sábado, 17 de agosto de 2013

Antero, o “Rebola a bunda”.

Antero, reformado, 66 anos, bem casado, a esposa mal, três filhos feitos e quatro netos, gasta parte do seu tempo livre, como uma parte considerável das pessoas na sua condição de reformadas, a brilhar pelos clubes dançantes onde angariou a alcunha de “Rebola a bunda”. O que distingue Antero dos outros "jovens" da sua idade é a sua moral, que o leva a pensar que é um destruidor de corações.

Abandona a casa de Lurdes (uma amiga), esfrangalhada de dor no peito. Antero impiedoso, bate a porta com um sorriso de “três dentes”, por mais uma mulher reduzida a quase nada pelo seu charme fatal, Lurdes desesperada tenta alcançar a mesinha de cabeceira onde guarda o aparelho da asma, doença que lhe provoca dores fortes na caixa toráxica. No rés do chão Antero bate a porta do prédio e cantarola alto para não ouvir os gritos de um coração destroçado pelo amor, enquanto Lurdes chora por ter virado a última garrafa de wisky…ia ter que sair para comprar outra!
Antero dirige-se para a dancetaria “Arrasta o pé”, pelo caminho avisa o INEM do seu programa. Por precaução é enviada uma ambulância com todos os meios técnicos de suporte de vida, que pelo caminho apanham Antero e dão-lhe boleia até ao estabelecimento de diversão nocturna, cuja entrada é sujeita a rigorosos critérios de selecção. A fama e o charme nestes locais são tais, que Antero entrou de lado e ao pé coxinho, a casa está cheia e o ambiente ao rubro, muitas mulheres com mais de sessenta anos, de cabelos amarelos, postura formosa e pinturas carregadas, com um pormenor que Antero apreciava…desesperadas, na pista ouve-se Giani Morandi!
Desce os dois degraus que dão acesso à pista, por todas as mulheres que passa faz uma vénia e faz um esforço para não se assustar com as feições de algumas. Estrategicamente, coloca-se num sítio qualquer da pista e baloiça o corpo com um swing próprio de quem não faz ginástica á imenso tempo. Duas semanas antes recusou o convite de uma velha loira, num outro local, para dançarem agarradinhos uma música da Mafalda Veiga, dizendo – “Agradeço o convite, mas não gosto destes rocks puxadinhos!”.
No final da música de Giani Morandi, o DJ Costa Curta, faz uma passagem que faz dele um dos melhores na arte de passar música nas dancetarias do Grande Porto…começa a tocar Vitor Espadinha, o mulherio, quase todas avós, em total devaneio levantam os braços no ar em devoção ao DJ, que nesta noite faz 73 anos. Antero arrisca e mexe-se um pouco mais, fazendo por vezes um movimento sensual com a anca e passando a mão nos cabelos grisalhos, enquanto faz beicinho…uma mosca passa próximo de Antero que com um movimento de cabeça, afasta-a, Mila, uma senhora que estava ao fundo da disco e totalmente desconhecida de Antero, encara como um sinal. Levanta-se e avança na pista, cheia e claustrofóbica, em direcção a Antero.
