domingo, 23 de março de 2014

Poliglota.

Apesar de ser defensor do que é nosso, daquilo que simboliza a nossa Nação e de sentir-me também dono da língua que falo e que escrevo, isso nunca invalidou uma vontade clara de aprender o “Inglês”.
E são duas as razões principais. A primeira, porque na escola não gostava das outras opções, o “Francês” e o “Alemão” e a segunda, por vergonha.
Vergonha de fazer as mesmas “ceninhas” que amigos meus faziam quando em plena pista de uma discoteca tentavam acompanhar as músicas mexendo os lábios simulando um inglês, que pouco sabiam, que não encaixava nas letras, sendo pior do que uma novela venezuelana traduzida para brasileiro. Por diversas vezes, quando gingava o meu corpo de um lado para o outro, de cervejinha na mão e com o radar ligado no modo “fêmea”, e um amigo se atrevia a abrir a boca quando nem o playback de um “yes” conseguia fazer, eu, disfarçadamente, ia dando uns passos para o lado e olhava pare ele como se não o conhecesse de lado nenhum e comentava com a miúda do lado, “Que parolo!”.
Mas antes disto e ainda muito criança, o que eu gostava mesmo era de falar a língua dos animais. Autodidacta, aprendi a miar para os gatos, a ladrar para os cães, a cacarejar para as galinhas, a roncar para os porcos (língua em que me tornei um “expert”), a relinchar para os cavalos,…, faltando-me rugir cara a cara com um leão! Toda esta lógica só foi quebrada uma vez, quando na comunhão de um primo mais velho, fui apanhado a mugir para um passarinho, depois de beber uma cerveja às escondidas debaixo de uma mesa.
Agora adulto, um destes dias quis ir mais além de quem estuda línguas mortas, como o aramaico ou o latim, e mergulhei nos primórdios da língua indo ao jardim zoológico praticar o meu guinchar com um macaco.
No portão de entrada, um cartaz a anunciar o desconto de 80% para quem conseguisse imitar um cavalo. Consciente do meu saber e das minhas capacidades, imitei um híbrido de elefante com rinoceronte a discutir com uma couve. Perante a estupefacção da senhora da bilheteira entrei de graça!
Dirigi-me lesto para a jaula do macaco. Pachorrento, ele dormia.
- Acorda, pá! – gritei.
E com o barulho, ele acordou.
 - U,u,u,u,u,uuuuuuuu,u,u,u,u,uuuu,u,u,u,u! – guinchei, num orangotangês erudito.
- Pareces parvo, ó humano! – responde-me o macaco.
- Ui, tu falas! – exclamei mais admirado do que se houvesse um consenso político em Portugal.
- Sim, falo, ó parvalhão!
Perante o insulto não me deixo ficar e respondo-lhe – Parvalhão és tu, eu tenho vergonha de descender de vós!
- E nós macacos temos vergonha de ser ascendentes do Humano! Sois uns animais!
Sem querer mais conversa com o parente despeço-me num orangotanguês coloquial - U,u ,u uuu, u, u – e viro costas.
- Pane…! - chamou-me o macaco.
No regresso a casa, para relaxar da má experiência que foi a conversa com o macaco, tomo o caminho que atravessa o bosque. Aproveitei para praticar as palavras assobiadas das árvores e as palavras das plantas empurradas pelo vento! Cheguei a casa convicto de que percebia todos os seres do mundo e ouço barulho ao fundo, na sala.
- Zé, já chegaste? Anda cá. – chamou-me a Cristina – Estas são as minhas amigas. – diz-me, apresentando-me, uma a uma.
Para parecer simpático deixei-me ficar com elas cinco minutos, que me fizeram perceber que continuo a não compreender o dialecto feminino!

Saí de casa e voltei ao jardim zoológico, para conversar com o macaco.

domingo, 16 de março de 2014

Brito de Jesus.

