domingo, 15 de dezembro de 2013

Distraído Anónimo.

Há algo que o homem durante o seu crescimento não desenvolve, algo para qual nem a sua mãe o consegue preparar…

Foi a primeira vez para João, e ainda não eram casados, quando Lurdes lhe pergunta:
- Não notas nada de diferente?
- Aonde? – responde à pergunta com outra pergunta.
- Em mim, meu lindo!
Esta cena aconteceu no início de uma tarde de Verão e enquanto o dia durou, João olhava para Lurdes com a tensão a aumentar sem vislumbrar nada de diferente na namorada, e já o sol se punha quando finalmente ele arrisca responder com sinceridade:
- Não, não vejo nada de diferente! – disse, esboçando um sorriso tímido.
Perante a resposta, Lurdes a “morenaça”, que da parte da manhã tinha pintado o cabelo de amarelo com madeixas liláses, em vez de acabar o namoro, pensou, fruto de uma raiva imensa, “Havemos de casar e tu vais sofrer!”.

É final de tarde, João está a chegar a casa e depois de três meses de namoro e quinze anos de casamento, a pergunta que mais teme continua a ser: “Não notas nada de diferente?”.
Abre a porta da cozinha e dá de caras com a mulher.
- Olá meu amor! – diz com voz trémula.
- Olá Jójó! Não notas…
E as pernas de João tremem que nem varas verdes.
- …que está frio?
João suspira de alívio: – Um bocadinho, minha Linda! - e segue para o corredor para pousar o casaco no bengaleiro.
- Por falar em “linda”, não notas nada de diferente?
Perante a pergunta temida, João vai para o escritório e enquanto abre o computador, exclama em voz alta:
- Linda?!
- Sim! Na sala, vê bem!
O computador está ligado e João abre uma pasta onde tem as fotografias tiradas nessa manhã à mulher e a todas as divisões da casa. Sem perder tempo vai para a sala com o computador e compara o que vê com as fotografias tiradas dessa divisão.
- Amooor! Está tudo igual!
Furiosa, Lurdes irrompe pela sala:
- Iguaaal? E em mim, não notas nada?
João abre as fotografias tiradas a Lurdes nessa manhã, olha para ela e:
- Cortaste o cabelo?!
Lurdes, a “espumar”, veste um casaco, pega num saco e nas chaves do carro e sai, sacudindo a cabeça fazendo sobressair as extensões que tinha colocado nessa tarde, dizendo-lhe:
- Se queres comer, faz o jantar!
Triste e a precisar de algum ânimo, João vai a uma drogaria perto de casa, que só fecha às vinte, comprar um pisca-pólos e ver as ferramentas. Enquanto bisbilhota uma chave de estrela, ouve:
- Olá João!
Era um bom conhecido, que mora há já algum tempo ao fundo da rua, atulhado de ferramentas de medição: régua, esquadro, escantilhão, nível, fio-de-prumo…
- Vais construir uma casa? – pergunta João a brincar.
Depois de um compasso de espera, Miguel, o bom conhecido, decide confiar em João…e desabafa:
- Não, João. Todo este material é para fazer marcações no chão de minha casa. Hoje, para a agradar, deixei os chinelos no sítio e a Maria pôs-me de castigo com o argumento de que o chinelo do pé direito estava deslocado dois graus para norte…!!!
Ao ouvir isto João, sem nada dizer, acena a cabeça em concordância com o amigo e com um olhar solidário! E Miguel prossegue:
- …E para acalmar os ânimos, disse que os brincos novos que ela estava a usar lhe ficavam muito bem!
- E?! – pergunta João, expectante.
- Afinal não eram novos! Ofereci-lhe os brincos há cinco anos, num fim de semana romântico!!! Foi o caos…estou aqui sem comer!
Por detrás de uma estante, onde estava a ver umas tintas de interiores, Vilaça, que casou uma segunda vez, esquecendo-se amiúde que mudou de mulher, sem querer ouviu a conversa e, interpôs-se:
- Amigos, eu posso ajudar-vos! Logo à noite estais livres?
- Sim! - respondem em uníssono, João e Miguel.

