domingo, 14 de dezembro de 2014

Significantes e significados

Deus, para quem acreditar, fez quase tudo perfeito.
Significante, na sua criação, foi a capacidade de comunicação que deu aos bichinhos, incluindo a Nós, por meio das formas mais simples e básicas como o latir, o miar, o rugir, …, que associadas às reacções dos animais que os emitem, transmitem uma mensagem clara.
O latir insistente do Romeu,
(o meu cão)
quando me vê, movimentando-se de um lado para o outro, nunca na sua vida de canídeo poderá significar outra coisa senão, “Leva-me a passear”, como de igual forma, o latir da Maria,
(a minha cadela, que não se chama Julieta, porque já era o nome da minha gata, antes da chegada da Maria)
sempre bem disposta, quando abre as goelas, afastando o Romeu, significa “Faz-me festinhas...só a mim”, na tentativa de açambarcar todas as atenções só para ela.
Quando ouço um miar esganiçado, associado a um objecto a cair, não tenho dúvidas de que é a Clarinha,
(a outra minha gata)
assustada e a fugir do José António,
(o meu gato)
meiguinho e que não faz mal a uma mosca.
Tudo seria claro no mundo, se não fosse a derradeira distracção de Deus, para quem acreditar, ao criar aquilo que seria a sua “Master Piece”, a Mulher.
Algo faltou nesse ser fantástico, para quem 1+1, geralmente é dois, mas só para chatear, poderá não ser…
Se a Mulher, às vezes,
(muitas vezes)
diz o que não está a pensar, ou pensa o que não está a dizer, espera que o Homem no seu pleno amor adivinhe o que realmente quer… tarefa ingrata para quem 1+1, é sempre igual a 2… sempre… mas mesmo sempre.
Mas se as discordâncias do que a mulher diz e quer dizer, causam transtornos graves apenas ao seu homem, há uma outra espécie, que causa transtornos gravíssimos a toda uma população, como se tem visto no nosso país ao longo das últimas décadas - o Político, que tem um dicionário de significados muito próprios…e não quero crer que tenha sido criação de Deus, para quem acreditar.
Se o Chico, que é um espertalhão, quando mente é chamado de mentiroso, o Político, no parlamento, quando mente com quantos dentes tem, é acusado de estar a dizer “Inverdades”.
Se o Chico, que é um espertalhão, torna a mentir dizendo que estava no café Central, e o Quim diz que o viu no café Papoila, o Chico continua a ser um grande mentiroso. O Político, quando investigado, nunca mente quando ao sítio onde esteve, pode no máximo cometer uma “Incorrecção factual”.
Esta espécie também manifesta comportamentos divinos.
Se o Chico, espertalhão, quando apanha muito sol na moleirinha, desmaia, por isso a sua mãe, em criança, nunca o deixava sair para a rua sem o chapéu, o nosso Presidente da República, aquando das comemorações do 10 de Junho teve uma reacção, que no caso do Chico seria o desmaio, aqui chamou-se de “Reacção Vagal”…e passei a acreditar em Deus!
Mas a culpa é do Empreiteiro…. E é por isso que o Político antecipa todas as promessas. Se o Empreiteiro nunca cumpre um prazo, atrasando e derrapando as obras, a promessa do Político de nunca aumentar impostos, significa, “No próximo mês, temos uma taxa roxa”, e quando a promessa é de aumento só para o ano, significa, “Amanhã temos nova taxa colorida”.

No meio de tanta “Inverdade”, só espero não levar com a taxa lilás! 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O que realmente importa.