Zé, filho de José e de Maria José, nascido há muitos anos, era uma criança como todas as outras, vivaça, traquinas e de nome Zé como todos os seus amigos! Devido à necessidade de se diferenciarem, tratavam-se pelo segundo nome ou apelido e Zé, filho de José e de Maria José, era tratado por Brito.
O tempo, nas ruas de terra, era passado a chutarem uma amálgama de trapos entrelaçados em forma de bola, que chutavam na direcção de dois postes. Como não sabiam o nome do jogo a que gostavam de jogar, costumavam dizer, “Vamos jogar aquilo?”. Além disto, gadulhas…por vezes misturadas com “aquilo”.
Com as disputas de brincadeira, Brito criou um espírito competitivo e desde criança nunca gostou de perder, muito menos quando jogava “àquilo” mesmo sem saberem as regras e como se ganhava! Em jovem adulto, viciado no jogo, não da bola, mas de cartas e dados, nunca aceitou uma derrota, que significava perder dinheiro. Costumava frequentar um salão de jogos chamado de “Templo”, em Jerusalém, e nos tempos vagos ia para um monte de oliveiras descansar à sombra das mesmas. O espírito alegre, divertido e de humor refinado que o fazia invejado pelos outros rapazes e apreciado pelas mulheres, contrastava com o comportamento que assumia, como se estivesse possuído pelo diabo, mal entrava no “Templo”. Obcecado e sem regras, não deixava a mesa de jogo, nem quando seus amigos de infância, José Paulo, José Judas e José Pedro, insistiam para que viessem embora.
Numa tarde tórrida de Verão, quando já tinha perdido quase tudo e já estava a apostar as sandálias, o “coupier” da mesa, o sacerdote José Ahmushef, expulsa-o à força, tendo Brito durante a saída do “Templo” mandado umas mesas pelos ares.
Já numa esplanada de um café, Brito, mais calmo, e seus amigos, tomavam uma cerveja de tâmara fresquinha sem saberem que o dono do salão de jogos tinha mandado no seu encalço um grupo de capangas para o castigar pelos prejuízos causados. Quando estes chegam à esplanada, junto do grupo de amigos, o cabecilha pergunta:
- Conhecem o Brito?
- Sim! É aquele. – responde José Judas, apontando para Brito, sentado no outro lado da mesa.
A expressão de Brito e restantes amigos, foi de total espanto.
Os capangas atiram-se a Brito e este, desesperado, grita:
- Sou nada, o José Judas mentiu. Ou sou o Brito…de Jesus!
Perante este esclarecimento, no meio da confusão que se começava a instalar, os “gorilas”, comentam entre si - Nós queremos apanhar é o Brito…só! – e desaparecem!
Triste com a traição do amigo, Brito sente a necessidade de estar só e muda-se de mesa. Maria Madalena, rapariga avispada, que já andava de “olho” em Brito há algum tempo, aproxima-se e senta-se na mesma mesa.
- Olá, Brito!
Brito, cabisbaixo, estica as sobrancelhas para cima, franzindo a testa e avista a bela mulher. Recupera a compostura e:
- Conhecemos-nos, bela mulher?
Maria Madalena, mais conhecida na noite, como MM, perante o galanteio sorri e insinua-se:
- Gostava que fôssemos amigos!
- Nem pensar! – responde Brito, prosseguindo – Tinha cinco mil e um amigos, acabei de perder um dos melhores, por traição, e sobram-me cinco mil potenciais traidores! Chega de amizades, se quiseres, segues-me!
E assim foi, Maria Madalena começou a passar a palavra de que Brito atingiu o limite de amigos e que agora só aceitava “seguidores” começando a liderar um grupo cada vez maior, sedento de saber o que Brito fazia.
Contemporâneo de Brito e na mesma zona andava um indivíduo de nome Jesus, a fazer tanto ou mais sucesso do que Brito, sendo administrador de um “grupo fechado” de doze amigos, mas aberto a seguidores, cada vez em maior número. Herodes, o poderoso governante de Jerusalém, que se gabava de ser a pessoa com mais “seguidores”, movido pela inveja, manda os seus soldados prender Jesus. Nessa busca para o apanhar, os soldados vão ter à praça principal de Jerusalém, rodeada de esplanadas onde vários grupos de amigos e conhecidos matam a sede com a bebida mais servida, a cerveja de tâmara fresquinha.
Abel, comandante dos soldados, do meio da praça grita para todos ouvirem:
- Alguém sabe onde está Jesus?
Os capangas que dias antes perseguiam Brito, em uníssono respondem:
- O Jesus está ali! – apontando para uma mesa próxima, onde estava Brito, relaxado, de perna cruzada a coçar os dedos do pé.
Sem aviso prévio e sem direito a defesa, Brito é agarrado e levado para as masmorras.
Dois dias depois é crucificado na presença de seus amigos e seguidores encabeçados por Maria Madalena, que insistentemente gritam “Gosto! Gosto!...”

