domingo, 18 de janeiro de 2015

Je suis Anjinho

Bem cedo, antes das oito da manhã, saio de casa. Destino, o costumeiro de segunda a sexta, o local de trabalho. Antes disso alguns procedimentos e  reacções habituais sucedem-se, começando pelo tocar do despertador, de seguida odeio-o por isso durante breves segundos, mas sem nunca me passar pela cabeça “desfazê-lo”, apenas por não me agradar, levanto-me e tomo o pequeno almoço. Até aqui, tudo dentro da legalidade, até ao momento em que saio de casa… continuo com o velho hábito conservador de trancar a porta e manter a minha casa protegida!
Como ando “desalinhado” da corrente imposta do “Tens Mais de Seis Anos Mas Tens Que Continuar a Acreditar no Pai Natal”, estou identificado pela PPC (Polícia do Politicamente Correcto), como prevaricador e tenho um agente à porta de casa a vigiar-me, como se deviam vigiar terroristas, a obrigar-me a cumprir a lei…ou seja, deixar a porta aberta, com consequências severas, mas só para mim, cidadão comum!
Ao final da tarde, no regresso a casa, ao passar junto da estação dos comboios, vejo um grupo de cidadãos romenos, adultos e crianças, daqueles que “trabalham” e lutam por uma vida melhor, mendigando e roubando, passando esse saber secular aos mais novos. Apesar de tudo, o meu sentimento “Tuga” de anjinho e de comiseração pelos desgraçados, fez-me soltar um condescendente, “Coitadinhos!”.
Chego a casa, estaciono, saio do carro e o agente da PPC olha-me como se olha para um malandro. Para não deixar dúvidas levanto o braço onde tenho um saco com algumas compras e digo-lhe, a medo, “Paguei tudo!”.
A única coisa boa de sair de casa e deixar a porta aberta é que quando chego não tenho trabalho a abri-la…nem os outros.
Entro e pouso as compras na cozinha. Vou para a sala e encontro um grupo, homem, mulher e crianças, todos morenos e feições bem diferentes das dos “meus”. O “à vontade” do grupo era tão grande, numa casa que não era a deles, que pensei que era a família do meu primo José Alberto, que ficam todos muito morenos no Verão. Perspicaz como sempre sou, para tirar dúvidas, disse – Ó José Alberto, tira os pés todos sujos de cima do sofá!
Perante a falta de resposta, noutro golpe de perspicácia, pensei, “Este não é o meu primo. E aquela mulher e as meninas, com lenço na cabeça, não são a mulher e as filhas!”
Nos tempos em que trancava a porta de casa, só lá entrava quem eu convidava e havia regras, em que eu tinha o dever de ser hospitaleiro e o convidado tinha que respeitar três regras básicas - não alterar a decoração de casa, não parti-la e respeitar quem lá vive…de resto, toda a diversidade era bem-vinda.
Ainda com alguns resquícios desses tempos, em que o meu sobrinho dentro de minha casa tirava o chapéu, pedi à senhora e ás meninas que tirassem o lenço. Gritaram coisas que não percebia e o homem atirou-me um bibelot, muito bonito, que tinha comprado no dia anterior, que só não me acertou na cabeça, graças à minha boa esquiva.
Saí de casa e contei o sucedido ao agente da PPC, que me respondeu – Claro, você insultou-o! Merecia era levar com uma pedra no meio da testa. A sua sorte é que são boa gente!
Regressei para dentro e com o passar do tempo sentia-me cada vez mais um estranho em minha casa. Os meus amigos deixaram de aparecer, primeiro aqueles que gostavam de falar livremente e com o tempo, todos os outros, não aguentando a aplicação da sharia (em minha casa) impondo comportamentos medievais e o tratamento subalterno dado ás mulheres da família lá instalada.
Queimaram os meus livros, partiram a televisão e o meu rádio, coisas do diabo! Agora passo o tempo a observá-los e a trabalhar para lhes dar de comer…é a vida!
A mulher deu novamente à luz, um rapaz, a alegria suprema do pai, já que as filhas eram peças acessórias usadas apenas para o servir! O agente da PPC, apressou-se a dizer que como a criança nasceu em minha casa, a minha casa ia passar a ser dela também.
- Vai ser educada por mim, segundo os Direitos Humanos Universais? – pergunto, para me certificar que a criança iria ter uma educação que validasse o sentimento de pertença ao sítio onde nasceu.
- Nem pensar, é árabe e muçulmano e vai ser educado de forma intolerante, como se vivesse na “casa” dos pais dele! – responde o agente.
Desgastado, vou para a varanda ver quem passa e avisto um amigo de infância, o Alain, que saúdo, com uma abordagem jovem:
- Olá Alain, tudo baril?
Antes de ouvir a resposta do meu amigo, sou puxado para dentro da sala pela família invasora, que me grita em uníssimo:
- TU DISSESTE QUE ALÁ É UM BARRIL??!!!