Nessa noite, João, Miguel e Vilaça, estão numa sala cheia de homens heterossexuais e uma mulher lésbica, sentados em roda, em que uma pessoa dá as boas vindas aos presentes:
- Muito boa noite e sejam bem vindos! Eu sou o Rui e sou um Distraído Anónimo!...

domingo, 8 de dezembro de 2013

Donos da razão!

- O Pai Natal, não existe. – diz-me arrogante como se eu fosse burro.
- Existe, existe! – respondo incrédulo.
- Tu é que és burro! – diz-me aquele pirralho.
- Não! Tu é que és burro.
- Tu é que és!Seu nabo!
- Se eu sou nabo, tu és burro e nabo!
Enquanto nos gladiávamos com palavras, os corpos iam-se aproximando.
- Tu é que és burro e nabo!
- Seu burr…
E os corpos encostam-se e a gadulha começa!
Em criança era assim que no recreio da escola, decidíamos quem tinha razão. Sem a arte do argumento, quem tinha razão era o mais forte, ou mais gordo…eu nesse tempo tinha a vantagem do peso sobre os outros meninos e quase sempre tinha razão, como nesse dia! O Miguel voltou a acreditar no Pai Natal.
Apesar de ser por volta dessa altura que começámos a ter as nossas tendências profissionais, e a escolha recaía, invariavelmente, sobre ser piloto de rallies, jogador da bola, polícia, bombeiro, eu cá queria ser alpinista, fruto do encanto de um programa que dava aos sábados à tarde, que se chamava “A conquista do Everest” e conheci um miúdo que queria ser palhaço, mas o que todos inconscientemente queríamos era simplesmente ter razão!
Era de prever que com o tempo, o caminho estreito e correcto para a busca da razão fosse encontrado…mas ao que parece, continua desconhecido. Para o Miguel isso pouco importa porque aquela lição na primária fez-lhe encontrar a ilusão de ter razão, não defendendo nada, apenas descredibilizando os outros…é agora um importante líder parlamentar e continua a acreditar no Pai Natal!
Mas passados muitos anos eu e uma grande maioria, que já não acreditamos no Pai Natal, continuamos a rondar a Razão, usando fórmulas, quase ou tão infantis como as usadas em criança. Há quem A puxe para si, falando mais alto e por cima dos outros ou quem os diminua nas suas capacidades físicas (esta é a minha fórmula preferida e ontem fiz uso dela).
Estava num jogo de bola e vendo o caso mal parado, quando sofro uma falta a meio-campo, peço penalty. Perante a gargalhada do adversário, chamei-os de cegos…e convenci-os disso! O penalty foi marcado mas, com razão, fiquei chateado com a falta de seriedade do adversário.
Para me animar, um amigo de equipa, diz-me, “No fim, vou levar-te a um sítio!”.
Arrancámos e andámos muito, não sei o nome do local, mas era bem longe da Trofa e completamente estranho. À entrada do edifício, por cima da porta, uma faixa com a inscrição “Speed Dating com a Razão”, que não deixava dúvidas de que não estava num restaurante…pena, porque estava cheio de fome. Entro e rapidamente me apercebo de que a sala está cheia, aos poucos vou passando os olhos pelas caras e conheço muitas delas, principalmente do Facebook, que se indignam ferozmente nas redes sociais com qualquer contrariedade como se isso lhes valesse a Razão…deixei-me estar num cantinho.
Os encontros, apesar de rápidos, fizeram-me esperar muito tempo. Fui o último a entrar na sala onde iria ter a minha hipótese com a Razão. Sentei-me e Ela olhava para mim sem nenhum tipo de cansaço na expressão, ao contrário de mim, e olhava-me serena e firme. Tentei disfarçar a insegurança e lancei um olhar sensual, treinado em casa desde há muito tempo, e uma posse igualmente fabricada, cujo binómio julgo irresistível! Ela fez um sorriso triste, apercebendo-se da falsidade da pose, que de seguida fechou e de expressão imóvel cai-lhe uma lágrima pelo rosto. Percebi que aquela lágrima não era por mim, mas por todos que lá passaram, e não A conseguiram seduzir!
Saio da sala e ao fechar a porta, volto a olhá-La e vejo-A abraçada à Racionalidade.