Ao lado passava Jesus, que ao assistir à cena exclamou – Ui, eu é que devia estar ali e a MM a gritar por mim! Aquele gajo estragou tudo!

domingo, 9 de março de 2014

Estarei deprimida?

À porta, uma placa com a inscrição “Dr. Luís Fernando, Psicólogo”. Do lado de fora, meia dúzia de cadeiras vazias e outra meia dúzia ocupada de pessoas à espera que lá dentro, a consulta de Vânia termine, na parede em frente um quadro de 1983 do SLB, clube pelo qual o Dr. Luís Fernando, pessoa que ferve em pouca água, é maluco.
- E então, estranha estar a sentir-se melhor?! – pergunta o psicólogo Luís Fernando.
- Sr. Doutor, há três dias que não consigo tirar uma “selfie”, ainda em sono, quinze minutos antes do despertador tocar! – conta Vânia, pesarosa.
- Ui, e você conseguia? – pergunta espantado, o médico.
- Sim, Doutor! E é por isso que sou altamente admirada pelos meus cinco mil amigos e setecentos e oitenta e quatro milhões de seguidores. – responde com toda a naturalidade.
- UI, isso não é normal? – responde o médico, dando um salto na cadeira.
- Pois não é não!!! Já são três dias…deve ser um esgotamento! – tenta adivinhar.
- O que não é normal é ter tantos amigos e seguidores! – corrige o psicólogo Luís Fernando - Mas conte-me mais...
E Vânia prossegue:
- Hoje, por exemplo, acordei cheia de fome e partilhei isso com o meu marido, ele preparou-me o pequeno-almoço…e conversámos!
- Que bonito! – responde o psicólogo – Tem a certeza que veio à consulta certa?
- Claro que sim, Sr. Doutor! Então a minha vida está a descambar e não estou nada preocupada com isso…isso preocupa-me! Ainda há poucos dias partilhava com o mundo que tinha acordado com fome e tirava fotografias à torrada, à meia de leite e às migalhas, anunciava as minhas tristezas e alegrias, amores e zangas, fazia amigos com um click e desfazia amizades com outro…era uma alegria…agora?! Que estranho, agora também é – desabafa.
- Então não se sente triste?
- Não, Doutor, e o dia até foi estranho! Eu e o meu marido sorrimos um para o outro, ele disse que gosta de mim e sorrimos, falei na rua com pessoas que conhecia e vi-lhes a expressão, mas não é tão estimulante como um “like” ou uma “partilha”! Devo ter alguma coisa na cabeça, de certeza!
- Hummm, interessante! – exclama, o psicólogo.
- Sou um caso de estudo? – pergunta Vânia.
- Você? Não creio.
E Vânia prossegue:
- E faz quatro dias que não me indigno “furiosamente” , três vezes ao dia após as refeições principais, com um qualquer assunto banal!
- E isso é importante para si? – pergunta o médico, enquanto toma apontamentos.
- Achava que sim! Fazia-me sentir interessante…agora, estranhamente já não, aceito-me como sou, dando importância ao que interessa!
- A senhora tem a certeza que veio à consulta certa? – repete a pergunta,Luís Fernando.
- Tenho, Doutor. Estarei a ficar deprimida?
- Não, a senhora está é a ficar normal!

Quando a paciente saíu da consulta, Luís Fernando, marido de Vânia, sorriu e partilhou no facebook, “estou a sentir-me feliz!”.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Velório.

Estava sentado quatro cadeiras ao lado da filha. Apesar de mal a conhecer e de totalmente desconhecer o pai defunto, entrei na capela mortuária com a expressão sóbria a condizer com a ocasião. Todas as pessoas estavam sentadas, alinhadas em “U”, à volta do caixão, um nariz familiar, o da minha sogra, alguns arranjos de flores, o caixão entre duas colunas com velas acesas e arranjos florais por baixo e ao lado do caixão, uma ou outra conversa em tom arrastado para não descompor a ocasião…até que toca um telemóvel e algumas pessoas acordaram…com esperança, apesar de não conhecer o defunto, pessoa já idosa, olhei para o caixão!