- Olá! – diz Mila.
Antero, que para se concentrar na sequência anca, mão no cabelo e beicinho, cerra os olhos, abre-os.
- Olá, como está minha senhora? – cumprimenta Antero, educadamente.
- Bem, aliás, muito bem, com o seu chamamento!
- Chamamento?! Desculpe, mas que chamamento? – pergunta Antero.
- Então, o sinal que me fez com a cabeça para vir ter consigo.
Entretanto o DJ Costa Curta faz a passagem para o Quarteto 1111 e ouve-se a canção “El rey Dom Sebastião”.
- Estranho, porque eu não estava a vê-la!
- Então o Sr não fez assim com a cabeça? – e Mila repete o movimento.
- Há, esse movimento! Desculpe, esse movimento não era para si, era para uma mosca!
Após este esclarecimento de Antero, Mila, já com alguma idade, estatela-se no chão, fruto de uma quebra de tensão, mais uma, que lhe provoca desmaios regulares, devido à sua fraca alimentação, quer perder peso depressa e sem recorrer ao concurso “Peso Pesado”.
-Poça, mais uma, elas tombam como tordos, depois não querem que eu seja convencido! – diz Antero baixinho, para si mesmo.
Antero olha para fora da pista e seus olhos buscam Xico Morres, segurança do espaço, quando o avista faz-lhe um sinal com o polegar esticado e virado para baixo. Este sinal combinado entre Antero e os seguranças das casas que frequenta, significa “Mais uma a quem deu uma fraqueza no coração e tombou aos meus pés, por me desejar mais que tudo e capaz de abandonar a casa de campo e as jóias e extremamente necessitada de auxílio técnico apropriado…chamem a ambulância!”
Xico Morres já estava habituado aquele sinal, desde que Antero começou a frequentar o “Arrasta o Pé”! Segurança com 72 anos, desloca-se o mais depressa possível até ao exterior da casa de diversão nocturna, lento, devido a uma zaragata que ocorreu três meses antes entre o Sr Tavares, que sem querer calcou com a sua bengala o Sr Arménio, cuja reacção foi baixar-se de dores e sem intenção deu uma cabeçada no peito do Sr Tavares, que por sua vez, sem querer, projecta um pivô, que cai em cima do pescoço do Sr Arménio, que ao sentir algo no pescoço ergue-se e, mesmo sem querer, dá uma cabeçada nos queixos do Sr Tavares…Xico Morres ao desapartar a zaragata, dá um jeito na coluna e ganha uma hérnia discal, ainda hoje mexe-se vergado e devagar e relembra “Pareciam dois galos pegados…completamente loucos!”
Chegado ao exterior, Tito Morres faz sinal com o polegar esticado e virado para baixo, aos paramédicos da ambulância do INEM. Estes imediatamente percebem a mensagem e vão em auxílio da nova presa de Antero, que é transportada para o hospital…

