domingo, 18 de maio de 2014

Teste ao espírito criativo com um “copo” a mais!

Sábado, Avenida de Paradela, Trofa, 23h32m, sofá de casa…Cheguei há cinco minutos da melhor tasca do mundo, a “Canzoada”, também na Trofa. 
Devido a dois copos a mais de “água”, o índice de álcool no sangue não está 0,00 g/l, como quando o dia começou, e para chegar até à cama, o trajecto vai ser  feito por etapas. Apesar de a vontade ser levantar-me do sofá, ir para o quarto e tombar na cama, a Cristina já me avisou para não me deitar sem antes tomar banho! Sem balizamentos morais, derrubados por uns copitos de água verde branca fresquinha, vou escrever o que sair, amanhã, mesmo que tenha vergonha do que sair agora, é o que vou publicar no melhor blogue do mundo num raio de três metros à volta de minha casa.
Antes de mais gostaria de soltar um palavrão…e vou soltar!
Aahhh grandiosa prostituta que o deu à luz! Hoje à tarde perdi no futebol.

Mas o dia começou cedo, por volta das oito, com o índice de álcool no sangue de  0,00 g/l. Às 9h15m tinha consulta de oftalmologia no hospital da minha terra.
(Vinha acontecendo de forma persistente ao avistar alguém ao longe,pensar – “Que miúda gira!” – mas com a aproximação, verificar que além de não ser gira, por vezes não era mulher! Nitidamente, estou a ver mal ao longe.)
Com a devida antecedência chego ao hospital e penso – “Pode ser desta que seja atendido a horas”. Mas para não correr riscos, porque detesto chegar atrasado e fazer os outros esperar, não marquei nada para o resto da manhã.
O tempo passa e não ouço chamar o meu nome. Estou só, numa sala, virado para a parede a pensar no sol lá fora.
 - Senhor José Calheiros! – Chamam-me.
São 10h30m, quando entro no consultório. Apetece-me mandar alguém para a pequena cesta que se encontrava no alto dos mastros das caravelas.
- Olá, Sr. Doutor!
- Olá, Sr. Calheiros.
…
- Ora veja aquelas letras lá ao fundo! – Pede-me, prosseguindo – Agora leia estas ao perto.
Após este pequeno teste, pergunto:
- Ao longe sou um vesguinho, não sou, Sr. Doutor?
- Não. Ao longe vê perfeitamente bem, agora ao perto é que não. Mas nada de alarmante e que necessite usar óculos.
Ao sair do consultório, avisto ao longe, na sala de espera principal, uma miúda toda fresca de mini-saia, boa como o “Zea mays”, vulgo milho. Ao aproximar-me, apercebo-me que é a Maria, que se tivesse espelhos em casa, usava burca!
Saí do hospital, nada convencido do veredicto do médico!
No trajecto para casa paro no café, para tomar um café (além de ser pontual, gosto de ser coerente), mas estraguei tudo, quando dez minutos depois peço umas águas sem gás! Lá fora na esplanada, estão o Sampaio, portista, e o Rui, sportinguista tal como eu. O que os dois têm em comum, além da amizade, é o corpo em “B”.
Quando saio do café, com relativa alegria, cumprimento-os.
- Tudo bem, rapazes?
- Está tudo, Calheiros! – E prosseguem - Estás elegante…
E termino a frase por eles – E com o corpinho em “V”!
Este momento de “autoconvencionismo” evitou uma chamada para a minha mãe a perguntar “quem é o mais bonito do mundo”.
Chego a casa e a minha cabeça está em modo “futebol logo à tarde com os amigos, às cinco, no pavilhão do liceu da Trofa”.
Fui um pouco mais cedo. Às 16h25m já estava lá e com um bocadinho de sorte, alguém da hora anterior aleija-se e jogo eu. Realmente a mente é poderosa e o Sérgio “rasgou-se” todo e não aguentava continuar. Entrei eu…todo contente!
Fiz um jogo e depois outro. Perdi um e depois o outro…mas parecia um “menino”! No fim, uma equipa, desta vez reduzida a cinco, foi para a “Canzoada”.