Vim embora a pensar se os outros teriam visto o mesmo que eu!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Alimentar o ego.

-Ui! Quem é aquele?! Ah, Sou eu! – os ombros tombam derrotados e o corpo perde a postura.
Este é quase sempre o pensamento no meu primeiro momento de semi-consciência do dia após sair da cama, quando me olho ao espelho.
Necessitado de um sopro de estímulo para encher o ego, volto ao quarto, sempre em estado de semi-consciência, e sacudo a Cristina, minha mulher, mesmo sabendo do perigo que corro ao tentar acordá-la, enquanto dorme como um anjo (lembram-se do que a miss Piggy fazia ao sapo Cocas? Quando contrariada, pregava-lhe um chapadão com a parte de trás da mão e o pobre do sapo desaparecia a voar)!
- Uh, uh,…morzinho!
Em resposta ouço um grunhido e insisto:
- Morzinho, quem é bonito? Sou eu, não sou?
Em resposta, e contra o que fazia prever, em vez de um lançamento de braço à minha cara, ouço:
- Deixa-me dormir. – e vira-se para o outro lado.
De regresso à casa de banho, olho para uma fotografia minha, com muitos anos e, “Que bonito”, pensei!
Tomo banho e regresso o quanto antes para a frente do espelho ansioso por ver a minha imagem renovada. Entusiasmado, fico à espera cerca de cinco minutos que o espelho desembacie. Aos poucos a minha imagem vai aparecendo reflectida e:
- Ooooooh! Deve ser da barba!
Decido apará-la e abandonar o aspecto de pato. Ligo a máquina que encostada à pele vai abatendo pêlo a pêlo, dando-me um gosto especial quando são os brancos a tombar. Terminado o abate piloso, o sorriso que se fazia adivinhar, fecha-se. Estava muito melhor, mas não estava um cisne, “É das brancas que já tenho no cabelo!”, pensei.
Vesti-me decidido sobre o que fazer, iria ligar à dona Tininha, minha mãe. Deixei o telefone tocar meia dúzia de vezes, e não me atendeu.
Saio de casa para um passeio matinal. Apesar do frio, gosto destes dias luminosos, cujos raios carregam os níveis de serotonina, e aos poucos me fazem pensar, “Que interessante que eu sou!” e prossigo o passeio com um sorriso parvo, que supera o de Bridget Jones, ajudado pelo facto de ter passado por três idosos, com mais rugas do que eu, nitidamente.
Já a manhã estava a terminar decido ligar novamente à minha mãe…o mesmo, não me atendeu. Estranhei, porque o que ela mais gosta é de estar e conversar com os filhinhos!
Vou para casa, ansioso que cheguem as cinco horas.
A essa hora, pego no saco e vou para a minha futebolada com a malta…é o momento que mais gosto da minha vida. Sou o segundo mais novo, o mais rápido, o mais bonito, o mais elegante e com mais cabelo. Estamos todos em campo, eu mais feliz que os outros, e o gordo e anafado do Joca não aparece. Com menos um, o Toni pede a um jovem se quer jogar. Ele aceitou e foi o pior que aconteceu, apesar da minha equipa ter ganho! Passei a ser o terceiro mais jovem, deixei de ser o mais rápido e o mais elegante, não tinha menos cabelo, mas tinha mais brancas…quanto a ser mais bonito, estava ansioso por falar com a minha mãe.
No final, e depois do banho, saio do ginásio e de carro vou directo para casa a ouvir “Joy Division” e a esvaziar-me de auto-estima! Entro de gatas e ligo o computador à procura de uma fotografia minha, quando jovem, para “postar” no facebook, na esperança de receber muitos “likes”, para recarregar o ego. Não existia, estavam todas no meu álbum de fotografias de papel (que é como eu gosto de as ver e de ler os livros) …pois, já tenho alguma idade!
Com a lágrima quase a rolar pela face, ligo à minha mãe e ela atende:
- Mamã, quem é o mais bonito do mundo?
- És tu e o teu irmão, meu filho!
- Sim! Mas o mais bonito e interessante? – insisto.
- Sois os dois! – responde-me.