sábado, 10 de agosto de 2013

Sou portuguesinho!

Ainda o nosso primeiro rei não era rei e já conquistava território para sul, quando num determinado momento iniciou a conquista da Galiza, movido, não por um qualquer interesse estratégico maior, mas porque a sua mãe andava “metida” com um nobre galego da poderosa família Trava. Após um desaire militar contra os Mouros em Leiria, D. Afonso Henriques desistiu das pretensões a norte e concentrou o seu esforço militar para sul!
Independentemente do sentido da conquista, nasceu Portugal, o país mais à esquerda da Europa!
Com os Descobrimentos chegámos ao Brasil. Enquanto os espanhóis nos seus territórios da América, com violência impunham-se aos povos nativos, nós estávamos mais interessados no amor e em dar alguma paz.
No seguimento dos Descobrimentos na Costa de África e Ásia, em vez de malfeitorias, criámos Feitorias e o grande poeta Luís Vaz de Camões ao eternizar a epopeia portuguesa fê-la em “dez cantos” em vez de “dez centros”…nunca gostámos de dar nas vistas, com excepção dos imigrantes no mês de agosto!

Somos por natureza histórica, emocionais, um pouco românticos e …inhos!

O despertador toca. São sete da manhã e ainda vai tocar mais uma vez, às sete e um quarto. Estes dois toquezinhos do despertador são, felizmente, os meus únicos momentos de ódio ao mundo, depois, salto da cama e preparo-me para o mundo “inho”!
Quando chego ao local de trabalho, a primeira pessoa que vejo é a Dona Rosa, que faço questão de cumprimentar, não só porque mantém a minha secretária limpa, mas após o meu “Bom dia”, responde-me, ainda hoje, “Bom dia, menino…” seguindo-se sempre o desabafo de uma tragédia pessoal e termina sempre com o reconfortante “Haja trabalhinho!”.
Já sentado na minha secretária ouço: - Bom dia, Calheirinhos!
Olho para a placa afixada no meu local de trabalho e vejo escrito “José Calheiros”, de seguida desvio o olhar na direcção da voz e vejo a minha colega Teresa.
- Olá Teresinha! – Respondi em concordância, não fosse eu passar por mal disposto.
Ainda o computador está a “ressuscitar” e o meu caro colega António, já me está a convidar para no fim do trabalho irmos beber uma cervejinha. Sempre que o convite é para uma cervejinha, o próprio António sai do café “tocado” pelas várias cervejas que bebe!
Ah, já ligou! Estou a escrever a password e toca o telefone. O número não me é estranho, mas não é das minhas relações laborais…é a minha mãe.
- Logo vens comer cá a casa?! – Pergunta como que a relembrar que é sexta-feira, dia de juntar a família.
- Claro! Todas as sextas e segundas! – Respondo, sorrindo.
- Já telefonei ao teu irmão, a perguntar se ele quer carninha ou peixinho. – Diz-me.
- E ele, o que é que escolheu?
- Ele quer peixinho. E tu? – Pergunta-me.
- Pode ser peixe, também!
- O quê???
- Peixinho! Eu quero peixinho, mamã!
Após desligar o telefone, tinha que me despachar, faltam cinco minutos para uma reunião com o Carlinhos, 1,83 metros e 143 quilos. O Carlinhos é muito boa pessoa e para não ferir susceptibilidades, costumo dizer que ele está forte, um verdadeiro atleta, mas ontem num vislumbre de realismo, diz-me, “Estou gordinho”, enquanto penso para mim, “Carlinhos, tu estás um pote!”.
O resto do dia de trabalho foi passado a tentar fintar, sem sucesso, “inhos” e “inhas”. No final lembro-me que tenho que ir às compras e informo o António que não posso ir beber uma cervejinha com ele. – Que peninha! – Responde-me.
Depois da rusga pelas prateleiras do hipermercado, apresento-me na caixa para pagar.
- Tem cartãozinho da loja? – Pergunta-me a senhora da caixa.
- Ah, o cartão! – E passo-o à empregada.
- Este cartão parece mesmo o cartãozinho! – Exclama a senhora da caixa.
- E é! Esse cartão é o cartãozinho.
Após o esclarecimento e pagamento saio da superfície comercial com alguma pressa. Atrás de mim vem a correr um promotor que me apanha a entrar no carro:
 - Tem um minutinho? – Pergunta-me com um sorriso luminoso.
Este senhor pregou-me uma “seca” de meia horinha!
Chego tarde a casa dos meus pais para jantar. Olho para a mesa e não vejo o peixinho.
- Olha, não consegui ir à peixaria, por isso fiz carninha! – Explica-se a minha mãe.
- Não há problema mamã! Pior era se fosse carne ou peixe! – Respondo-lhe
No final da noite, como sempre, despedimo-nos com beijinhos!

Não me importo de ser um país à esquerda (geograficamente), que a epopeia da nossa história esteja escrita em cantos e que tenhamos resquícios de pequenez no falar.
Melhor do que falar com sotaque brasileiro, um dialecto africano ou pronúncia de leste.

sábado, 3 de agosto de 2013

Daniel, o vampiro (parte II).