Cheios de sede, mandámos vir por engano, o vinho em vez da água, depois a comida e depois o à “vontade” e a conversa, por vezes em jeito de discussão. E em apenas cinco pessoas tínhamos um país representado, uns do Porto, outros do Benfica e outros do Sporting, uns de esquerda, outros de direita e eu por Portugal e pelos portugueses, uns patrões e outros empregados, uns ricos e outros remediados,…
Com muito ou pouco saber, todos sabíamos muito de tudo, mas quando o Ricardo diz que o Benfica é o maior, o Mário, portista, rapidamente lhe diz:
- Felaceia-me o pénis!
A expressão do Ricardo “gela”, virado para o Mário, e por breves segundos ficámos a olhar para os dois, à espera do próximo episódio.
- Vai-te sodomizar. – Responde o Ricardo, voltando a discussão novamente à mesa.
…

Eu vim para casa e estou a acabar de escrever este texto e mesmo com algumas tonturas na cabeça, tenho a certeza que além da morte, a “Canzoada” também iguala todos os Homens!

P.S. –Já tomei banho e não resisti a rever o texto antes de ir para a cama, mesmo estando ainda tonto…como o texto (gosto de ser coerente).

domingo, 11 de maio de 2014

Visita.

No dia anterior, no boletim meteorológico, tinham alertado para instabilidade no tempo. Como este se mantinha persistentemente chuvoso, já há muito tempo, julguei que a instabilidade seria a oscilação entre precipitação extrema  e o dilúvio.
No dia seguinte, domingo, sem perder tempo a olhar cá para fora, visto-me convenientemente para sair, com impermeável, galochas, óculos da piscina e três sacos de areia amarrados à cintura que teriam a função de âncora, caso eu fosse levado por uma enxurrada.
Ao primeiro passo fora de casa, sou quase cegado por raios de sol e de imediato começo a transpirar…afinal a instabilidade, era sinal que estaria bom tempo nesse dia.
Independentemente das condições meteorológicas, a intenção para esse dia era visitar duas pessoas, que não via há bastante tempo…O Sr. José e a Dona Arnaldina, já entradotes, na casa dos oitenta. O sol e a temperatura agradável, davam-me outro brilho e seguravam-me um sorriso, algo que esperava ver, também, nos meus amigos!
A viagem não é longa, seria feita por uma estrada interior entre a Trofa e São Mamede do Coronado, que mesmo ao domingo, apresenta trânsito quase nulo. Por entre montesinhos, valesinhos e o bom tempo, a viagem decorreu em ritmo turístico: vidro para baixo, braço de fora, música a dois decibéis acima do que é normal, velocidade a uns saudáveis 34 km/h,..e apreciava a natureza.
Natureza que reflectia ela própria a instabilidade do tempo com o sol inesperado, manifestando comportamentos estranhos. Um pássaro a bicar um tijolo, um coelho a lamber um gato, o Sr. Manuel, com fama de macho, a apalpar o traseiro ao Quim, um cão a roçar-se a um espantalho e meia dúzia de carros, atrás de mim, a buzinarem, que nem tolinhos!
Ainda nessa tarde cheguei a São Mamede do Coronado. Estaciono e encontro o Sr. José, sentado à entrada da casa do filho.
- Boa tarde Sr. José!
Ao ouvir a minha voz, levanta a cabeça, e como pessoa sensível que é, chora…quem diria, com uma simples visita!
A vida dura que sempre levou, secou-lhe as lágrimas, e só quem o conhece bem, sabe que ele chora com a voz e a boca tremida…e assim foi quando me disse: – Olá, Zé! – partilhamos o mesmo nome.
Ficamos a conversar, eu mais a ouvir, e fiquei a saber dos desmaios ocasionais do Sr. José.
A mulher, a dona Arnaldina, estava em casa, três portas acima. Fui lá.
Bato à porta, depois de a ter aberto, já com parte do corpo na entrada da casa e chamo: – Dona  Arnaldiiinaaa!
