O tempo não parava de passar e em vez de entrarem votantes, os outros responsáveis partidários foram abandonando a mesa de voto, para irem para a praia. Às dez horas, Adélio estava só!
Sem boleia para ir à praia e sem nada que fazer, Dália decide ir votar. Na Areosa, Augusto acorda, olha para o lado e dá um berro, assustado com as feições da senhora de meia-idade deitada a seu lado. Com o berro a senhora acorda e Augusto para escapar o mais depressa possível, diz-lhe a primeira coisa que lhe vem à cabeça: – Vou votar, até logo! – Ao que a senhora pergunta: - Logo à noite apareces para me coçar o pézinho?
Sem responder, Augusto sai a pensar: “Tenho que ser mais selectivo…mas esta era a melhorzinha!”
Dália e Augusto, vindos de lados opostos aproximam-se da escola primária de Campanhã. Dália chega primeiro, entra na sala de voto, olha para a mesa e vê o seu filho.
- Adélio! Vieste votar? Podias ter dito, que vinha contigo.
- Não mãezinha querida, vim como representante de um partido, mas toda a gente foi-se embora e agora também sou o Presidente da mesa de voto! – Explica Adélio.
Dália, ao ouvir estas palavras que soaram melhor que mel para os ouvidos, desmaia atropelada por este “veículo pesado” de emoção…é o sonho de mãe de muitos anos que vê concretizado, quando pensava que já não havia salvação, após o esgotamento de Adélio aos cinco anos e meio!
Após o tombo de Dália, Augusto entra na sala de voto e avista Adélio que não vê há anos mas não o reconhece!
- Paiiiiii! – Exclama Adélio quando vê Augusto.
- Adélio???!!!!!! – Pergunta Augusto, com espanto.
- Sim pai, sou eu! A mãe caiu!
Augusto olha para baixo e vê uma mulher desmaiada, que lhe parece a sua mulher Dália.
- Não te preocupes Adélio, vou dar um beijo de príncipe à tua mãe!
- Pai, é melhor fazeres-lhe uma respiração boca a boca! – Propõe Adélio.
- Então faço um “dois em um”!
Augusto baixa-se, e encosta os seus lábios nos lábios de Dália. Ao primeiro toque, Dália abre os olhos, vê Augusto e pensa: “Finalmente vou comer bacalhau!”. Ao ver aquela imagem terna dos progenitores, Adélio debruça-se e abraça os pais, feliz por Dália recuperar a consciência e continuar a ter quem cozinhe lá em casa e pelo pai voltar ao mundo dos vivos, depois de se libertar da “colcha rendada espiritual”!
Ao fim de tantos anos, Adélio finalmente vê a família reunida e solta um berro de felicidade, semelhante ao de um Panda, quando escapa aos caçadores furtivos!

Devido à sua incompetência, Adélio faz uma careira brilhante no partido, tendo chegado a Primeiro-ministro com quinze cursos superiores acumulados, algumas engenharias tiradas ao domingo e outros cursos tirados em três semanas, por equivalências!
Adélio fica bem na vida, assim como seus pais, que ficam ricos depois de deixarem de trabalhar!

                                            FIM

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Adélio Dani (19º episódio)

...
Nessa noite, é “noite da mulher” no “BL Show”. São 22h. O padre Rodolfo estaciona a viatura paroquial próximo da danceteria “BL Show” e antes de sair do carro olha-se no espelho retrovisor e apercebe-se que não colocou o foco na orelha esquerda.
Regressa a casa, coloca o seu disfarce e retorna, agora sim, como Alex. São 23h quando entra na danceteria, apinhada de mulheres entradotas e de galanteadores experientes!
Alex busca Augusto com vontade de o desmascarar. Vê-o na pista de dança a bailar “De quem será o pai da criança”, com uma atleta medalhada, paraolímpica, manca das duas pernas, que não parece que manca! Todos os galanteadores do “BL Show” têm vontade de dar uma trinquinha nesta “perolazinha”!
Alex dirige-se como um foguete e em dança até Augusto, agarra-o pelo braço e puxa-o para o mesmo canto da última vez que falaram. A atleta paraolímpica, sem o apoio de Augusto, cai para o lado direito!
- O que se passa Alex…ou padre Rodolfo? – Pergunta Augusto, sem estar a perceber a rudeza de Alex.
- Ouça bem Augusto, estou farto das suas histórias e farto de o seu filho andar enganado a seu respeito! A próxima vez que o encontrar, conto-lhe tudo! – Ameaça Alex!
 - Ai é Alex?… - e Augusto tira o foco da orelha esquerda de Alex, e continua - ou PADRE RODOLFO?
O padre Rodolfo tira o foco que está na mão de Augusto e coloca-o novamente na sua orelha esquerda, e diz – Ó amigo Augusto, estava a brincar! Acha que eu ia contar ao Adéliozinho?! Nem pensar, eu sou sério!
Alex vai embora, não sem antes dizer – O seu filho anda metido na política! – E Augusto regressa à pista, mas o seu par paraolímpico, já está ocupado pelo Sr. Tavares. A esperança de passar a noite no centro de estágios foi-se, mas o seu espírito estava iluminado com o pensamento: “O meu Adélio está a recuperar do esgotamento!”.
Em Campanhã, antes de se deitar, Adélio vai ter com a mãe, que continua à volta do arranjo floral pedido há uns anos por uma cliente!
- Mãe?!
- Sim Adélio, que queres?
- Estou a trabalhar há já uns dias, a colar cartazes e…- antes de terminar e dizer que não era remunerado, é interrompido pela mãe.
- Que bom Adélio, já é uma ajuda e sendo assim, já não preciso de terminar este arranjo! – Diz Dália atirando o arranjo para o chão.
- Mas mãezinha… - e é novamente interrompido pela mãe.
- Não há mas nem meio mas. Vai-te deitar, porque amanhã tens que acordar fresquinho.