Foi por mero acaso que eu e o António encontrámos o Daniel, já que quando foi eleito Presidente da Junta deixou o seu emprego e assim perdemos um bom colega e a sua freguesia ganhou outro político.
Corrosivo e directo o António pergunta:
- Então Sr. Engenheiro, tens feito o que prometeste?
- Tudo, tenho cumprido com tudo, António! – Responde o Daniel firme como uma rocha e prossegue:
 – Agora sou o Sr. Doutor, se não te importares!
- Mostra-me as tuas veias! – ordena o António.
Daniel levanta a manga da camisa e o seu braço está todo picado.
Desde que foi eleito, as hemodiálises políticas (troca de sangue bom por sangue corrupto) passaram de quinzenais para semanais, tornando o Daniel comparável a um dinossauro autárquico, em cara de pau e pouco amigo da verdade.
Políticos como o Daniel, que não são genuinamente malandros, mas sujeitos a estas hemodiálises por parte do aparelho partidário, têm todos um ponto fraco. Da mesma forma que os vampiros fogem da cruz ou se escondem da luz do dia, Daniel tem pavor e evita os pombos a todo custo. Estas aves amorosas, que confundem o meu carro com uma sanita, são dotadas de uma especial sensibilidade para detectar políticos vampiros e quando os sentem próximos arrulham constantemente, até estes se afastarem: “Cucurruuuuuupto, Cucurruuuuuupto, Cucurruuuuuupto, Cucurruuuuuupto,…”!
Desde que fez a primeira hemodiálise política, Daniel evita parques e praças, e sempre que, por obrigação, se desloca a estes locais públicos e cheios de pombalhada, não dispensa segurança reforçada, armada de fisgas para afastar os pombos!
Atento aos sinais das aves, o eleitorado vai interpelando o Sr. Presidente da Junta sempre que pode, e certo dia, os 100 metros percorridos a pé, de casa até à Sede da Junta, revelam o sangue que corre em Daniel quando este é interpelado pela Dona Albertina:
- Oh Sr. Presidente, o senhor disse que a primeira coisa que ia fazer na freguesia era uma piscina…e nada! É que nem as obras começaram!
- Dona Albertina, a senhora anda desatenta! A piscina na freguesia já está feita… é na minha casa! – responde o Daniel, com um sorriso na boca.
- Mas pensei que era pública! – exclama a senhora.
- E é! – contra exclama o Sr Presidente.
- Então posso ir para lá com o meu netinho?! – pergunta a Dona Albertina, entusiasmada com a ideia.
- Não, Dona Albertina, eu e a minha família prezamos muito o recato do nosso lar! O que é publico é poderem ver a piscina. Se a senhora e o seu netinho quiserem vê-la, põem-se em cima da lomba que mandei fazer em frente a minha casa, para os carros passarem mais devagar, e vê-se perfeitamente!
- E o jardim exótico que ia construir?! – quis saber a Dona Albertina.
- Mais uma promessa cumprida, comigo é assim.
- E aonde é que está?! – quis saber a querida senhora.
- Na frente da minha casa tenho a piscina, nas traseiras, tenho o jardim! – clarifica o Daniel
- E é publico? Para ir passear com o meu netinho?
- É…a vista! Também se vê muito bem as copas das árvores em cima da lomba!...É que eles passavam muito depressa em frente a minha casa, percebe?! Tenha uma boa tarde Dona Albertina
Um pouco mais à frente Daniel encontra o Cajó, um jovem com problemas de rendimento escolar detectado na pré-escola, mas avispado com as miúdas.
- Oh Sr. Presidente, quando é que põe net grátis na Junta, para nós irmos para lá, como prometeu?
- Pois é jovem, mas já temos net! – responde o Daniel.
- Na Junta?!!! – pergunta o Cajó.
- Não, meu jovem! Mandei instalar provisoriamente, em fase de teste, em minha casa durante o meu mandato!
- Então posso ir para sua casa? – pergunta Cajó, entusiasmado.
- Hummmm, é melhor não! Até mais logo meu jovem, és o futuro da freguesia! – despede-se o Daniel.
Quase a meter o pé no edifício da Junta, o Presidente é interpelado pelo Sr. Augusto, um reformado de 67 anos:
- Bom dia Sr. Presidente! Estamos a um mês da colónia para a terceira idade na praia de Labruge. Vai-me fazer bem, estou a precisar de apanhar sol! – diz entusiasmado.
Esta foi talvez a promessa eleitoral mais valiosa em campanha, que agarrou o voto da terceira idade, com o apoio do padre da paróquia. Sendo o Sr. Augusto uma pessoa respeitável que vive a sua própria vida e avesso a tagarelices, Daniel vê nele a pessoa certa para desabafar:
- Sr. Augusto, essa promessa não vou poder cumprir! O dinheiro destinado para a colónia investi-o numas férias paradisíacas com a minha mulher! Estamos a passar uma fase má, e estas férias maravilhosas vão acalmar o casamento! Compreende, não compreende?
O Sr. Augusto afasta-se sem lhe responder e nunca mais lhe dirigiu a palavra.
O tempo foi passando e as obras na freguesia iam sendo feitas, apesar de ninguém as ver…até àquele momento!
Na última hemodiálise política, por negligência trocaram o lote de sangue, tendo sido usado o que lhe foi retirado na primeira. Aos poucos o seu sangue foi-se “honestizando” e ele foi-se apercebendo de todo o mal que fez e de todo o bem que não fez!

Foi entregar-se à GNR, sem evitar atravessar a praça da freguesia, cheia de pombos, de cabeça erguida!

sábado, 27 de julho de 2013

Daniel, o vampiro.