Sem direito a defesa fui condenado a mil chicotadas, aplicadas em suaves doses de cinquenta por semana…porque é tudo boa gente!
Je suis Anjinho,nous sommes Anjinhos!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Revelação

Depois de anos de luta da sociedade ocidental pelo direito à “privacy”, esta deu uma cambalhota, principalmente com as redes sociais, em que a maioria reivindica para si o direito a expor-se, fugindo da privacidade como o “diabo da cruz”, como se ela fosse o gordo tótó da escola, que tínhamos vergonha de ter como amigo ou a gorda, que tinha amigas, apenas por ser a única que tinha carro!
A mim não me interessa se alguém está entusiasmado ou a sentir-se triste, se comeu arroz com batatas ou batatas com arroz, se vai fazer chichi ou acabou de fazer um cócó, não me interessa anunciar uma tragédia e receber “gostos”, para alimentar egos,…é uma chatice o desequilíbrio!
Tento escapar da forma que posso a esta maré de exposição, por opção e para esconder o que não interessa ser sabido…custa manter uma imagem de credibilidade, mesmo sem saber se a tenho, mas continuo a crer que sim, fruto de um elogio de uma rapariga em 1998. Como pouca coisa mudou na minha vida, presumo que o elogio deve manter -se actual, tal como os comentários da minha mãe e não tendo em conta algum queixume da minha senhora, apesar de eu fazer um pão-de-ló húmido, para lhe adoçar o “bico”. O pão-de-ló só saiu húmido uma vez, mas nunca “postei” o facto no FaceBook, e tenho a certeza que seria um dos comentários mais interessantes do dia…dando azo a opiniões, pareceres, “gostos” e, quiçá, alguma dica para o pão-de-ló sair húmido mais vezes.
Apesar das minhas façanhas tediosas, dignas de exposição e capazes de se gladiarem, taco a taco, com a fotografia de uma omolete, almoço de alguém, continuo a não ir na “onda”.
Raríssimas coisas partilho com o “Mundo”, apenas algumas com os amigos, outras são simplesmente sigilosas…ou eram!
O ano de 2015, que prometia ser normal, atirou-me para o abismo. Desde há anos, sempre que necessário, sou obrigado a estender a roupa no estendal. Com vergonha e para nunca ser visto, acordava às seis da manhã, antes do padeiro passar, e, coberto pela noite, desempenhava esta tarefa doméstica no segredo dos Deuses. Em conversa com amigos, assegurava que no máximo “arrancava” a roupa do estendal…nunca na vida estender!
1 de Janeiro de 2015, seis e meia da manhã, um frio de rachar. Estou próximo do estendal, o padeiro não era preocupação, porque tinha avisado que nesse dia não iria haver pão, mas esqueci-me de que o meu vizinho, ainda jovem, tinha saído para a noitada de Passagem de Ano. Estico a segunda toalha, vou a colocar a primeira mola e sinto um “flash”, acompanhado de um:
- Bom dia, vizinho! Está a estender roupa!
(Fui apanhado e fotografado)
Com excelente capacidade de improviso, respondo:
- Nããããão, isso é para mariquinhas! Vim fumar um cigarro! – e sopro no ar, saindo fumo de frio pela boca.
O meu vizinho nunca me viu a fumar e apanhou-me a estender roupa e fotografou.