Ébola, crise na Ucrânia, o eterno Médio-oriente, EUA, a Mãe Rússia, China,…, notícias que se vão alternando, ou por moda, como o caso das epidemias, nunca “démodé” e sempre boas, como as castanhas quentinhas, pelo alarme que causam, ou, quando o vazio é total, para quem vive das notícias, tem sempre o Mundo Árabe e Israel. Para completar a animação nas redacções, há sempre quem dê uma facada a alguém!
Tudo o que nos é dado a conhecer pelos jornais e pelas televisões, servem para, à noite, alimentar discussões indignadas nas redes sociais, podendo chegar ao insulto, se formos suficientemente interessantes para tal!
Um bom amigo diz-me que nunca se desliga do “Facebook”, com medo de perder o encanto!
Mas nós, aqui no nosso cantinho, desgastamos-nos bastante com aquilo que não podemos mudar e que se passa a milhares de quilómetros de distância, quando ao nosso lado há quem passe fome e privações… mas isto não tem dimensão para discussões que nos façam interessantes aos olhos dos outros!
Apesar da proximidade de quem mora na nossa rua e tem privações que podemos minorar, o que realmente nos interessa e nos preocupa, também não é isto!
Ninguém acorda de manhã a sufocar porque um negro está infectado com ébola em África, nem pesaroso porque o vizinho não tem o que comer ao pequeno almoço… preocupa-nos a proximidade do que nos pode afectar…a Legionella e o ar condicionado no trabalho.
Não sentimos crescer um “galo” na cabeça, porque um Árabe acertou com uma pedra num israelita, mas dá-nos dor de cabeça as filas de trânsito no caminho para o trabalho… queremos lá saber da perseguição feroz da Mãe Rússia a determinados grupos, quando em casa temos a mulher na semana do periodo, na bomba de gasolina ninguém pensa que a China e os EUA, são os maiores poluidores, mas sim que há uns anos atrás enchíamos o depósito por metade do dinheiro…
O que nos preocupa é a nossa vida…ou vidinha, e de todos os males, ou sofro o maior…uma lesão! Onde? Na coxa. Implicações? Não posso jogar à bola.
Foi há seis semanas atrás, no habitual jogo de domingo. O adversário na pequena-área chuta para golo, têm os braços levantados e largos sorrisos antes de a bola passar a linha de golo, eu estico a perna, mesmo sabendo que não conseguiria fazer o “corte”, mas iria impressionar pelo esforço, e sem querer, o meu pé de apoio escorrega, e sem nunca na vida o ter conseguido, faço a espargata, “corto” a bola sem querer, o adversário baixa os braços, perde o sorriso e a minha equipa inicia o contra-ataque.

Fiquei deitado no chão, alheio a todos os sofrimentos do mundo, sem saber como sair daquela posição, onde nunca me tinha visto, e a desejar, não paz para o mundo, mas conseguir recuperar para o próximo jogo!

domingo, 30 de novembro de 2014

Anuidade.