Nasce um novo dia em Campanhã, Adélio cada dia que passa está mais seguro que o dia nasce também para todo o país.


(continua)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Adélio Dani (18º episódio)

...
Nesta mesma noite e não muito longe, no salão de jogos de um café havia a reunião dos líderes do novo partido político de esquerda, com liderança repartida por todos os elementos, cinco, que desenhavam a estratégia para as próximas eleições da Junta de freguesia de Campanhã.
Os líderes, João Inseguro, Pietra Anda Lebre, Quico Porcelana, Joaquim Portão e Jerónimo Setúbal, nesta primeira reunião do SP-CPVT (Sou Preguiçoso-Com Pouca Vontade de Trabalhar), acordaram por unanimidade e como verdadeira política de esquerda e igualitária, que todos deviam ser líderes. Quanto aos outros pontos da agenda, todos queriam impor a sua opinião e não havia entendimento…excepto num…teriam de arranjar alguém para colocação dos cartazes para a campanha!

Nasce um novo dia no Porto, Adélio pensa que no resto do país também. Para exercitar o corpo e a mente, Adélio, à porta de casa, vira o corpo para a direita e para a esquerda e repete este movimento quatro vezes, graças à sua excelente preparação física. Antes de sair de casa para ir dar uma volta, como bom filho, chama pela mãe, mesmo sabendo que ela já tinha saído bem cedo para o mercado!
Nesse seu passeio com o seu fiel amigo Rubi, foi avistado pelo quinteto do SP-CPVT, que estava sentado na esplanada da pastelaria “Romrom” a desenvolver trabalho, que entre outros, consistia em “ver quem passa”. João Inseguro, o mais sóbrio, que já tinha pedido um copo de leite, avista Adélio parado no outro lado da rua a ver uma montra de material eletrotécnico.
- Pessoal! – Chama João Inseguro.
- O que é que foi? – Perguntam os outros.
- Qual é o perfil do tipo que queremos para colar os cartazes do nosso partido? – Pergunta João Inseguro
- Eh pá! Sei lá! – Respondem os outros em uníssono.
- Pode ser um tipo de aspecto débil e nabo?! – Volta a perguntar João Inseguro.
- Convém que tenha essas características! – Diz Quico Porcelana - Esses geralmente são nabos e comem pouco.
- Então descobri a nossa massa trabalhadora! Venho já.
João Inseguro levanta-se, atravessa a estrada e vai ao encontro de Adélio Dani. Este continua a contemplar a montra com o Rubi.
- Bom dia! – Diz João Inseguro.
- Bom dia! – Responde Adélio.
- Au, au, au. – Responde Rubi.
- Estava a apreciar a forma como admirava aquele micro chip que está na montra! – Diz João Inseguro – Por acaso não está à procura de trabalho?
- Eu não percebo nada destas coisas, quem gosta de ver esta montra é o meu cão, o Rubi! - Esclarece Adélio – Mas eu posso trabalhar!
- Muito bem! Podes aparecer logo no café do Sousa? – Pergunta João Inseguro.
- Sei aonde é. A que horas?
- Ao fim da tardinha. Até logo.
- Até logo.
João Inseguro regressa para a companhia dos seus camaradas e conta o sucedido, depois de terminar o seu copinho de leite. Adélio Dani continua a comtemplar a montra com o Rubi e a pensar que horas seriam “ao fim da tardinha”!
Para não se atrasar e como o assunto parecia importante, depois do almoço, Adélio já estava no café do Sousa. Umas horas depois, ao final da tarde, aparece o quinteto político.
 - Olá jovem vigoroso! – Diz João Inseguro – Quando falámos de manhã não nos chegámos a apresentar! Eu sou o João, este é o Pietra, este é o Quico, este é o Joaquim e este é o Jerónimo. E tu?
 - Eu sou o Adélio e este é o meu amigo Rubi!
Após as apresentações, o quinteto senta-se. Pedem umas cervejolas e João inseguro um copo de leite morninho.
- Adélio, nós somos líderes partidários e o nosso partido vai candidatar-se à Junta de Freguesia de Campanhã. No nosso staff precisamos de operacionais ágeis e competentes para o desempenho de uma função crucial para o crescimento do partido e para o bem-estar da população! – Declara Quico Porcelana.
- O quê? – Pergunta Adélio Dani.
- Bem, precisamos de alguém para colar cartazes. – Diz Jerónimo Setúbal.
- E quanto pagam? – Pergunta Adélio, inocentemente.
- O quê?! – Diz João Inseguro, sentindo-se afrontado com a pergunta, quase virando o copinho de leite – Hoje de manhã falámos de trabalho! Quem falou de remuneração, hein? Sê sério rapaz, sê sério!
- Não sei se te queremos! – Diz Pietra Anda Lebre.
- Desculpem! Dêem-me mais uma oportunidade! Só mais uma, por favor! – Pedincha Adélio.
- Não sei, não sei! Só se pagares o meu copinho de leite! – Propõe João Inseguro.
- E as nossa cervejas! – Remata Quico Porcelana.
Adélio Dani e Rubi terminam o final de tarde a lavar pratos e a varrer o chão do café do Sousa.