Por último, vale-me sempre o facto de, no fundo, no fundo, ser muito convencido e a “crista” acaba por se levantar.

Qualquer semelhança entre esta estória e a realidade, pode não ser pura ficção.

domingo, 24 de novembro de 2013

A vida é um jogo.

O sábado é para mim um dos dias mais amigos, mesmo quando começa mal, como aconteceu este fim- de- semana.
O despertador toca às sete da manhã. Consciente do seu significado, estico as pernas, sacudo a cabeça na almofada… e o fim-de-semana que nunca chega.
- Alto, mas hoje é sábado. – pensei.
O corpo volta a encolher e mantém-se fofinho debaixo dos cobertores e a cabeça volta a “acamar” na almofada com um sorriso de menino que se deixa adormecer a pensar na futebolada dessa tarde, às cinco horas, com os “marretas” dos amigos!
Todas as actividades domésticas e de lazer, até às quatro e meia, são executadas com parte (quase todo) do pensamento virado para o jogo. Devo dizer-vos que mesmo quando estou em viagem e no melhor dos sítios, às cinco da tarde de todos os sábados, desejo estar no pavilhão do liceu da Trofa, para uma hora de intenso pontapé na bola.
O que acontece durante essa hora vou omitir, para que os caros leitores e amigos não fiquem a pensar, “Este gajo tem a mania de que é o melhor!”…mas curiosamente sou!
Muitas vezes, a futebolada é seguida de uma ida à tasca “Canzoada”, cujos donos, a dona Natália e o Sr. Manuel, são amigos de infância dos nossos pais. Ele não nos deixa passar sede e a dona Natália, não nos deixa passar fome!
É o nosso “sítio mágico”, onde deixamos de ser crescidos, de ser casados (a não ser que a mulher ligue a perguntar: – Demoras?), de ser pais, onde nos desligamos da posição profissional que cada um ocupa de segunda a sexta e esquecemos o politicamente correcto, que ficou há muito à entrada do ginásio para o jogo de futebol. A cabeça volta a ser pré-adolescente e a de alguns até infantil, onde a amizade basta e voltamos a descobrir o mundo! Ontem, já proibidos de soprar ao balão, ouvimos a história sobre um ex-gay e descobrimos que a mulher quanto mais velha, melhor…
Já atestado e num estado quase a roçar a má disposição, apesar da insistência de alguns para acabar de ver o FCP versus Nacional, despedi-me.
Parecia estar a sair de uma cena suave do “Feios, porcos e maus” mas mesmo assim sentia-me demasiado bonito para me esconder já em casa. Com vontade de uma comédia romântica, parei no café S. Martinho.
Entro e encosto-me ao balcão, lá dentro a sala está cheia.
- Café, Calheiros?
- Sim, David.
Ponho-me de lado para o balcão e fico de frente para uma das televisões sintonizadas no FCP versus Nacional. Por baixo dela, uma mesa, onde estavam sentados um rapaz e uma rapariga, novinhos…se calhar no primeiro encontro.
O FCP controlava o jogo e sem ela ver, ele mantinha as mãos debaixo da mesa, desassossegadas  de nervosismo. O Nacional não conseguia sair da defesa e o sorriso tremia, sem se conseguir manter firme, o FCP reparou nisso e sentia-se seguro e senhor do jogo, fazendo juz à tez morena e cabelos pretos ondulados.
Quando desviava o olhar da televisão para aquela mesa, nunca o via a falar… adivinhava-se uma goleada do Porto. Ela estende os braços pela mesa, e deixa uma mão próxima da dele.
“Põe a mão em cima da mesa e encosta-a à dela!” – Torcia eu, como se estivesse a jogar aquele jogo. Como sportinguista, queria muito que o Nacional empatasse, e acontece aquele momento.
Aquele momento em que ela lhe faz uma pergunta, o miúdo abre a boca e penso que o vou ver finalmente a falar, mas o Nacional perde novamente a bola e o Porto carrega mais uma vez….
Aquela menina, por quem era capaz de me apaixonar se tivesse dezasseis anos, massacrava aquele rapaz perguntando e respondendo por ele. Não entendia porque tinha ela saído com ele! Mas enfim… os jogos têm que ser jogados, senão perdemos por falta de comparência!
Cansado de ver um jogo em sentido único, paguei o café e fui embora com dúvidas se haveria um beijo nessa noite!