Lembro-me perfeitamente desse final de tarde em que o Daniel, convictamente, nos transmite, a mim e ao António, que faz parte de uma lista candidata à freguesia onde reside.
Prático como sempre, o António pergunta:
- Vais delapidar o erário público?!
- Não! – responde prontamente o Daniel, prosseguindo: – Tenho um projecto para o bem da comunidade!
A sinceridade expressa nas palavras no Daniel, causou-nos surpresa… parecia um menino grande que ainda acredita no “Pai Natal”!
- Não te dou muito tempo para seres corrompido pelo lamaçal que é o meio político. – alerta o António, fino como um rato, que aos oito anos já sabia que o “Pai Natal” que lhe entrava pela casa, era o Tio Fernando, disfarçado.
Na primeira reunião do Partido a que pertence, Daniel vai preparado com propostas para serem discutidas, mas os restantes membros passam o tempo a praticar os vários tipos de “cumprimentos” que terão que ser aplicados durante a campanha: O beijinho às crianças, o abraço acompanhado de vários beijos a peixeiras e floristas, a palmadinha nas costas aos idosos, o chapadão no braço dos jovens adultos (porque cria uma empatia natural),… e o cumprimento firme acompanhado de um sorriso piedoso à pessoa de cadeira de rodas, que sempre aparece.
Urge tratar com urgência os assuntos da campanha e nova reunião é marcada para o dia seguinte.
Novamente, crente e desfasado da realidade, como a Miss Universo que pede paz para o mundo, Daniel aparece com o mesmo dossier do dia anterior, empolgado para a discussão de temas úteis à comunidade, mas desta vez, os restantes membros do partido passam o tempo a praticar expressões de naturalidade quando o imprevisto acontece, como na última campanha, quando o candidato ao receber um beijinho de uma idosa, fica com a dentadura pendurada na orelha. Nesta situação é prudente o candidato recolocar a dentadura na boca da idosa, chamar-lhe de “querida” e controlar a expressão de nojo!
Várias reuniões depois, e naquela mais importante em que são distribuídos a todos os elementos pertencentes à lista, os horários das missas, Daniel insiste em apresentar a sua proposta. Foi uma desilusão para o aparelho partidário, que esperava que Daniel apresentasse nomes para colar os cartazes e em vez disso, o “político honestozinho”, propõe a criação de um condomínio público, para se cuidar dos espaços exteriores das casa dos habitantes da freguesia, tornando-a num local agradável para viver.
No dia seguinte, a notícia desta proposta correu a freguesia e despertou o apetite dos lobbys dos Hortos, que se apressaram a ir a casa do Daniel, tentá-lo com negociatas em troca de um jardim luxuriante mais manutenção. Firme como uma virgem que quer casar imaculada, Daniel insistia no raio da honestidade!
Certo dia numa acção de rua, quando uma senhora bastante idosa lhe pergunta se, caso seja eleito, vai fazer milagres, Daniel com toda a educação, reponde:
- Não minha senhora! Os milagres acabaram com Jesus e os apóstolos. E eu não sou apóstolo e muito menos Jesus!
A resposta sincera de Daniel, deixou todo o aparelho partidário irritado. O Partido tinha perdido mais um voto, porque, Daniel, mais uma vez não respondeu o que o eleitor queria ouvir!
Sem alternativa, membros do Partido metem o Daniel num colete de forças e levam-no a uma clínica privada, onde lhe fazem uma hemodiálise política. Tiram-lhe o sangue bom e metem-lhe sangue corrupto. A transfusão foi feita a tempo! Daniel deixou de ter princípios e convicções e a sua lista venceu!
Daniel tem agora um jardim luxuriante e até o quintal do dependente do RSI, tem plantas exóticas…e assim a Junta de freguesia caiu na bancarrota, enchendo a “pança” dos Hortos.

Quem tinha razão era o António!

sábado, 20 de julho de 2013

Acordem-me!

Vivia-se o fervor da campanha eleitoral.
Todos os candidatos tinham a perfeita noção do estado do país. Cada um deles tinha o seu projecto e programa eleitoral, todos diferentes, mas cada um deles feito a pensar no melhor para a população.
Em todos os comícios de cada candidato, estava presente um juiz, pago a peso de ouro, que ligava a máquina detectora de mentiras ao candidato ao “poder”, durante os discursos! Por cada mentira, a máquina emitia de forma bem audível a palavra-passe “ALDRABÃO”, que dava o sinal para o juiz, pago a peso de ouro, mostrar o cartão vermelho e expulsar o candidato e todo o seu partido da campanha eleitoral!
Estes juízes, pagos a peso de ouro, também acompanham os candidatos em visitas a escolas, lares,…, e feiras. Por cada sorriso dirigido a uma criança ou beijo numa peixeira, que não sejam sinceros, os candidatos vão acumulando infracções, correndo o risco de não se poderem candidatar durante os próximos 20 anos! Nestas ultra maratonas eleitorais são muitos à partida e raros à chegada, graças ao juiz…pago a peso de ouro…que elimina, na altura certa, os que iam afundar o país!
Estou a assistir a um desses comícios e a máquina dispara, “ALDRABÃO”, o juiz saca de cartolina vermelha e dá ordem de expulsão ao candidato, eu olho para o lado e vejo a miúda mais gira da freguesia a correr para mim de braços abertos…
Tititititi, tititititi, tititititi,…!