- Quero uma cerveja!
Foi o pedido daquela figura alta, magra e de óculos escuros, que mesmo com os olhos escondidos senti que sorriam.
Eu estava sentado ao lado, ambos ao balcão do café.
- O amigo gosta de cerveja! – digo-lhe, como que querendo descobrir aquela personagem, que nunca vi no café.
- Muito – responde-me.
- Pago-lhe outra. – disse-lhe e de braço em riste virei-me para quem atendia - Menina, mais duas cervejas.
- Não, não. – reponde-me pronto a pessoa, baixando-me o braço.
Saca de agenda, já de 2015, e aponta algo no mês de Novembro.
- Zé, eu sou o Zé! – apresento-me - E o amigo?
- Eu hoje sou o António e volto a sê-lo no dia 30 de Novembro de 2015. Se por acaso amanhã me encontrar, teremos o mesmo nome! Amanhã sou o Zé.
Intrigado, quis saber ainda mais sobre aquela figura caída do céu.
- E então, mora por cá?
- Sim, já há três anos.
Depois de devidamente explicado, fiquei a saber que o António é meu vizinho. Mora em frente a mim, onde dorme uma vez por ano. Fiquei a saber, também, que gosta de andar de bicicleta e de jogar futebol…tal como eu!
- Logo quer vir jogar à bola? Falta-nos um. – convido-o, como forma de o integrar no meio.
- Aaah, que pena! Gostava, mas já joguei hoje de manhã.
- Aaah! Então conhece gente aqui! – constato, com alguma alegria.
- Sim, sim, e costumo estar com eles…no dia 30 de Novembro de todos os anos, da parte da manhã, para jogar à bola, e no primeiro sábado de Setembro, para um passeio de bicicleta, que dura o dia todo…até me farto de os ver!
- E como é que eles te conhecem?
- Na bola, por António, no passeio de bicicleta, por Fredo.
Num instante a expressão serena de (neste dia) António, esfria.
- Passa-se alguma coisa, amigo? – pergunto.
- Aquele ali! - com o dedo a apontar para o exterior do café, onde passava o tipo dos seguros, e prosseguiu – Encontrei hoje uma carta, colocada por baixo da minha porta a informar que vou estar isento do pagamento anual do seguro do carro, por dois anos…não tenho acidentes, dizem que é um bónus! Pudera, eu só pego no carro uma vez por ano. Tinha uma vida preenchida, com acontecimentos anuais todos os dias, agora fico sem ter o que fazer no dia 29 de Agosto!
- Mas o que faz nesse dia, António? – pergunto.
- Para começar, nesse dia sou o Mendes. Pagava o seguro!
Neste momento senti o António perdido.
- Ó António, só se quiser combinar para esse dia uma cervejinha…aqui no café!
- Não pode ser, já venho aqui neste dia. Pode ser um pingo, no café ao lado?
- Está combinado!
- E nesse dia sou o Mendes. Não se esqueça!
A conversa foi-se desbobinando, estranhamente, de forma natural e nesta figura de hábitos peculiares invejei o facto de a sua mulher fazer-lhe todas as noite bacalhau.
- E não se enjoa?
- Não! - respondeu-me. – conheci-a no dia 1 de Dezembro de 2011, da parte da manhã e namoramos da parte da parte e logo aí combinamos casamento para o ano seguinte. Foi no dia…
- …1 de Dezembro de 2012! – completei.
- Esteve lá?
- Não! Foi um palpite. Continue.
- E desde que casei, sempre que estou com ela faz-me bacalhau. Já comi duas vezes…amanhã é a terceira! – e sorri. - Estou ansioso por estar com ela. Viram-na e disseram-me que ela está grávida de quatro meses…vou ser pai!
- Parabéns! – disse-lhe, sem estar convicto das minhas palavras.


Despedimos-nos e no telemóvel registei o dia 29 de Agosto.

domingo, 23 de novembro de 2014

O Mundo ao contrário

Aquele final de tarde foi o “abrir de olhos” de uma realidade que eu não queria ver. Os últimos tempos tinham sido de exageros e descuidos aos quais tinha que pôr fim.
Após ouvir na rádio que meia dúzia de políticos, promotores imobiliários e banqueiros tinham-se entregue no posto de polícia mais próximo, eu decidi parar no primeiro consultório médico por onde passa-se.

- O que vem cá fazer? – perguntou-me o médico.
Contei-lhe a última noite, passada entre amigos abstémios, numa festa de arromba na margem do rio, que desagua no monte, e onde bem perto três pescadores atiravam peixes para a água. Comi um peixe grelhado e duas sopas sem sal, acompanhados por água, a meio da noite virei-me para os digestivos, passando a beber águas com gás e terminando com chá! Deitei-me cedo…antes da meia-noite! Como é óbvio, acordei bem disposto.

Depois da explicação o médico mandou-me fazer análises.

Uma semana depois, no consultório, assustava-me a cara do médico enquanto olhava para os resultados.
- Então, Sr Doutor?!
- Meu amigo, as suas análises estão óptimas! Todos os valores estão correctos. É urgente mudar de hábitos. Anda no ginásio?
- Sim! – respondo.
- Pois! Mas convém parar.
Em vez do ginásio, aconselhou-me um pasteleiro, para fazer uma avaliaçao física. Além disto receitou-me fritos, doze em doze horas, a meio das manhãs um bolo com creme ou uma bola de carne e a meio das tardes um gelado de chocolate ou uma torta de noz. Doze em doze horas Whiskovirax e bagaced, sempre em jejum.
- Isso são comprimidos ou xaropes? – pergunto.
- Amigo, são garrafas e toma-se ao copo. E para não ser muito dura a dieta, ao fim de semana pode ter um miminho, no sábado ou no domingo pode-se lambusar numa pescada cozida.