Antes que ele ponha a fotografia no FaceBook, eu, em vez de anunciar que “estou a sentir-me humilhado”, assumo no Blogue, “Eu estendo roupa!”

domingo, 28 de dezembro de 2014

Ternura dos quarenta…e um

Era de manhã e lá fora fazia frio, mas não chovia. Iria confirmar estas condições meteorológicas, depois de me levantar, após ter sido acordado pelo toque do telemóvel.
Antes do toque, estava no estado idílico, que eu baptizei de “Estado 2+1”,que consiste no binómio quentinho/fofinho (2…), enfiado na cama, com o bónus de um sonho espectacular(…+1).
O binómio era-me garantido por lençois, fofinhos, e um edredon, de igual adjectivação, e a espectacularidade do sonho era garantida pelo equipamento que eu envergava, verde e branco, do Sporting. Recebo a bola no meio campo, o estádio completamente cheio, gritava pelo meu nome e pelo nome da mãe do árbitro, enquanto corria com a bola nos pés, chuto e é golo, levanto os braços para celebrar a conquista da taça intercontinental pelo Sporting, e…
Trimmmmm, trimmmmm, trimmmmm,
O toque irritante do telemóvel despertou-me do sonho espectacular, quebrando o estado idílico “2+1”, ficando-me pelo binómio Quentinho/fofinho. Estico o braço de debaixo dos lençóis e puxo-o para dentro do “casulo”.
- Estou?! – atendo com a voz sonolenta e melada.
- Parabéns filhinho! Como te sentes no teu primeiro dia a iniciar a “caminhada” para os cinquenta? Charmoso e bonitão?! – pergunta a minha mãe.
Fui apanhado desprevenido pela pergunta, não pelo lado do “charmoso” e muito menos pelo de “bonitão”, mas pelo lado do “a iniciar a caminhada para os cinquenta”. No dia anterior, 26 de Dezembro, tinha feito quarenta e um anos.
Sem saber como me sentia, respondi:
- Sinto-me espectacular!!!
Desligamos. Afinal o aniversário não foi um sonho! Se calhar o jogo também não!
Telefonei ao meu amigo.
- Miguel, ontem marquei um golo pelo Sporting e fui Campeão Intercontinental?
- Ontem fizeste 41 anos. Querias jogar futebol com essa idade? Ganha juízo!
Desliguei e ligo para a minha mãe, tudo debaixo dos lençois para manter, pelo menos, o binómio, já que a realidade custava a compreender.
- Mamã, mas eu não me sinto com idade, ou melhor, sinto-me como se tivesse parado nos 32!
- Pois é filhinho, o tempo corre! Passaram quarenta e um anos desde 26 de Dezembro de 1973 e quarenta um anos e dois dias desde que fui para o hospital para te ter.
Curioso, a única recordação que tenho de mim, antes dos quatro anos, é de estar na barriga da minha mãe e ouvir do lado de fora, “Está frio, vamos despachar este nascimento”. Demorei dois dias para nascer, já pressentia que “frio” não seria coisa agradável.
Saí da cama com o mesmo custo com que saí do ventre da minha mãe!
Enquanto me arranjava, não liguei o rádio, não fosse acontecer como no ano passado, que nas ultimas escovadelas nos dentes, o radialista que estava a passar música “naquela estação” faz uma passagem que nem lembra ao diabo, de Beyoncé passa para Paco Bandeira, o gajo que canta “A ternura dos quarenta”. Decidi antes visionar, pela octagésima terceira vez, “O diário de Bridget Jones”. Tal como ela decidi tomar resoluções, já que o meu aniversário calha sempre no mesmo dia (o 26/12) e sinto-me constantemente a envelhecer, em que apenas durante cinco dias posso dizer que faço anos para o ano!
Para vincar a minha personalidade comecei por uma “não resolução”, vou continuar a ser sportinguista durante 2015; apontei como segunda medida uma “resolução absoluta”, vou cortar um sobretudo em tons de castanho, muito bonito, para ficar mais curto e mais jovem…mais condizente com a minha “estampa”; outra resolução fatal para o primeiro semestre, é perder 715 gramas na zona abdominal, quando é imensamente mais fácil ganhar;…e a minha “derradeira resolução”, nunca antes tomada por manifesto medo, será, começar a mandar um bocadinho cá em casa!

Amigos, se começarem a ver-me pisado na rua, não perguntem. Irei sempre responder que caí a andar de bicicleta!