Sem nenhum sinal de vida, mas com o barulho da televisão ligada, invadi a casa mais um pouco e volto a chamar: – Dona Arnaldiiina!
- Quem é? – ouço-a a perguntar.
A voz vinha de um anexo, para onde avanço, enquanto respondo – Sou eu, o Zé!
Esta minha apresentação deixou a dona Arnaldina baralhada, até me ver, visto que o marido é “Zé”, um filho é “Manel”, um genro é “Zé” e dois netos são “Zés”.
- Ah, és tu, Zé! – E sorriu com o rosto.
O anexo é pequeno, onde cabe a cama e uma cómoda, todas trabalhadas e gastas, conferindo-lhes a antiguidade que têm, duas cadeiras, uma janela, um quadro do menino da lágrima, muita roupa amontoada, uma imagem da Nossa Senhora e uma televisão sintonizada na TVI, passando música…da pimba!
Depois de lhe dar dois beijinhos, sento-me numa das duas cadeiras e pergunto:
- Tudo bem?
- Não, Zé! – responde de forma arrastada, continuando – São os joelhos, não me dão sossego. Para andar pela casa vou-me agarrando às coisas.
Sempre conheci aquela casa assim, cheia de móveis, com pouco espaço para circular. Se em tempos era sinal de falta de gosto na decoração, agora, na velhice, é um bem para a segurança.
- Ontem ia caindo, mas agarrei-me ao sofá. Mas não é só dos joelhos, a cabeça também não ajuda. Na semana passada fui ao hospital fazer um “taco”, para ver como é que ando, entretanto o médico disse-me para tomar chá de “caramila”!
- Chá de…? – pergunto, pensando que não ouvi bem
- Chá de “caramila”. – Responde-me, parando um pouco enquanto se fixava na televisão e continua – Esta rapariga é que é jeitosa e canta muito bem!
(Não podia estar mais em desacordo)
…
- O tio Zé (é assim que dona Arnaldina, trata o marido) é que anda mal! Durante o dia vai para o centro de dia (parece-me coerente), e não gosta, depois vem para casa…e não gosta! Depois anda-me a desmaiar! Ontem desmaiou-me ao jantar. Por acaso já tinha comido, senão era comida para o lixo e na quarta-feira, desmaiou e não acordava. Telefonei ao Fernando, mas depois ele saiu do desmaio…
- Poça! E depois?
- Depois o Fernando chegou. O tio Zé ficou sem fome e…o Fernando comeu o jantar, senão era comida para o lixo! …Eu é que gosto destes apresentadores!
(Não podia estar mais em desacordo e pensava no Sr. José, sozinho, sentado à porta da casa do filho)
E tu! Como é que andas? – Pergunta-me.
Eu achava que estava bem, mas depois deste relato achei-me fantásticamente bem!
- Olhe não toca só aos mais velhos! Na semana passada, tive uma ruptura muscular na coxa e nesse mesmo dia, à noite, dei um jeito às costas. – depois de uma pausa, prossigo – tem-me doído muito a cabeça!
- Toma um chá de “caramila”. – sugere a dona Arnaldina.
…

A conversa prosseguiu de desgraça em desgraça e saí já tarde de São Mamede de Coronado, obrigado-me a dar 50 km/hora nas rectas. A chegar à Trofa, a menina do rádio anunciava estabilidade do tempo para o dia seguinte, com chuva forte, por vezes acompanhada de granizo.

domingo, 4 de maio de 2014

Liberdades de Abril (parte II).

A modista deu lugar ao estilista, o alfaiate ao costureiro, o barbeiro ao cabeleireiro, a decoradora ao arquitecto de interiores, o escudo ao euro, o contínuo ao auxiliar técnico de educação, o negro à minoria, o governante ao político, o império a uma “coisa” e depois a uma província da Europa, o Nandinho, em tempos o paneleiro, agora é gay,… Mas a mais importante conquista foi o “Politicamente correcto”, que nos permite sorrir durante uma sodomização colectiva!
Nada disto me arrelia! Pois eu tenho uma vidinha!