Dois dias depois desta reunião, Adélio inicia o trabalho de colagem dos cartazes, que tem as iniciais do partido, SP-CPVT, o símbolo do like e a frase “Vamos fazer desaparecer a concorrência”. Na execução deste trabalho tem a ajuda do seu amigo Rubi, que segura o balde da cola e segue as indicações dos líderes, colando os cartazes do SP-CPVT por cima dos cartazes dos outros partidos concorrentes, fazendo do SP-CPVT o partido que diz a verdade!
Apesar do SP-CPVT concorrer à Junta de Campanhã, Adélio Dani, distraído, ia colando cartazes sem ter noção da divisão territorial e sem espanto estava a colar um cartaz por cima de outro pertencente a um partido concorrente à Junta de Paranhos, na parede lateral da igreja!

São 19h e a igreja está cheia de fiéis da missa das 18, que ainda não começou por falta do padre…estava atrasado…outra vez. O padre Rodolfo, quando chega vindo de um jogo de poker, ao entrar para a igreja vê alguém na lateral desta e desvia-se para lá.
Conforme se aproxima, vai reconhecendo a pessoa.
- Adélio, és tu? – Pergunta.
- Ó Sr. padre, olá! O que é que faz por aqui? – Pergunta Adélio.
Sem perceber a pergunta, o padre Rodolfo responde. – Então?! Eu sou daqui de Paranhos, dou missa nesta igreja!
- Chiça, estou fora de Campanhã! Desperdicei este cartaz que colei aqui na parede!
O padre Rodolfo afasta-se um pouco da parede, mira, avalia e sentencia – Gosto, deixa estar!
Mais aliviado e pondo as politiquices de lado, Adélio pergunta – Sr. padre, do meu pai, tem novidades?
- Adélio, ainda bem que falas nisso. Pedi ajuda a um amigo, padre também, e numa cerimónia secreta no “PN”, descobrimos que o teu pai não está preso numa cortina espiritual!
- Ai não?!
- Não!
- E então?
- Então, o quê?
- Está preso aonde?
- Ah, sim! O teu pai está preso numa colcha rendada, com folhos a toda a volta, em tons de pérola! É pior do que eu pensava! – Diz o padre Rodolfo.
- Meu Deus! E agora? – Pergunta Adélio.
- Não está nas minhas mãos, nem do meu outro amigo padre! Isto é trabalho para uma bordadeira de Arraiolos! Tenho uma amiga que pode ajudar! – Remata o padre Rodolfo.
Os dois despedem-se. Adélio e Rubi tomam o caminho para Campanhã. O padre Rodolfo acelera o passo com três preocupações: Primeira - Evitar bater o recorde de atraso, segunda - livrar-se desta história Adélio/Augusto e terceira – como perdeu o dinheiro todo no poker, espera que ainda esteja gente na igreja à espera da missa, para fazer um peditório de esmolas para os pobrezinhos.

Nessa noite, é “noite da mulher” no “BL Show”. São 22h. O padre Rodolfo estaciona a viatura paroquial próximo da danceteria “BL Show” e antes de sair do carro olha-se no espelho retrovisor e apercebe-se que não colocou o foco na orelha esquerda.

(continua)