domingo, 14 de dezembro de 2014

Significantes e significados

Deus, para quem acreditar, fez quase tudo perfeito.
Significante, na sua criação, foi a capacidade de comunicação que deu aos bichinhos, incluindo a Nós, por meio das formas mais simples e básicas como o latir, o miar, o rugir, …, que associadas às reacções dos animais que os emitem, transmitem uma mensagem clara.
O latir insistente do Romeu,
(o meu cão)
quando me vê, movimentando-se de um lado para o outro, nunca na sua vida de canídeo poderá significar outra coisa senão, “Leva-me a passear”, como de igual forma, o latir da Maria,
(a minha cadela, que não se chama Julieta, porque já era o nome da minha gata, antes da chegada da Maria)
sempre bem disposta, quando abre as goelas, afastando o Romeu, significa “Faz-me festinhas...só a mim”, na tentativa de açambarcar todas as atenções só para ela.
Quando ouço um miar esganiçado, associado a um objecto a cair, não tenho dúvidas de que é a Clarinha,
(a outra minha gata)
assustada e a fugir do José António,
(o meu gato)
meiguinho e que não faz mal a uma mosca.
Tudo seria claro no mundo, se não fosse a derradeira distracção de Deus, para quem acreditar, ao criar aquilo que seria a sua “Master Piece”, a Mulher.
Algo faltou nesse ser fantástico, para quem 1+1, geralmente é dois, mas só para chatear, poderá não ser…
Se a Mulher, às vezes,
(muitas vezes)
diz o que não está a pensar, ou pensa o que não está a dizer, espera que o Homem no seu pleno amor adivinhe o que realmente quer… tarefa ingrata para quem 1+1, é sempre igual a 2… sempre… mas mesmo sempre.
Mas se as discordâncias do que a mulher diz e quer dizer, causam transtornos graves apenas ao seu homem, há uma outra espécie, que causa transtornos gravíssimos a toda uma população, como se tem visto no nosso país ao longo das últimas décadas - o Político, que tem um dicionário de significados muito próprios…e não quero crer que tenha sido criação de Deus, para quem acreditar.
Se o Chico, que é um espertalhão, quando mente é chamado de mentiroso, o Político, no parlamento, quando mente com quantos dentes tem, é acusado de estar a dizer “Inverdades”.
Se o Chico, que é um espertalhão, torna a mentir dizendo que estava no café Central, e o Quim diz que o viu no café Papoila, o Chico continua a ser um grande mentiroso. O Político, quando investigado, nunca mente quando ao sítio onde esteve, pode no máximo cometer uma “Incorrecção factual”.
Esta espécie também manifesta comportamentos divinos.
Se o Chico, espertalhão, quando apanha muito sol na moleirinha, desmaia, por isso a sua mãe, em criança, nunca o deixava sair para a rua sem o chapéu, o nosso Presidente da República, aquando das comemorações do 10 de Junho teve uma reacção, que no caso do Chico seria o desmaio, aqui chamou-se de “Reacção Vagal”…e passei a acreditar em Deus!
Mas a culpa é do Empreiteiro…. E é por isso que o Político antecipa todas as promessas. Se o Empreiteiro nunca cumpre um prazo, atrasando e derrapando as obras, a promessa do Político de nunca aumentar impostos, significa, “No próximo mês, temos uma taxa roxa”, e quando a promessa é de aumento só para o ano, significa, “Amanhã temos nova taxa colorida”.

No meio de tanta “Inverdade”, só espero não levar com a taxa lilás! 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O que realmente importa.

Ébola, crise na Ucrânia, o eterno Médio-oriente, EUA, a Mãe Rússia, China,…, notícias que se vão alternando, ou por moda, como o caso das epidemias, nunca “démodé” e sempre boas, como as castanhas quentinhas, pelo alarme que causam, ou, quando o vazio é total, para quem vive das notícias, tem sempre o Mundo Árabe e Israel. Para completar a animação nas redacções, há sempre quem dê uma facada a alguém!
Tudo o que nos é dado a conhecer pelos jornais e pelas televisões, servem para, à noite, alimentar discussões indignadas nas redes sociais, podendo chegar ao insulto, se formos suficientemente interessantes para tal!
Um bom amigo diz-me que nunca se desliga do “Facebook”, com medo de perder o encanto!
Mas nós, aqui no nosso cantinho, desgastamos-nos bastante com aquilo que não podemos mudar e que se passa a milhares de quilómetros de distância, quando ao nosso lado há quem passe fome e privações… mas isto não tem dimensão para discussões que nos façam interessantes aos olhos dos outros!
Apesar da proximidade de quem mora na nossa rua e tem privações que podemos minorar, o que realmente nos interessa e nos preocupa, também não é isto!
Ninguém acorda de manhã a sufocar porque um negro está infectado com ébola em África, nem pesaroso porque o vizinho não tem o que comer ao pequeno almoço… preocupa-nos a proximidade do que nos pode afectar…a Legionella e o ar condicionado no trabalho.
Não sentimos crescer um “galo” na cabeça, porque um Árabe acertou com uma pedra num israelita, mas dá-nos dor de cabeça as filas de trânsito no caminho para o trabalho… queremos lá saber da perseguição feroz da Mãe Rússia a determinados grupos, quando em casa temos a mulher na semana do periodo, na bomba de gasolina ninguém pensa que a China e os EUA, são os maiores poluidores, mas sim que há uns anos atrás enchíamos o depósito por metade do dinheiro…
O que nos preocupa é a nossa vida…ou vidinha, e de todos os males, ou sofro o maior…uma lesão! Onde? Na coxa. Implicações? Não posso jogar à bola.
Foi há seis semanas atrás, no habitual jogo de domingo. O adversário na pequena-área chuta para golo, têm os braços levantados e largos sorrisos antes de a bola passar a linha de golo, eu estico a perna, mesmo sabendo que não conseguiria fazer o “corte”, mas iria impressionar pelo esforço, e sem querer, o meu pé de apoio escorrega, e sem nunca na vida o ter conseguido, faço a espargata, “corto” a bola sem querer, o adversário baixa os braços, perde o sorriso e a minha equipa inicia o contra-ataque.