Sentia-me claustrofóbico, tudo era escuro e o espaço pequeno, sempre que esticava o braço tocava numa parede, sentia-me a ficar sem ar e mesmo antes de morrer, e aborrecia-me não saber aonde, ouço, Trimmmmmmmmm! Como um pugilista que está a ser espancado é salvo pelo gongo, eu fui salvo da morte certa pelo toque do despertador. É sexta-feira, se fosse fim-de-semana, em que o despertador não toca, certamente já não estaria aqui!
Abri os olhos e senti-me “cuspido” do sonho para este mundo, com a claridade do dia a querer forçar a entrada no quarto. Ainda não devidamente acordado digo:
- Morzinho, vou ficar mais um bocadinho deitado, enquanto preparas o pequeno-almoço!
- Não demores muito. – diz a Cristina.
Aquela frase, foi como lavar a cara com água fria. Pincho da cama e saio do quarto com destino à cozinha. Ficou ela deitada…mais um bocadinho!
Antes de nos despedirmos e de eu sair de casa, a minha senhora pergunta-me:
- A que horas chegas?
- À hora X. – respondo a medo, com o que dai pode vir.
- Ahhh, eu chego ás X horas e 5 minutos. Como chegas mais cedo apanha aquela roupa, estende a que está na máquina e…
-Simmmmmm! – e saí mal pude, antes que a lista de tarefas aumentasse.
A caminho do trabalho recebo uma mensagem, que só iria ver quando aparquei devidamente o carro no local de trabalho. Era um pedido/ordem para passar pelo supermercado.
Saio do carro e assumo a “farda” de profissional. Tinha que me despachar, pois tinha uma reunião das nove até às dez. Apesar de quinze anos de trabalho efectivo, continuo a não fazer uso dessa grande conquista, que é o não cumprimento dos horários. Antes das nove já estava sentado na sala de reuniões e a segunda pessoa apareceu cinco minutos depois das nove e quem a convocou apareceu ás 9h e 10m. Como seria de prever, acabou à 10h 30m. De volta ao meu gabinete, coloco trinta post-its à volta do monitor, com o dizer “compras”.
No final do dia laboral, vou directo ao supermercado, pertencente ao Grupo que faz promoções de cinquenta por cento de descontos, e faço as compras todas. De seguida, casa, apanhar roupa e estender outra. O que me animava era a futebolada, mais logo, com os amigos, essa hora mágica, em que nós, homens modernos, voltamos a ser canalha, brutos, por vezes broncos, outras vezes infantis, sem dúvida Neanderthais, mas sempre amigos!
Como o que é bom, acaba depressa, às 21h 30m já estava em casa.
- Morzinho! Morzinho, já cheguei!
Perante a falta de resposta e ainda imbuído do espírito heróico que uma futebolada nos proporciona, pensei, “Ela está desmaiada...mas como um príncipe, dou-lhe um beijo e ela desperta!”. Procurei a minha princesa pela casa e encontro um papel a dizer, “Fui caminhar, beijinhos!”.
Como a noite estava quente, desci da posição de príncipe à condição natural de lacaio, e ousei pensar, “Estou cansado, mas vou dar uma voltinha.”, e saí.
Pouco tempo depois toca o telemóvel, é a minha senhora:
- Olá, cheguei agora a casa. Aonde estás? – pergunta-me.
- Vim caminhar.
- Demoras? – pergunta-me, soltando um sorriso.
- Não. Já vou.
E apressei o passo, porque queria saber aonde está aquela camisa, que quero vestir amanhã.

- A minha camisa? – eu.
- Qual? – ela.
- Aquela assim e assado. – eu.
- Está la em baixo, na lavandaria. – ela.
- Eu quero vesti-la amanhã. – eu.
- Vai passá-la, a tábua e o ferro também lá estão. – ela…e continua – Vou-me deitar. Quando vieres para a cama, trazes-me um copo de água? – e dá-me um abraço.

Quero uma revolução, mas é para voltar ao antigamente, pois eu tenho uma vidinha!

domingo, 27 de abril de 2014

Liberdades de Abril (parte I).