Saí do consultório directo para a pastelaria “Ricochete” e pelo caminho passei no supermercado para aviar a receita.
Chegado à “Ricochete”, sou atendido pelo PT (pasteleiro trainer), um verdadeiro “pipo”.
- Com que então, corpinho em “V”! – diz-me – Vamos transformá-lo em “B”.
Começamos com um “Teste de Cooper”, para avaliar quantas bolas de berlim conseguia comer em doze minutos – Fraquinho – diz-me o PT, passado o tempo da prova.
Delineou-me um plano de treinos:
20 minutos de aquecimento, sentado na mesa 1 a comer torradas lambusadas em manteiga saturada; depois passo para a mesa 3 e faço três séries a comer natas (8 natas por série), depois salto para a mesa 7, para um “Drop set” a comer biscoitos caseiros. No fim, 20 minutos de cárdio, sentado na esplanada a fumar.
Cumpri este plano durante um mês, três vezes por semana, ao fim do qual fiz novas análises.

Na expressão do médico, adivinhava um sorriso que não se mostrava.
- Está no bom caminho, amigo! Já tem os triglicerídeos e os …, todos errados! Com calma e paciência o amigo fica um obeso mórbido e, com um bocadinho de esforço, disciplina e alguma sorte, ainda morre, antes do tempo, de ataque do coração!

Saí do consultório feliz com as novidades para contar à minha mulher. Quando toco à campainha de casa, o PT abre a porta e diz-me - Olá, meu amor!!!

domingo, 16 de novembro de 2014

Guião

Em virtude de uma ruptura muscular, há 4 semanas atrás, que me afastou das futeboladas com os amigos, comecei ontem a ser acompanhado por um psicólogo, que me disse, “Faça outras coisas.”…e fiz!
(a parte da lesão, contarei em pormenor noutro texto)
Tinha em “carteira” um guião escrito há já algum tempo e comecei a realizá-lo.
Depois de guionista, sou agora realizador e actor…e os meus amigos também, todos nós num total amadorismo, em que cada um faz de si próprio com interpretações soberbas. Como exemplo, foi excelente filmar o Miguel, a fazer de si próprio, a dormir, numa interpretação “oscariana”!
Data para o fim da filmagem não há. Se dependesse da minha vontade, seria rápido, mas esta nem sempre se concilia com a minha disponibilidade e da dos meus amigos actores. Como tal, será quando for e no final todos serão avisados.

Deixo-vos o início da estória, em “linguagem” de guião.

A vida de Gusto (igual à de quase todos)

INT. – CASA
Na sala, vê-se o aquário, a imagem vai rodando à volta dele e vê-se GUSTO, 40 anos e bem parecido, sentado, a contemplar os peixes. A imagem fica focada em Gusto, nostalgicamente triste e a cena seguinte é o regresso aos tempos de adolescente.

EXT. - ESPLANADA

Um adolescente sentado numa mesa de esplanada com uma chávena de café vazia à sua frente. ELA, bonita e morena, com grande carrapito lilás, chega, coloca-lhe a mão na cabeça, debruça-se sobre ele, aproxima a cara e dá-lhe um beijo.

MARIA
Olá Gusto! Tudo bem? Desculpa o atrazosito! Chegaste há pouco?

Ele olha para o relógio de pulso, volta a olhar para ela, que entretanto se sentou.

GUSTO
Olá Maria! Não, não, cheguei há pouco mais de uma hora e meia!

MARIA
(sorri)
Despachei-me só para estar contigo!

Aproxima-se o empregado do café

EMPREGADO
Vai desejar alguma coisa?

MARIA
Hummmmm, talvez um Frisumo de Ananás.