Fiquei deitado no chão, alheio a todos os sofrimentos do mundo, sem saber como sair daquela posição, onde nunca me tinha visto, e a desejar, não paz para o mundo, mas conseguir recuperar para o próximo jogo!

domingo, 30 de novembro de 2014

Anuidade.

- Quero uma cerveja!
Foi o pedido daquela figura alta, magra e de óculos escuros, que mesmo com os olhos escondidos senti que sorriam.
Eu estava sentado ao lado, ambos ao balcão do café.
- O amigo gosta de cerveja! – digo-lhe, como que querendo descobrir aquela personagem, que nunca vi no café.
- Muito – responde-me.
- Pago-lhe outra. – disse-lhe e de braço em riste virei-me para quem atendia - Menina, mais duas cervejas.
- Não, não. – reponde-me pronto a pessoa, baixando-me o braço.
Saca de agenda, já de 2015, e aponta algo no mês de Novembro.
- Zé, eu sou o Zé! – apresento-me - E o amigo?
- Eu hoje sou o António e volto a sê-lo no dia 30 de Novembro de 2015. Se por acaso amanhã me encontrar, teremos o mesmo nome! Amanhã sou o Zé.
Intrigado, quis saber ainda mais sobre aquela figura caída do céu.
- E então, mora por cá?
- Sim, já há três anos.
Depois de devidamente explicado, fiquei a saber que o António é meu vizinho. Mora em frente a mim, onde dorme uma vez por ano. Fiquei a saber, também, que gosta de andar de bicicleta e de jogar futebol…tal como eu!
- Logo quer vir jogar à bola? Falta-nos um. – convido-o, como forma de o integrar no meio.
- Aaah, que pena! Gostava, mas já joguei hoje de manhã.
- Aaah! Então conhece gente aqui! – constato, com alguma alegria.
- Sim, sim, e costumo estar com eles…no dia 30 de Novembro de todos os anos, da parte da manhã, para jogar à bola, e no primeiro sábado de Setembro, para um passeio de bicicleta, que dura o dia todo…até me farto de os ver!
- E como é que eles te conhecem?
- Na bola, por António, no passeio de bicicleta, por Fredo.
Num instante a expressão serena de (neste dia) António, esfria.
- Passa-se alguma coisa, amigo? – pergunto.
- Aquele ali! - com o dedo a apontar para o exterior do café, onde passava o tipo dos seguros, e prosseguiu – Encontrei hoje uma carta, colocada por baixo da minha porta a informar que vou estar isento do pagamento anual do seguro do carro, por dois anos…não tenho acidentes, dizem que é um bónus! Pudera, eu só pego no carro uma vez por ano. Tinha uma vida preenchida, com acontecimentos anuais todos os dias, agora fico sem ter o que fazer no dia 29 de Agosto!
- Mas o que faz nesse dia, António? – pergunto.
- Para começar, nesse dia sou o Mendes. Pagava o seguro!
Neste momento senti o António perdido.
- Ó António, só se quiser combinar para esse dia uma cervejinha…aqui no café!
- Não pode ser, já venho aqui neste dia. Pode ser um pingo, no café ao lado?
- Está combinado!
- E nesse dia sou o Mendes. Não se esqueça!
A conversa foi-se desbobinando, estranhamente, de forma natural e nesta figura de hábitos peculiares invejei o facto de a sua mulher fazer-lhe todas as noite bacalhau.
- E não se enjoa?
- Não! - respondeu-me. – conheci-a no dia 1 de Dezembro de 2011, da parte da manhã e namoramos da parte da parte e logo aí combinamos casamento para o ano seguinte. Foi no dia…
- …1 de Dezembro de 2012! – completei.
- Esteve lá?
- Não! Foi um palpite. Continue.
- E desde que casei, sempre que estou com ela faz-me bacalhau. Já comi duas vezes…amanhã é a terceira! – e sorri. - Estou ansioso por estar com ela. Viram-na e disseram-me que ela está grávida de quatro meses…vou ser pai!
- Parabéns! – disse-lhe, sem estar convicto das minhas palavras.