Quando chego a casa, deito-me e ligo a televisão para me ajudar a adormecer. Quando vou a cerrar os olhos passa em rodapé, “Nacional empata no Dragão”. Adormeci como acordei, encolhido e fofinho debaixo dos cobertores e a cabeça “acamada” na almofada com um sorriso de menino, que conseguiu um beijo nessa noite, que vai guardar para toda a vida!

sábado, 16 de novembro de 2013

E a Trofa também é minha!

Bom dia amigos(as), o texto deste fim de semana, vão encontrá-lo no blogue eatrofaeminha, cujos administradores tiveram a gentileza de me convidar para escrever. Foi um prazer ter participado neste projecto sério e independente sobre a realidade trofense. Espreitem em,
http://eatrofaeminha.wordpress.com/

domingo, 10 de novembro de 2013

Vendedor de sonhos.

No parque estão dois palanques montados, cada um deles com as cores do seu respectivo partido. Neste cenário, há o facto bizarro dos dois comícios estarem marcados para a mesma hora!
À espera dos discursadores, candidatos a um cargo que interfere directamente com a vida das pessoas dessa terra de que não me lembro o nome, e nem sei se existe, está a população ainda mais bizarra do que o cenário.
Como não me lembro do nome da terra e nem sei se existe, embora julgue que fique próximo da Trofa, chamemos à população de jupiterianos.
Os jupiterianos são fervorosos adeptos de futebol, cada um com o seu clube, uns gostam mais de Magnum e outros de Perna de Pau, outros ainda não trocam um belo iogurte líquido por nenhum dos outros gelados, há quem goste de homens ou mulheres e quem goste dos dois, há quem goste de ginásio e quem goste de estar parado, há quem goste de se indignar e quem goste de meditar,…, mas o que os distingue dos habitantes das outras terras, apesar de não ter a certeza de esta pertencer ao nosso país, é o facto de nenhum jupiteriano ter partido político e gostar de ouvir a realidade e as verdades dos seus políticos…apreciam neles a honestidade!