Após um compasso de espera.

EMPREGADO
Então? Talvez sim ou talvez não?

MARIA
(decidida)
Tenho a certeza que é um talvez sim!

O empregado afasta-se e Gusto e Maria, sentados, viram-se um para o outro. Ela com os braços pousados em cima da mesa, dona e senhora da situação, ele com os braços para baixo e as mãos debaixo da mesa, para esconder o nervossismo.

Depois de um compasso de espera.

GUSTO
Estás bonita!

MARIA
Obrigada!
(pausa breve)
Não notas nada de diferente?

GUSTO
Aonde?

MARIA
Em mim, meu lindo!

E encolhe os ombros, um pouco envergonhada pelo elogio feito ao Gusto.

Entretanto o empregado pousa a bebida em cima da mesa.

Após ouvir esta pergunta, feita ao ínício da tarde, ele não via nada de diferente nela, apesar do carrapito lilás, coisa que não tinha no dia anterior, quando se encontraram no mesmo sítio.

Maria fica a olhar para o Gusto, enquanto ele a fita de diversos ângulos sem ver nada de diferente.

GUSTO
Vou só à casa de banho. Quando tenho vontade de fazer chichi, fico muito distraído!

Ela sorri.

Ele levanta-se e vai directo ao empregado que também os serviu no dia anterior.

GUSTO
Ó senhor, desculpe! Eu ontem estive aqui com aquela minha amiga…

EMPREGADO
Sim, eu lembro-me!

GUSTO
Nota alguma coisa diferente nela?

O empregado desvia o olhar em direcção da mesa e após breve contemplação:

EMPREGADO
Não! Não vejo nada de diferente na menina!

Gusto regressa à mesa e senta-se.

MARIA
E então?

Gusto, com uma expressão desconfortável fica a olhar para a Maria. Olha para o relógio. A imagem fixa o relógio que marca 15h07m.

VOICE OVER
Há algo que o homem durante o seu crescimento não desenvolve, algo para o qual nem a sua mãe, no seu pleno amor, o preparou.

MARIA
E então?

O tempo passava e a tensão aumentava. Gusto olhava para a Maria sem vislumbrar nada de diferente na sua quase namorada. Olha para o relógio. A imagem fixa o relógio que marca 19h30m. A imagem volta ao casal na mesa. Ele arrisca responder com sinceridade, esboçando um sorriso tímido.

GUSTO
Não! Não vejo nada de diferente!

Perante a resposta, Maria, mexe no carrapito lilás meia dúzia de vezes, que fez antes do encontro, e em vez de acabar o namoro, diz baixinho com os dentes cerrados, fruto de uma raiva imensa.

MARIA
Ai não notas nada de diferente?! Havemos de casar e tu vais sofrer.

Câmara fixa Gusto que diz baixinho, para si mesmo:

GUSTO
Ela vai acabar o namoro!


LEGENDA – QUINZE ANOS MAIS TARDE

INT. – QUARTO

Gusto e Maria deitados na cama a dormir. Não falta muito para o despertador tocar.