Este dia, sábado, prometia ser igual aos outros, felizmente, e com um pormenor de classe, não chovia!
A manhã, passada em algumas tarefas domésticas, provocavam um sorriso à minha mulher, que com orgulho olhava para mim e dizia, “És um querido!”, enquanto  eu olhava para ela e respondia com um sorriso a pensar, “Logo no fim do futebol, vou à tasca com os suspeitos do costume…a malta da bola.”.
Já de noite, acabada a bola e instalados na “Canzoada”, estava eu na transição do primeiro para o segundo prato e a encher o sétimo copo, toca o telefone. Abano a cabeça e…”Fogoooo”, pouso o prato, dou um gole no copo de vinho e, “Não atendo.”, pensei. Para saber com quem eu não ia falar olho para o telemóvel e é a Cristina, a minha mulher!
- Olá Morzinho! – atendi – Tudo bem?
- Faleceu o pai da Maria.
Fiquei a pensar quem era.
- Que Maria? – perguntei.
Após uma breve explicação, a Maria é uma conhecida da Cristina, que me foi apresentada há muito tempo e depois disso voltei a vê-la mais uma vez.
- O funeral é amanhã. Vamos?
- Vamos. A que horas é? – pergunto.
- Às onze.
- Não posso. Tu sabes que tenho futebolada (com outros “suspeitos do costume”) a essa hora!
- Então vamos daqui a pouco ao velório?
- É isso,vai ao velório, fazes bem! – incentivo.
- Não…VAMOS, os dois.
- É isso Morzinho, vai!
Detesto, quando estragam o meu sábado ordinário!
Enquanto “comia” caminho, por entre montes, em direcção à casa mortuária de Rindo, tinha que transformar a minha sentida expressão de zangado. Muito facilmente cheguei ao local de velório, com uma expressão de extremo pesar, lembrando-me da época passada do meu clube, o Sporting!
Deixo a Cristina entrar à frente e cumprimento quem ela cumprimente e dou os pesares a quem ela os dá…e sento-me.
Após uma breve observação pela sala, respiro fundo e deixo-me “afundar” na cadeira. Sem me aperceber, para um senhor em frente a mim:
- Os meus pêsames!
- O quê? – pergunto sem perceber.
- É neto do Antunes? – pergunta-me o senhor.
- Não, nem o conhecia! – respondo, ficando a saber o nome do falecido.
A minha expressão de extremo pesar confundiu aquele senhor e de imediato parei de pensar no Sporting! Decidi manter uma expressão normal, pensando em…nada!
Desvio o meu olhar para a filha que recebia o consolo de uma senhora, certamente conhecida, com quem mantinha conversa!
- É dura a morte!
- É, é dura! – responde a filha.
- E a tua mãe, não conseguiu vir?
- Não, amanhã tem que se levantar cedo para fazer uma coisas antes do funeral!
- E está a sofrer muito? – insiste a senhora no seu consolo piedoso.
- Não! O meu pai sempre foi muito mau para ela, batia-lhe…
- Mas era bom pai? – interrompe a senhora sem deixar a Maria terminar a sua frase, tentando descobrir algo de bom naquele homem.
- Também não! Basicamente só nos teve! Nunca foi bom pai!
(“Foste um maroto, Antunes!”, pensei, olhando para o caixão)
- Mas ajudava lá em casa?! – insistia a senhora.
- Sim! Se fazer “nada” for ajudar! E ainda por cima agora estava acamado e a minha mãe já não tinha idade nem saúde para cuidar dele…
(Abstraí-me da conversa e olhei novamente para o Antunes, sentindo um verdadeiro pesar por ele)
- Vamos embora? – pergunta-me a Cristina.
- Sim, vamos!

Levantei-me, dei três passos até à Maria e:
- Parabéns!
- Obrigada!- respondeu-me.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Amigos básicos.