Nesta noite de discursos, os jupiterianos não estão distribuídos pelos palanques, mas aproximam-se do que está próximo da figueira, onde começa a horas o discurso de um dos candidatos.
Após a apresentação pessoal, este candidato, chamemos-lhe de “A”, traça a história da freguesia, para dar a perceber em que sentido a terra evoluiu em consequência das políticas tomadas. Ao palanque próximo da pereira chega o candidato “B”, atrasado e sem audiência para quem falar, mesmo assim arrisca: – Boa noite!
Por norma, os jupiterianos não se deixam distrair por atrasados, mas mesmo assim o Antunes olha para a esquerda em direcção ao palanque próximo da pereira e quando avista o candidato “B”, pensa – “Seu anormal! Eu que perdi uma perna numa aposta estúpida, um braço num acidente de trabalho e uma mão por causa de outra aposta ainda mais estúpida, sou obrigado a andar ao pé-coxinho e por isso tomo horas para não me atrasar, mas tu…francamente!” – após este pensamento indignado, Antunes volta-se para a frente e prende a sua atenção ao candidato “A”.
Este continua o discurso apresentando o cenário actual, que compara a uma pega de touros em que os forcados estão de costas para o animal – Temos que nos virar de frente! – diz.
Os jupiterianos acenam em concordância, e o Sr. Antero ainda com mais vigor, motivado pela própria experiência, lembrando o dia em que ao atravessar a estrada, chamaram-no, volta-se, e leva por trás uma trombada de uma motorizada. “Parecia um touro”, diz sempre que lembra o acontecimento. Desde então nunca virou costas ao atravessar a estrada.
Do outro lado, o candidato “B” apercebendo-se que não iria conseguir competir em seriedade, tenta do seu palanque chamar a atenção, dizendo: – Comigo, vai entrar dinheiro fresquinho na casa de todas as pessoas, logo pela manhã, juntamente com o pão quentinho!
Ao ouvirem isto, uma parte dos jupiterianos, que prestavam o máximo de atenção ao candidato “A”, não resistiram em olhar para o outro palanque, tendo alguns exclamado: – O quê?!
Mas perante tamanha baboseira, a atenção revirou-se novamente para o palanque próximo da figueira.
- …e as pessoas vão deixar de pagar renda! – dispara o candidato “B”.
Estas duas baboseiras seguidas, turvou de tal forma a mente de alguns jupiterianos, que uma parte considerável deslocou-se do palanque próximo da figueira para o próximo da pereira, para ouvir o candidato “B”, que tenho a certeza que existe.
Mas o candidato “A”, que acho que não existe, agora com menos gente a ouvi-lo, mantinha o seu rigor, explicando o que se podia fazer com aquilo que se tinha, enquanto o candidato “B”, no seu palanque, garantia haver condições para aumentar o fim-de-semana para três dias e aumentar os vencimentos. Ao ouvir isto, os que ainda se mantinham magneticamente agarrados em frente ao palanque próximo da figueira, mudaram-se para o outro lado, ávidos para ouvir quem lhes apregoava ilusões em forma de realidade, com excepção do Antunes!
- A vida não vai ser fácil! – diz o candidato “A”!
- Comigo, todos vão ter uma vida perfeita! – declara o candidato “B”.
Ao ouvir isto, Antunes “pé-coxeia”, como nunca tinha “pé-coxeado” antes e baba-se em frente ao palanque do candidato “B”.
Pela cabeça de cada jupitureano, passava o que cada um entendia como “vida perfeita”, e abraçavam-se comentando uns com os outros “Agora é que vai ser!”

O candidato “B” venceu, de forma esmagadora, e a vida dos jupiterianos ficou muito, mas muito…

domingo, 3 de novembro de 2013

Social Virtual.

Já era tarde e, também, tardava a fechar o computador. Apesar do dia ter corrido bem na vida real, ao serão ainda não tinha conseguido “postar” nada queriducho, estilo “eu dava a vida pelo pai natal”, ou pseudo-inteligente, do tipo que ninguém percebe, mas onde se faz um “like” por via das dúvidas para não se fazer má figura. Algo que também me estava a deixar tenso era o facto de ainda não ter recebido nenhum pedido de amizade, confirmando a estatística do facebook de um por dia, uma das razões porque abdiquei da realidade, em prol do “social virtual”!
Era já era muito tarde quando “cai” um pedido de amizade. Sôfrego, clico no ícone para avistar o pedido. Era uma figura estranha, com um nome estranho e que vive na Índia. De imediato aceitei aliviado, fechei o computador e fui-me deitar. Este novo amigo relaxou-me o suficiente para não ter que tomar a medicação para dormir: – Obrigado bom amigo! – pensei…