domingo, 9 de novembro de 2014

O ritmo do tempo e o preço da idade

Quando olho para o meu álbum de fotografias, se começar a abri-lo pelo ínicio, pois tenho o hábito de abrir o jornal “O Jogo” pelo fim, encontro duas fotografias com três meses, seguidas de outras duas já com seis.
Convém recordar que tenho quarenta anos e que no ano de 1974 ter nos primeiros seis meses de vida quatro fotografias era uma extravagância e havia quem dissesse que me estavam a estragar com mimos!
Não me recordo de com três meses desejar ter seis, mas lembro-me perfeitamente de em criança os ponteiros pararem e o tempo não passar, e de um dia dos meus seis anos ter a duração de três dias dos meus quarenta.
Na primária, o tempo chegou a arrastar-se para trás, fruto de uma paixão correspondida, e sentia que o dia de casar com a Carlinha (sim, ela prometeu-me casamento a meio da 1ª classe) estava à distância do “além”, numa altura em que tudo o que era para amanhã era sempre distante demais!
Impaciente, aos treze anos queria ter dezasseis para parecer crescido (!) e aos dezasseis queria ter dezoito para ter a carta. Nunca estava bem com a idade que tinha, mas lembro-me de pensar “ No ano dois mil vou ter vinte e seis anos. Que velho!”
Não me senti velho quando lá cheguei, coabitando o mesmo espaço com os adolescentes, mas diferente deles no ritmo e também nas lamurias, uns praguejando porque o tempo não passava e eu a dar por mim a dizer “O tempo corre!”
E correu até aos trinta!
E aos trinta lembrei-me dos meus dezassete. E dos meus dezassete lembrei-me de um certo sábado à tarde, em que encontrei um amigo destroçado, a quem delicadamente perguntei:
- Estás todo lixado, Fernando! O que se passa?
- Faço trinta anos. - respondeu-me.
Com carinho consolo-o:
- Deixa lá, eu tenho dezassete!
E ele chorou e virou costas e foi-se embora e nunca mais me falou. Senti que ele trocava a idade que tinha pela minha.
Sugestionado por esse acontecimento treze anos antes, passei o dia 26 de Dezembro de 2003 ao lado de um desfibrilhador e acompanhado por um amigo psicólogo. Quando batem na torre da igreja as vinte e duas, hora em que nasci e marcou a minha entrada nos “trinta”, nada aconteceu! Um momento antes tinha vinte e nove no momento seguinte trinta. Nem uma depressão, nem nenhuma quebra física. O coração batia normalmente e nem uma mísera cãibra senti a denunciar o peso da idade! Que seca! Nada de extraordinário para relatar a não ser o facto de ter passado a noite a ouvir os desabafos do meu amigo psicólogo a sofrer de mal de amor e, ao contrário do Fernando, não trocar o actual número por outro abaixo.
Espirrei e sem dar conta fiz quarenta. Agora, a dois meses de fazer quarenta e um, o meu irmão fez trinta e oito e chamei-o de “velho”… ele sorriu. O sorriso era acompanhado de um pensamento, ao qual respondi “Rejuvenesce-se a partir dos quarenta! Vais ter de esperar mais dois anos.”

Nunca mais soube do Fernando e o meu amigo psicólogo, sempre que pode, passa por minha casa para desabafar e, por enquanto, continuo a não trocar o meu número actual pelo anterior!

domingo, 1 de junho de 2014

Manicómio.

Se a maior parte das estórias que ouvia em pequeno, começavam por “Era uma vez…”,as minhas crónicas, ou sejam lá o que for, começam muitas vezes por “Acordei com o sol a entrar pela janela…”.