Félix, assina, como no bilhete de identidade, Felix DA Silva DE Pereira e é conhecido em casa por pai e “home”, mas é mais conhecido entre os amigos por Félix e mais conhecido entre os conhecidos por Félix. Quando conhece alguém apresenta-se como Félix DA Silva e entre quem não o conhece é conhecido por “aquele gajo, pá!”.
Em Março de 1974 fez quatro anos de casado, cerimónia que aconteceu em 1970, após a chegada de uma missão de dois anos e meio no norte de Moçambique, onde fez amizades de sangue que nunca esqueceu. Nesses quatro anos de alguma felicidade teve quatro filhos da mulher, a quem os pais puseram o nome de Maria, porque desejavam que a filha fosse um exemplo de mulher, como a mãe de Cristo, e “do Céu”, porque a mãe, devota seguidora do padre da aldeia, gostava de uma passagem da homilia, em que se faz referência à “Glória do céu”.
Com quatro gravidezes e actividade física restringida às lides domésticas e a tratar dos filhos e do “home”, o corpo de Maria do Céu tornou-se desinteressante (sem nunca o ter sido) aos olhos de Félix. O casamento pela igreja e a “vergonha” não davam coragem a Félix de deixar a mulher, apesar de ele ter a certeza disso nos festejos do  quarto aniversário. Precisava de uma reviravolta na sua vida!
Um mês depois aconteceu uma reviravolta ao país, através de um golpe de estado, com o objectivo (aparente) de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Félix DA Silva DE Pereira não era muito inteligente, mas não se deixava ir pelas “ondas como os cardumes” e apercebeu-se que o “Democratizar” aconteceu por um triz, visto que alguns (talvez a maioria) capitães de Abril queriam acabar com uma Ditadura de direita e impor outra, tornando Portugal um país satélite da União Soviética; o “Descolonizar” foi apressado, fazendo 500.000 portugueses voltar à metrópole, sem nada e deixando as ex-colónias entregues a facções armadas e a população negra desprotegida; e o “Desenvolver”, através de uma reforma agrária medieval!
- Isto eu não festejo! – Pensou Félix, ainda longe de imaginar o que o país esperava, a nossa “classe política”.
Mas graças ao 25, Félix festejou os dias 26, 29 e 30, datas correspondentes aos seus 3D’s de Abril.
Festeja o “Divertir”, a 26 de Abril. Sem medo junta-se com os amigos na mesa do café ou na rua e expressa as suas opiniões e no fim vai para casa em vez de ser preso…não imaginava que fosse tão animado falar sem ser em surdina e a espreitar por cima do ombro!
A 29 de Abril festeja o “Divorciar”. Foi neste dia de 1974, que chega a casa com os papéis para o divórcio e encontra a mulher de mini-saia, a mostrar as “carnes” e a fumar SG Gigante e com uns papéis de divórcio, também na mão. Foi um espanto para ele…sempre pensou que Maria do Céu fosse feliz, a cozinhar, limpar, a “levar” e a cuidar dos filhos e dele!
No dia 30 terminam os festejos de Abril, com o último “D” de “(en)Dividar”, o maior rasgo de desenvolvimento e modernidade português.
Neste dia de 74, Félix foi ao banco onde trabalho o amigo Tone e pergunta-lhe pelo estado da “conta”.
- Não tens dinheiro…mas também não deves nada a ninguém! – esclarece Tone.
- Está mal! – Responde Félix, continuando – Dá-me um crédito qualquer que me crie dívida.
Ao longo dos anos, Tone deu-lhe créditos para tudo, tornando Félix numa personalidade fiscal falida, mas moderna!

Nos festejos dos quarenta anos dos 3D’s de Félix, este foi obrigado a festejar o “dia da liberdade”, o 25, de cravo na lapela pela PDPC-DGS (Polícia do Politicamente Correcto-…)…mas o “D” de “Democratizar” vai festejar às escondidas desta, ao celebrar os trinta e nove anos do 25 de Novembro de 1975.

sábado, 19 de abril de 2014

Sou melhor que o macaco!