Assustado o meu corpo estremece! Caio de uma dimensão para outra, olho para o lado e vejo a miúda gira deitada na cama…e aquele despertador continua a assustar-me!
- Que raio de sonho! – suspiro baixinho.
Enquanto tomo o pequeno-almoço, na televisão aparece um bandido, mesmo bandido, que, mesmo preso, é candidato autárquico! Num raro lampejo mental aquela hora da manhã, tive uma ideia brilhante, “Vou criar e fazer parte de uma lista encabeçada pelo Ronfe!”.
Ronfe é um burro Azinino, que pasta num campo em frente a minha casa, propriedade de um senhor amigo, e tenta montar tudo o que lhe aparece…Ronfe é o candidato perfeito! A troco de um lugar na lista, o dono do Ronfe, cedeu-mo.
Abre a época de campanha. Os comícios sucedem-se uns atrás dos outros e como não há juiz nem máquina detectora de mentiras, elas sucedem-se umas atrás das outras, os beijos e sorrisos encenados brotam como água da fonte….Ronfe lambusa toda a gente, mas está a perder terreno. Enquanto eu, porta voz do Ronfe, prometo sonhos, os outros candidatos prometem delírios e denigrem a imagem de Ronfe dizendo que ele não tem passado político!
Chega o último dia de campanha e as sondagens dão o último lugar a Ronfe. Num esforço financeiro final, distribuem-se canetas com um assobio que faz de tampa e bandeiras e autocolantes com a fotografia de Ronfe e o dizer – “Ronfe é burro, mas não é parvo”, e em total desespero bebo uma garrafa de whisky e “snifo” heroína, para o discurso final!

No domingo, ao final da tarde, Ronfe é declarado vencedor. Dizem que a promessa, feita no discurso final, de fazer passeios intergalácticos, nos autocarros da “Pacense”, foi decisiva!

Ronfe é um governador deste país e desde que tenho consciência de mim como ser político, estou à espera de ouvir “tititititi, tititititi, tititititi,…”, para acordar deste pesadelo!

domingo, 14 de julho de 2013

Saída profissional!

Tive a infelicidade de ser uma criança normal!
Não gostava das aulas, mas gostava do recreio e de aprender; gostava do Dartacão e do Tom Sawyer, andava de fisga enfiada na meia, não percebia porque as raparigas não eram iguais aos rapazes, nas férias brincava de sol a sol, na rua, com os amigos, não percebia o que era a política e o que gostava mesmo… era de jogar à bola.
Novinhos e movidos por esse gosto “de jogar à bola”, eu e os meus amigos começámos a jogar futebol nos “iniciados” do clube da minha terra, o Trofense, ao contrário de outras crianças, estas mais estranhas, que não tendo gosto nem jeito para a bola, juntavam-se em volta de um “líder”, e seguiam-no sem saber porquê, mas tinham o privilégio de colar cartazes! Estes grupos que começaram a proliferar na década de 80, na mesma altura em que apareceram os glutões no detergente da roupa…são as “Jotas”.
Enquanto eu e os meus amigos, sob a orientação dos nossos treinadores, dávamos o máximo em campo pela nossa equipa e sonhávamos ser como os nossos ídolos e ganhar muito dinheiro, os outros, além de colar cartazes, nas reuniões, gastavam o tempo a jogar ao Monopólio. Aprendiam a comprar casas na Rua Augusta e hoteis na Rua do Ouro, a fazer negociatas com os amigos e apagaram a “casa” da prisão e rasgaram a carta que dizia - “vai directamente para a cadeia, sem passar pela casa de partida”! Já nós, se infringíamos as leis do jogo, éramos penalizados. Na minha carreira ultra-amadora de criança, acumulei 2 cartões vermelhos, por agarrar o adversário quando este se isolava. E se o empenhamento durante a semana, nos treinos, não fosse digno, não havia lugar para nós na convocatória, ao contrário das “Jotas”, onde há sempre lugar para todos, nem que sejas retardado…e onde só não aceitam pessoas em estado vegetativo, por não cumprirem o requisito de fazer a cruz, em altura de eleições!
Agora que sou um adulto normal, tenho a infelicidade de ser governado por gente anormal!
Lembro-me de que eu e os meus amigos, como muitos milhares de crianças que jogavam futebol por esse país fora, num qualquer momento deparámos-nos com a realidade que o sonho de ser jogador não sustentava todos, apenas meia dúzia…os mais dotados. Paciência!
Continuámos a estudar e depois a trabalhar e a descontar para um Orçamento, em que parte dele é para pagar os “jobs for the boys”, em português “os tachos”, para os que em vez de obterem uma profissão aprenderam a adulterar o Monopólio e ficaram à espera que lhes dessem um curso…para nos governar!