De manhã acordo de um pesadelo, em que estava no meio de uma tempestade, com o sol a entrar pela janela! É sábado de manhã, o momento oportuno para partilhar algo ligeiro e queriducho, que não tinha conseguido postar na noite anterior: – Estava a sonhar com água e está sol…LOL! J.
Fiquei paralisado, sentado na cama, à espera de ânimo para seguir a minha vida! Essa fonte de energia, para carregar as minhas “baterias vazias”, chegou trinta e sete minutos depois, com um “like” do meu novo amigo indiano! Levantei-me, preparei-me e fui até ao café. Não combinei nada com ninguém…aparece sempre alguém conhecido!
Quando entro na pastelaria, lá estavam três amigos, não daqueles “old fashion”, que esboçam emoções quando nos vêem, mas daqueles, do “social virtual”, que nos fazem parecer invisíveis aos seus olhos, mesmo estando ao lado deles. Como mandam as regras destas amizades que nos acrescentam valor, nem nos olhamos!
Já na mesa, a empregada pousa a chávena de café que pedi. Tiro uma fotografia à chávena, que partilho no Facebook com o comentário: – Pedi um café curto e a chávena veio, quase cheia J!
Num curto espaço de tempo, os meus três amigos, espalhados em três mesas da pastelaria, fizeram “like”, ou comentaram a minha fotografia, a que se juntaram mais pessoas comentando que lhes aconteceu o mesmo nessa pastelaria…aos poucos fomos descobrindo que a máquina devia ter um problema de dosagem…e assim fomos trocando opiniões sobre o assunto, enquanto a realidade crua aparecia nas notícias que passavam na televisão!
Lá tomei o café cheio, que tinha pedido curto, paguei e saí, sem olhar os meus amigos!
No regresso a casa, cruzo-me com o Joquinha, amigo de adolescência, que rasga um sorriso e me cumprimenta com alegria. Envergonhado e olhando para o chão, digo-lhe: – Tudo bem? – e apresso o passo. Continuo a minha caminhada e já recomposto do triste episódio, vejo que em sentido contrário vem a Lurdes, minha amiga virtual e com quem nunca falei pessoalmente, como mandam as regras.
Depois de nos cruzarmos, ela a olhar para a direita e eu para o ar, ouço um berro. Olho para trás e vejo a Lurdes deitada, agarrada à perna. Volto atrás, “saco” de telemóvel e com um braço por cima da Lurdes e virado para a câmara, com um sorriso bonito, tiro uma fotografia e sigo caminho. Durante o trajecto “posto” a fotografia com a mensagem: – A Lurdes está deitada, com um entorse, na Avenida da Estação Nova. Bora lá ajudar, agradeço a partilha!
Este meu gesto, fez-me sentir bem e leve, e foi suficiente para não me deixar abater pelos cinco mendigos e crianças a chorar, por quem me cruzei a seguir...
Durante o dia as partilhas foram-se sucedendo e já ao final da tarde, o Telmo, cuja amizade estamos a tentar recuperar, após o ter cumprimentado quando nos cruzamos na rua, depois de uma amizade solidificada no “social virtual”, “posta” nova fotografia da Lurdes, com a mensagem: – A Lurdes já não está no mesmo sítio! Arrastou-se e continua agarrada à perna no Largo de S. Martinho! Partilhem.
Novamente ansioso, desta vez para recuperar uma amizade, partilhei a fotografia da Lurdes, para ajudar o Telmo a sentir-se bonzinho!

Sorte da Lurdes em ter-nos como amigos!