Sempre que o tempo permite, quando não está a chover, apesar de preferir os dias luminosos, e não está muito frio nem vento, apesar de preferir temperaturas amenas e uma brisa refrescante, abdico do carro para fazer uso da capacidade que nos distinguiu dos macacos, o bipedismo, quando os passeios, na ida e volta, não ultrapassam os cinco quilómetros num horizonte temporal de seis horas.
Durante o passeio tenho tempo para apreciar a paisagem que me escapa no dia-a-dia e perceber o sítio a que pertenço, aproveitando tempo só para mim, perdendo-me nos meus pensamentos, isto, quando inadvertidamente acaba a bateria do telemóvel que me desliga do Facebook e não me permite continuar a utilizar outra capacidade que nos distingue dos outros animais, o uso do polegar, para teclar e fazer “posts”.
Nestas caminhadas, por vezes  a caminho de nada, gosto de passar pelo café. Por vezes, como sinal de humildade da nossa espécie, paro num em especial, geralmente cheio e ruidoso. Cadeiras a serem arrastadas, máquina de café sempre a trabalhar, as pessoas despreocupadas, desatentas ao volume da voz, correndo o risco de ouvir uma estória minha, empregados atarefados, alguns sem tempo para um sorriso…recordando-me a algazarra do recreio da Escola Primária, faltando apenas uma bola a correr por entre as mesas, fazendo-nos parecer como todos os outros animais, deixando unicamente para a formiga a capacidade de viver numa sociedade organizada e complexa.
Noutras ocasiões, prefiro um outro café, mais sossegado, que me permite dar uso à inteligência, que me põe a anos- luz à frente dos outros (animais) e saber o que se passa no mundo, lendo os jornais, isto enquanto as poucas pessoas que o frequentam, não libertam a “Caras”, a “TV guia”, que me coloca a par da grelha televisiva, e a “Hola” espanhola.
Geralmente nestes passeios cruzo-me com gente, alguma de quem realmente gosto e me permito conversar, para dar uso á suprema característica que nos distingue do restante reino animal, o raciocínio…isto se não falarmos de futebol, nem de política, nem de algum reallity show e afins, fazendo-nos ser mais irracionais do que um ser unicelular…apesar de fugir do tema “Futebol”, quando encontro um amigo específico de adolescência, cuja capacidade de raciocínio equivale à de uma pedra…não desço tão baixo!
O  trajecto da caminhada, geralmente é o mais rural possível, dentro de uma cidade, para escapar à confusão do trânsito e ao roncar dos carros, prova da capacidade inventiva do Homem, que lhe permitiu viver nos meios mais hostis, enquanto o resto da bicharada teve que se adaptar…ainda só estranho os rasgos de primitivismo na comunicação, com buzinadelas, insultos e expressões amacacadas!
Mas se dúvidas houver desta superioridade, elas dissipam-se no regresso a casa, quando passo por miúdos, ainda em estado ligeiramente primitivo. Brincam na rua, andam de bicicleta, jogam à bola, em vez de estarem enfiados num quarto a provocar um holocausto num jogo de computador, e em vez disso, andam à fisgada à passarada, mostrando a supremacia do Homem sobre o resto dos animais. Entusiasmado, quando o Pantufa, um cão simpático de rua, se aproxima de mim a dar ao rabo, afasto-o com um pontapé – Sou o maior! – penso.

Cheguei a casa, feliz, por ter um cérebro maior do que o do Pantufa e o da passarada, que permite que o ser humana seja o mais inteligente…e o mais Asinino, também, sem desprimor para a raça! 

domingo, 6 de abril de 2014

O papelzinho?!