Despedimos-nos e no telemóvel registei o dia 29 de Agosto.

domingo, 23 de novembro de 2014

O Mundo ao contrário

Aquele final de tarde foi o “abrir de olhos” de uma realidade que eu não queria ver. Os últimos tempos tinham sido de exageros e descuidos aos quais tinha que pôr fim.
Após ouvir na rádio que meia dúzia de políticos, promotores imobiliários e banqueiros tinham-se entregue no posto de polícia mais próximo, eu decidi parar no primeiro consultório médico por onde passa-se.

- O que vem cá fazer? – perguntou-me o médico.
Contei-lhe a última noite, passada entre amigos abstémios, numa festa de arromba na margem do rio, que desagua no monte, e onde bem perto três pescadores atiravam peixes para a água. Comi um peixe grelhado e duas sopas sem sal, acompanhados por água, a meio da noite virei-me para os digestivos, passando a beber águas com gás e terminando com chá! Deitei-me cedo…antes da meia-noite! Como é óbvio, acordei bem disposto.

Depois da explicação o médico mandou-me fazer análises.

Uma semana depois, no consultório, assustava-me a cara do médico enquanto olhava para os resultados.
- Então, Sr Doutor?!
- Meu amigo, as suas análises estão óptimas! Todos os valores estão correctos. É urgente mudar de hábitos. Anda no ginásio?
- Sim! – respondo.
- Pois! Mas convém parar.
Em vez do ginásio, aconselhou-me um pasteleiro, para fazer uma avaliaçao física. Além disto receitou-me fritos, doze em doze horas, a meio das manhãs um bolo com creme ou uma bola de carne e a meio das tardes um gelado de chocolate ou uma torta de noz. Doze em doze horas Whiskovirax e bagaced, sempre em jejum.
- Isso são comprimidos ou xaropes? – pergunto.
- Amigo, são garrafas e toma-se ao copo. E para não ser muito dura a dieta, ao fim de semana pode ter um miminho, no sábado ou no domingo pode-se lambusar numa pescada cozida.

Saí do consultório directo para a pastelaria “Ricochete” e pelo caminho passei no supermercado para aviar a receita.
Chegado à “Ricochete”, sou atendido pelo PT (pasteleiro trainer), um verdadeiro “pipo”.
- Com que então, corpinho em “V”! – diz-me – Vamos transformá-lo em “B”.
Começamos com um “Teste de Cooper”, para avaliar quantas bolas de berlim conseguia comer em doze minutos – Fraquinho – diz-me o PT, passado o tempo da prova.
Delineou-me um plano de treinos:
20 minutos de aquecimento, sentado na mesa 1 a comer torradas lambusadas em manteiga saturada; depois passo para a mesa 3 e faço três séries a comer natas (8 natas por série), depois salto para a mesa 7, para um “Drop set” a comer biscoitos caseiros. No fim, 20 minutos de cárdio, sentado na esplanada a fumar.
Cumpri este plano durante um mês, três vezes por semana, ao fim do qual fiz novas análises.

Na expressão do médico, adivinhava um sorriso que não se mostrava.
- Está no bom caminho, amigo! Já tem os triglicerídeos e os …, todos errados! Com calma e paciência o amigo fica um obeso mórbido e, com um bocadinho de esforço, disciplina e alguma sorte, ainda morre, antes do tempo, de ataque do coração!

Saí do consultório feliz com as novidades para contar à minha mulher. Quando toco à campainha de casa, o PT abre a porta e diz-me - Olá, meu amor!!!