Sendo assim, esta manhã fui acordado com o sol a entrar pela janela. Quando me apercebi de que não estava no domínio do sonho, pinchei da cama para sair para a rua, pois à tarde poderia perfeitamente nevar, chover torrencialmente, trovejar ou acontecer o maior ciclone alguma vez sentido no Paranho.
Na caminhada até à esplanada do café, ao sentir os raios de sol, estava longe de imaginar que iria viver um pesadelo.
Sentei-me, pedi um café e abri o livro que levei comigo (e escrito por mim), não que o quisesse ler, mas para torná-lo visível.
Tinha o “Venceslau e outras histórias” aberto na página 47 e a cabeça a começar a tombar, tomada pela sonolência, quando ouço, de forma estridente, perguntarem-me:
- Queres jogar matraquilhos?
Abro os olhos, o livro mantém-se aberto na mesma página, e em frente a mim está sentado um “tipo”, que nunca tinha visto. Apesar das minhas tardes de domingo, quando era pré-adolescente, serem passadas na “matraquilhada”, respondi:
- Não!
Imediatamente, ele desapareceu.
A esplanada estava composta, mas sem nenhum espécime feminino que me mantivesse de olhos abertos, e eles começam novamente a fechar, quando sou sobressaltado com um berro:
- ESTOU A SENTIR-ME ENTUSIASMADA! – diz a Maria, enquanto atravessa a esplanada.
O Sr. Mendes, sentado duas mesas ao lado da minha, grita-lhe:
- Ainda bem!
Depois disto a normalidade voltou aquele espaço, mas por pouco tempo. Os meus olhos ainda não estavam totalmente fechados e ouço, em gritaria, a Carla dizer, do canto da esplanada:
- SOU MUITO FELIZ! E QUEM É FELIZ NÃO TEM QUE ANUNCIAR AO MUNDO!
Entre as várias pessoas sentadas na esplanada, ouve-se:
- Boa!
- Porreiro!
- Gosto!
- Estou contigo!
- Gosto!
- Gosto!
- …
Sem estar a perceber este espectáculo, ouço:
- Queres jogar matraquilhos?
Poça, era o mesmo gajo, com o mesmo convite.
- Não! – respondo de forma seca.
Mantenho-me desperto à espera que a normalidade se reponha. Ao fim de algum tempo, com segurança deixo-me adormecer na cadeira da esplanada, com o livro aberto. Ao fim de não sei quanto tempo sinto as minhas mão a abanar. Acordo, a babar-me,  e a minha amiga Teresa estava a escrever, com marcador, na página 47 do livro, “gosto”!
- Oh, estragaste-me o livro! – digo.
- Estraguei nada! Até logo! – despede-se.
Continuo sentado a olhar para todos os lados e a começar a ficar assustado, e:
- Queres jogar matraquilhos? – diz-me o mesmo gajo.
- Desaparece! – ordeno-lhe.
Enquanto desaparecia, a olhar para trás, volta-me a perguntar – E bilhar? Queres jogar bilhar?
Não percebia a insistência daquele gajo, em jogar qualquer coisa comigo!
Bem, apercebi-me que não iria conseguir relaxar (dormitar) na esplanada e para me manter activo, desfolho uma página do livro. Ajeito-me na cadeira para ficar em posição de “galo” e vejo a Ana, ao estacionar o carro, a bater no carro da frente e no detrás. Despreocupada com os outros condutores, sai do carro, aproxima-se da esplanada e berra:
- OHHHH, QUE CHATICE! E A MANHÃ QUE ESTAVA A CORRER TÃO BEM! LOL, LOL, LOL, LOL…
E todos se riam na esplanada, com o comentário da Ana, e por trás de mim ouço alguém a dizer-me ao ouvido:
- Queres jogar bilhar?
Desvairado, levanto-me e agarro o gajo pelos colarinhos e ameaço-o:
- Se me voltas a convidar para jogar seja ao que for, parto-te todo. Percebes?
- E matraquilhos? – pergunta-me e foge a sete pés.
Pego no meu livro, caído no chão, volto a sentar-me e abro-o à toa. Ficou aberto entre as páginas 98 e 99 e ao tentar disfarçar que o lia, quase que adormecia outra vez, até que…
- HEI, MALTA – era o João, que tinha chegado a correr – APANHEI O MEU CÃO A ROÇAR-SE NUM LIMOEIRO!
O Neves, sentado no meio da esplanada, ri-se, vai para o carro e percorre as ruas da Trofa com a cabeça de fora, gritando e partilhando com todos:
- O JOÃO APANHOU O CÃO DELE A ROÇAR-SE NUM LIMOEIRO! O JOÃO APANHOU O CÃO DELE A ROÇAR-SE NUM LIMOEIRO! O JOÃO APANHOU O CÃO DELE A ROÇAR-SE NUM LIMOEIRO!...

Sentido-me num manicómio, em que o que mais me chateou foi o gajo a convidar-me para jogar matraquilhos e bilhar, fui para casa, dormir…na esperança de sonhar com um mundo normal!

P.S. – Durante algum tempo, este blogue vai hibernar, com a promessa de um regresso!

P.S. (2) – O regresso pode ser já na próxima semana! Não sei se conseguirei viver sem o protagonismo internacional que o “Escrita com Norte” me dá!