Margarida, desde há quarenta anos, faz todos os dias úteis o mesmo percurso a pé para o local de trabalho, o Departamento de Licenças das Finanças, e há cinquenta e dois anos que faz o mesmo percurso todos os dias úteis, desde os seis anos, quando foi para escola primária, que ficava cinquenta metros após o edifício onde viria a ser instalado o Departamento de Licenças das Finanças e faz, desde que se recorda, o mesmo percurso todos os fins-de-semana e dias de feriado até ao parque, que fica situado após a antiga escola primária.
De tanta ida e volta, os sapatos rasos de Margarida estão marcados no passeio e todos respeitam estas marcas como se fossem uma passadeira válida apenas para ela. Fora do trabalho acham-na simpática em virtude do sorriso que mantém no vai e vem casa-trabalho, mas preso ao passado, em que recorda o boato transmitido por uma prima, de que um primo do amigo do primo, irmão da prima, estaria apaixonado por ela e com intenções sérias de casar. O casamento nunca chegou a acontecer, porque eles nunca se chegaram a conhecer! Ainda hoje, Margarida diz-se solteira por opção, apesar de ter vivido um grande amor!
Nesta vida aparentemente marcada pelos hábitos, tudo se desmorona à noite no segredo do quarto da casa, desde que a sua mãe faleceu. Debaixo dos cobertores, enquanto dura a reza do terço, Margarida contrai e relaxa os glúteos, mantendo-os em boa forma relativamente ao resto do corpo e permitindo-lhe usar as saias ligeiramente travadas e com folhos abaixo do joelho, estilo atrevido adoptado quando jovem e parolo com o passar dos anos…para a parte de cima, camisa com lenço ao pescoço, coberta sempre por um casaco de malha.
Sendo chefe da secção de atribuição de licenças, Margarida está sempre atenta às conversas dos seus colaboradores com os empreiteiros. Sempre que uma licença está prestes a ser atribuída, ela levanta-se da secretária, aproxima-se e pergunta – E o papelzinho? Já tem o papelzinho?!
Esta pergunta maldita para os promotores imobiliários, é o “click” para, atarefados, mexerem em toda a papelada que trazem na pasta. Depois de vasculharem impressos, selos e certificados, o papelzinho nunca é encontrado e a licença não é atribuída.
Quase não há construções novas na terra de Margarida desde 1970 e as poucas que foram realizadas, foi à custa de licenças atribuídas em período de doença ou de férias desta, atribuídas pela sua substituta. Sentindo-se desautorizada, quando regressava após a doença ou das férias, quase sempre passadas nas termas, tratava de as embargar.
Naquele dia, quando passa pela obra do Centro Comercial, licenciado durante uma gripe, mas devidamente embargada e com inauguração marcada para dali a duas semanas, cai num buraco e bate com a cabeça num tijolo.
Quando recupera os sentidos, levanta-se, olha para si, tem a saia composta mas o casaco está rasgado no braço – Ainda tenho umas cotoveleiras lá em casa! – pensa. Levanta a cabeça, olha à sua volta e – Uuiiii!!! – exclama.
Por todos os lados deserto, muito próximo, milhares de homens mal vestidos são chicoteados enquanto puxam pesadas pedras. Olha para a sua direita e abismada, Margarida vê uma construção a tomar forma de uma pirâmide e em frente, um homem aos berros – Deve ser este o empreiteiro! – pensou.
- Ó senhor. – chamou num tom bem audível.
O homem de trajes estranhos e tez muito morena aproxima-se.
- A licença para esta obra? – pergunta.
- Licença?! Eu fui mandado fazer esta pirâmide.
- Por quem? – pergunta Margarida, começando a perder a paciência.
- Pelo meu Amo, o Grande Tutankhamon!
Incomodada, Margarida manda chamar o Faraó e pede-lhe o papelzinho da obra. Perante a inexistência de papelzinho, Margarida embarga a obra e fiscaliza outras em curso: estátuas gigantes com corpo de gato e rosto humano, sete templos e quatro fortificações. Perante a ilegalidade, todas as obras ficaram suspensas.

Actualmente nas aulas de História fala-se de uma civilização antiga, que antes de atingir o seu apogeu, caiu em desgraça por falta do “papelzinho”!

domingo, 30 de março de 2014

A seis meses da reforma.