Costa, óptimo rapaz, de quem não se conhecem defeitos, é tido como um quase excelente partido para casar com a filha de quem as tem, não fosse o facto de não ser rico e por isso se mantém solteiro.
Mas, “Também não é rapaz de grandes méritos”, pensam as senhoras, mães das filhas da terra.
Estas mães com algum desdém dizem que ele é trabalhador, bom amigo, brando mas mora numa casa alugada, “vendo o copo meio vazio”, enquanto Azevedo, amigo de Costa, pelas mesmas razões “vê o copo completamente cheio”. Não que quisesse para si mais do que a amizade do Costa, já que Azevedo, desde muito cedo, se habituou “a levantar a crista” para as meninas, fruto, não de um qualquer ensinamento, mas sim de uma “coisa” interior que não consegue explicar…nem eu, conhecendo o Azevedo razoavelmente bem!
Costa é um óptimo rapaz, não por dizer “ámen” a toda a gente, mas por ser tolerante com os outros e ao mesmo tempo firme nas suas convicções, mas sabendo reconhecer quando está errado, por isso Azevedo, apesar de mais popular é capaz de admirar mais Costa, do que este a Azevedo. Se tivesse irmãs, e bastava uma, Azevedo tinha a certeza que a “impingia” a Costa, e só não “impinge” o único irmão que tem, por este já ser casado!
Entre Costa, óptimo rapaz, e Azevedo, de todas as diferenças existentes entre eles, desde as políticas, religiosas, preferência clubística,… e até vocais, visto que Costa já cantou num coro e Azevedo é o único ser vivo que continua a achar que canta benzinho, une-os aquilo que é mais forte numa amizade, pelo menos entre homens…são básicos!
São básicos como era a mecânica do Datsun 1200, que Azevedo teve quando adolescente, oferecido pelo seu padrinho, com motores fiáveis, e de tal forma transparentes no seu funcionamento, que até um cabeleireiro poderia dizer que percebia de carros!
Costa é assim, como um carro que se gosta logo na primeira voltinha e sentimos que é de confiança, à primeira conversa sente-se que ele pode ser nosso amigo, ficando a dúvida se não teremos “extras” a mais para sermos capazes de ser amigos dele!
E é esta característica de “básico”, não confundir com simplório, que Azevedo aprecia no seu amigo Costa, seus pensamentos “roncam” como o motor do Datsun, naturais, sem ser abafados e sem floreados. Por isso, e apesar das diferenças, aceitam-se e divertem-se com elas e entusiasmam-se com o que os une, o gosto por jogar à bola, o ginásio e as estórias que inventam estimulados um pelo outro!
Azevedo, ao longo da vida, conheceu muita gente com demasiados extras, que a qualquer momento, como um carro moderno mais vistoso do que o Datsun e cheio de electrónica, faz “shut down”! Azevedo, ainda hoje se lembra do Datsun 1200, sem direcção assistida, sem vidros eléctricos e o ponteiro de gasolina que não funcionava…mas que o espevitava mais do que qualquer outro carro!
Costa, excelente rapaz, é assim, simples e alegre, que apenas se desilude quando vai a um restaurante, pede bacalhau e lhe respondem: - Não há!

Pensando melhor, já que as mães das filhas desta terra não querem o Costa para genro, porque insistem em “ver o copo meio vazio”, Azevedo vai tentar “impingir” o seu amigo ao seu irmão…mesmo sendo casado!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Alerta vermelho.

Sexta-feira, pós jantar. Enquanto via o noticiário, sempre com as mesmas notícias, sem nenhum desenvolvimento, que me fazem pensar que o Mundo parou na parte pior do “filme” eis o boletim meteorológico, “Para todo o fim de semana mau tempo, alerta vermelho e laranja para todo o país e todas as barras de portos de mar fechados à navegação.”.
Este estado de “nada de novo”, não me surpreende e como ser básico da raça humana que sou, nada me afecta, nem o mau tempo, porque todo o meu pensamento estava concentrado para este fim de semana mágico, que se repete há já muitos anos. Sábado à tarde, futebolada com os amigos e domingo de manhã, futebolada com os amigos…nada mais espectacular!
Quase no final do telejornal, a Cristina, minha senhora, entra na sala e, como uma cientista atenta aos fenómenos da natureza que prevê um Tsunami e alerta a população, avisa-me:
- Morzinho, o período está para me vir!
Este alerta é dado com meiguice, porque ela sabe que os próximos dias o ser pouco racional que uma mulher consegue ser vai desaparecer. Perante esta notícia todas as sirenes de perigo soaram e o verdadeiro e temido alerta vermelho foi dado. Pensei um palavrão e disse:
- Pronto Cristina, fizeste bem em alertar. Prometo que vou ter paciência contigo e não te deixo!
Toda esta frase soou-me a grande mentira, porque a minha vontade era desaparecer por uma semana, a forma mais fácil de aguentar uma mulher nestas condições! Tinha que fazer algo e ia ser nessa noite mesmo!
Mais tarde, quando nos deitamos, mesmo não sendo crente, mas quando o desespero aperta, agarramos-nos a qualquer coisa, rezei a todos os santos que existem e até inventei mais alguns a quem pedir ajuda com as minhas orações. Rezei ao Santo Edmundo do Paranho, à Santa Clarisse da Abelheira, ao São Tone de Finzes e à Santa Natália de Valdeirigo, dona da tasca onde costumo ir com os amigos, sábado à noite, como quem vai à missa, depois do futebol!
 Sábado de manhã, acordo e a Cristina ainda dorme. Aproximo a minha cabeça da dela e a respiração lembra-me o assobio de uma brisa que corre pelo mar a anunciar uma tempestade. Pelo sim, pelo não, volto a rezar e quando me apercebo que a Cristina está a acordar, salto da cama e vou para a cozinha. Dez minutos depois, regresso ao quarto e ela já estava desperta e sentada na cama e… nitidamente possuída pelo castigo que Deus aplicou a Eva por esta ter comido a maça…o período!
- Morzinho, olha o que preparei para ti! O pequeno almoço! – digo eu, com paninhos de lã.
- Não fizeste mais do que a tua obrigação. – responde-me autoritária, não deixando dúvidas sobre o seu estado.
Pousei a travessa com o leitinho e a torradinha, preparados com todo o cuidado, a medo, à beira dela.
- Então?! – pergunto, como quem quer fazer conversa, para dispôr bem.
- Então, o quê? – responde-me, como quem não quer conversa nenhuma.
Ela começa a tomar o pequeno almoço e eu, como um vassalo, deixo-me estar à porta do quarto, à espera de ordens, até que:
-A TORRADA ESTÁ QUEIMADA E O LEITE ESTÁ MUITO QUENTE. DESAPARECE.