Jovem, tens jeito para o futebol? Esquece! Queres ser piloto de aviões? Esquece! Queres ter uma vida digna e séria e ser respeitado por isso? Esquece! Convidaram-te para uma sociedade no euromilhões? Esquece! Uma miúda muito rica convidou-te para casar? Esquece! Queres ser padre? Esquece!
Nada é mais certo do que colar cartazes, não do circo que vai à tua terra…mas de um partido político qualquer!

sábado, 6 de julho de 2013

Vida social.

Quando o ser humano pensa que tudo está bem, tem a tendência natural para se distrair e prestar menos atenção a quem o rodeia. Bem ou mal é essa a nossa natureza…e contrariá-la, só com uma check-list dos esforços diários que devemos fazer, um pouco como verificar o óleo e a água do nosso carro que já tem uns anitos!
Estando eu no 2º round da vida marital com a mesma pessoa do 1º (garantindo-me entrada directa para o céu), pensava que tinha aprendido com os erros de defesa do 1º assalto e melhorado a esquiva…e relaxei!
Perante isto, sou abordado pela Cristina, que teima em levar o casamento até ao ultimo assalto, levantando-me quando estou “adormecido”, para que eu não perca por KO. O casamento é uma luta, que nenhum dos intervenientes deveria querer perder!
- Não temos vida social! – diz ela, prosseguindo – Estamos fechados em nós mesmos, numa redoma! Temos que socializar!
A Cristina tinha razão, e estas palavras depois do jantar numa noite de verão, fizeram recuar a minha memória de forma pachorrenta para a tarde desse mesmo dia, em que encontrei um dos meus raros bons amigos…que raramente o vejo!
- Então Miguel, tudo bem? Já não te vejo há algum tempo, onde tens parado? – pergunto.
- No Facebook. – responde-me.
- Aonde fica? O pessoal pára lá? – pergunto, pensando que o Facebook é um café ou um bar novo!
- Pára lá toda a gente. – diz o Miguel
- Mas o bar não tem porteiro, para fazer selecção?
- Porteiro? – exclama o Miguel, sem estar a perceber o sentido da conversa.
Depois de desfeito o mal entendido, o Miguel explica-me o que é o Facebook e qual o seu uso. Sem saber, eu e a Cristina estávamos encarcerados no passado e o meu raro amigo “abriu-nos a porta”.
Desperto da memória da tarde, e regressado à mesa de jantar, penso nas palavras que ouvi da Cristina.
Ultimamente temos estado com as pessoas de família de quem mais gostamos, jantado uma vez ou outra com amigos e abusado no nosso espaço exterior com umas churrascadas rodeados de gente…temos convivido, vemos e sentimos quem mais gostamos, ou seja…envelhecemos jovens e sem vida social.
Perante este cenário, para recuperar as vivências e aguentar mais um round matrimonial, abdiquei da pintura do carro e com o dinheiro para ele destinado comprei outro computador!
No sábado à noite dessa semana, eu e a minha senhora regressamos à vida social activa, ela na sala e eu no escritório, cada um no seu computador, fizemos “likes” e comentários e vi o Miguel…e toda a gente!
Neste momento já temos amigos que nunca os vimos, partilhamos coisas e somos parte integrante desta rede social, que nos deu uma vida e pujança para os restantes rounds matrimoniais…apesar de raramente ver a Cristina, mesmo estando sentada ao meu lado, cada um com o seu computador, em prol de uma vida social!

Por vezes, olhamos um para o outro e sem dizermos nada, saímos de casa e damos a mão! Passeamos, com o cuidado de não sermos vistos, e convivemos com outros clandestinos!