A sessão de cinema ainda nem a meio tinha chegado e António Neves já suspirava de tédio. Quando aparece a cena em que a personagem principal se reforma aos sessenta e seis anos ele desiste e tenta dormir.
Ao primeiro ronco, sente um cotovelo a bater-lhe, acompanhado de uma voz:
- Acorda vozinho! Estás a fazer barulho!
Sobressaltado, António Neves acorda, e meio perdido exclama – Ah, ah, o quê? – e apercebe-se do sítio onde está. Foca-se novamente no ecran e vê outra cena, desta vez da personagem secundária a ser reformada condignamente aos sessenta e seis anos - “Poça, estou farto disto!” – pensa. Depois, baixinho diz:
- Rapazes, espero por vós lá fora.
Quase uma hora depois, no pano branco aparece a palavra “Fim”, acendem-se as luzes e as pessoas começam a abandonar a sala. Toninho e Nuninho deixam-se estar sentados e são os últimos a sair. Dirigem-se para António Neves, o bisavô, que esperava no exterior do “Cine-teatro Alves da Cunha”.
- Então vozinho, não estavas a gostar do filme?
- Não, rapazes! Nunca gostei de filmes de ficção científica. Se fosse uma cowboyada…isso é que eu gosto!
- Não gosto! – respondem os bisnetos ao mesmo tempo.
- Ah, isso sim, são filmes! Aqueles índios e cowboys na Assembleia da República aos tiros uns aos outros…! – e é interrompido por espasmos, sintoma de uma doença grave e galopante, detectada há pouco tempo.

No país de António Neves, que ainda não é Portugal (mas por pouco tempo, digo eu), as pessoas reformam-se automaticamente, quando morrem, a título póstumo. Mas quando a morte é repentina, sem causa aparente, por suicídio ou provocada por acidente automóvel em que o falecido é culpado, se não for devidamente justificada, a reforma para o defunto é posta em causa e faz todo o sentido…há por aí muito “chico-esperto” a “falecer-se” de forma danosa para o Estado!
Quanto a António Neves, oitenta e nove anos e viúvo há dois, altura em que a esposa se reformou, sempre foi cumpridor naquilo que são as suas obrigações, para assegurar uma morte confortável e sossegada. Como a sorte, mais tarde ou mais cedo, bate à porta dos correctos, a António Neves, foi diagnosticada uma doença rara que lhe dava mais seis meses de vida.
Foi uma alegria lá em casa, quando António Neves, mais para lá do que para cá, anuncia entusiasmado aos filhos, netos e bisnetos:
- Vou morreeeeer!
- Quando? – perguntam alguns.
- Daqui a seis meses no máximo. – responde o patriarca da família Neves.
- Que bom, pai! – comenta o filho mais velho – Seis meses dá para tratar da reforma com calma.
Com a serenidade devida, que os seis meses lhe proporcionavam, António Neves tratou de toda a papelada e selos necessários. Na última ida à Segurança Social, vindo de uma consulta no Hospital, depois de um dia de trabalho, ficou acertada com a senhora que o atendeu a data do seu falecimento…seria entre o dia 05 e 28 de Maio. Antes de sair do balcão, António Neves ouve as últimas palavras da funcionária:
-…e se ao fim de cinco dias úteis após o seu falecimento, não receber o papelzinho da Segurança Social, passe por cá.
- Muito bem! – responde simpático, António Neves, apesar da debilidade física.

No dia 15 de Maio, António Neves falece, Nuninho e Toninho comentam entre si – Ainda bem, o vozinho já merecia a reforma. Foram setenta e oito anos a trabalhar!
Passados cinco dias úteis, ao caixão não chega nenhum papelzinho, mas ao sexto, António Neves é enviado para o Céu. Quando se apercebe onde está, pensa – “Aqui não devo precisar de nada, dizem que é o Paraíso, que se lixe o dinheiro da reforma!”. Mal termina este pensamento é abordado por um santo, que enquanto lhe entrega um uniforme, explica-lhe:
- Sabe Sr António, aqui o senhor vai ter que continuar a trabalhar por mais dois anos. O Altíssimo não soube governar o Céu e estamos debaixo de um resgate, encabeçado pelo Diabo!
- O quê, depois de morto vou ter que continuar a trabalhar?! – questiona António Neves, completamente aparvalhado.
- Pois é, isto aqui está infestado de Querubins e Serafins! Enquanto o Senhor não fizer a reforma do Céu, nós, os anjinhos, vamos continuar a trabalhar!

Cá em baixo, no país que foi de António Neves, a sua família continua a trabalhar feliz e a pensar que quando morrerem vão poder reformar-se!