Esta última palavra foi “doce” para os meus ouvidos…e desapareci por uma semana. Quando cheguei:
- Aonde foste Morzinho?
- Fui ali, tomar café. – respondi.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Lobo com pele de cordeiro.

Mais uma vez, a água do chuveiro escorria fria pelo meu corpo enquanto me ensaboava passando as mãos pelos músculos e auto apreciando os meus braços e tronco fortes e contraídos, estado que não se mantém por mais de dez minutos depois de acabado o meu treino no ginásio! Depois o corpo descontrai e só volta a esta condição “Adónica” no treino seguinte…que não sei quando será!
A meio do meu estado idilicamente “narcísico” de curta duração, ouço de um outro chuveiro uma voz de criança a dizer:
- Odeio isto!
“Como eu te compreendo!”, pensei e repensei, “Não é agradável tomar banho de água fria no inverno…e pagar!”.  Entretanto ouço uma voz melada de adulto a responder à criança:
- Mas é para o teu bem, filho!
“Banho, água fria, inverno, pagar”, esta associação de ideias, na minha cabeça, não fazia sentido, nem mesmo para manter as carnes rijas, que no meu caso tendem a mingar.
- Mas eu já te disse, que odiava isto aos cinco anos, odiava isto aos seis, e aos sete, e oito, continuei a detestar isto aos nove, e odeio agora com dez anos! – disparou o miúdo.
“Realmente, andar a tomar banho de água fria desde os cinco anos não é fácil”, pensei, compreendendo a forma rude com que o miúdo respondeu e começando a não achar o adulto bom pai!
Entretanto o corpo inchado de músculo relaxa e é normalmente nesta altura, quando o corpo volta ao normal, que paro de me ensaboar e termino o meu banho…mas não desta vez! Solidário com o miúdo que injustamente toma banho de água fria desde os cinco anos, mantenho-me debaixo do meu chuveiro, mas desligado. Do outro lado a conversa continua e volto a ouvir a voz melada:
- Mas tens que compreender filho, isto faz bem ao teu crescimento! – responde o pai.
- Mas já te disse, DETESTO ISTO, DETESTO! – berra a criança.
Eu que tomo banho de água fria no meu ginásio muitas vezes (e não por minha vontade), sei o quanto isso é desagradável, por isso compreendo a revolta do miúdo que toma desde os cinco anos, mas o tom daquela resposta roçava a má-criação!
A voz melada do pai, sem alterar o tom e volume, faz-se ouvir:
- Mas foste para o futebol e não gostaste, foste para o ténis e não gostaste, foste estudar e não gostaste, foste para os kartings e não gostaste, és filho e não gostas…
“Não gostou dessas coisas e pões o teu próprio filho a tomar banhos de água fria! Claro que ele não gosta!”, pensei, com a minha revolta em crescendo, e com vontade de pregar um chapadão no pai!
…foste para o ballet e não gostaste, pus-te nas explicações e não gostaste, andas na piscina que te faz tão bem…e odeias?!!!
“Ops! Afinal o miúdo não detesta tomar banho de água fria…ele odeia é andar na piscina!”

Mantive-me debaixo de um chuveiro com água fria, solidário com a pessoa errada!