terça-feira, 28 de julho de 2015

Adélio Dani (2º episódio)

Quando completou uma semana de vida, os pais de Adélio Dani, perante as capacidades intelectuais do bebé, decidem matricular o filho na Faculdade de Economia do Porto.
Nesse dia à tarde, entram na Faculdade e dirigem-se à portaria.
- Boa tarde, eu e a minha senhora, gostávamos de falar com o reitor da Faculdade! – Diz Augusto, de “papo cheio”, para o porteiro.
- Subam a escadaria e dirijam-se à receção. – Indica o senhor da portaria.
Chegados à receção:
- Boa tarde, eu e a minha senhora gostávamos de falar com o reitor da Faculdade! – Diz Augusto, de “papo cheio", para a senhora da receção.
- Dirijam-se ao Conselho Diretivo, ao fundo do corredor. – Indica a senhora da receção.
Chegados ao Conselho Diretivo:
- Boa tarde, eu e a minha senhora gostávamos de falar com o reitor da Faculdade! – Diz Augusto, de “papo cheio”, para a menina que o atendeu.
- Isso tem que ser na receção. A Dona Alzira é que tem que marcar o encontro.
- Mas já estivemos lá e ela disse para virmos aqui! – Diz Augusto.
- Isso é bom! Assim já sabem o caminho para a receção. – Diz a menina com um sorriso rasgado, enquanto Dália pensa: “Pregava-te era com uma faneca nas trombas!”.
Chegados novamente à receção:
- Outra vez! – Exclama dona Alzira, a rececionista.
- Pregava-te com uma lampreia nas trombas! – Resmunga Dália, baixinho com os dentes serrados a tentar manter a calma.
- Pois é, no Conselho Diretivo, disseram-nos para virmos aqui para marcar um encontro com o reitor. – Explica Augusto.
Dona Alzira, a rececionista, “passa-se”:
- É sempre a mesma coisa...tudo para mim. Queria ver como é que esta mer…esta Faculdade funcionava sem mim! Sempre eu, sempre eu! Tudo o que é trabalhinho, sempre, sempre para mim! Sempre a mesma coisa…mais uma caixinha, mais uma caixinha!
Nesse dia de trabalho, dona Alzira tinha feito dois telefonemas, um deles para o marido, e tinha passado o resto do dia a fazer croché! Faz a ligação para o Reitor:
- Tou, Sr. Reitor, está aqui um casal com um bebé, para falarem com o Sr. Doutor!
- Um bebé?! Ui, é meu filho ou afilhado? – Pergunta o Sr. Doutor.
- Só um momento! – Diz a dona Alzira ao Reitor e dirige-se para Augusto e Dália. – A criança é filha do Reitor, ou tem alguma relação de parentesco com ele?
- Não, o filho é do meu Augusto, e aqui, só a senhora conhece o Sr. Reitor! – Responde Dália chateada com a insinuação.
De novo ao telefone:
- Sr. Doutor, a criança não é nada a si. – Diz Alzira.
E do outro lado da linha:
- Então o que é que eles querem? – Pergunta o Reitor.
De novo virada para o casal, Alzira pergunta:
- O que é que querem?
 - Diga ao senhor Reitor, que temos aqui um fenómeno! – Diz Augusto.
E de regresso ao telefone:
- Senhor Doutor, o fenómeno! Eles dizem que têm aqui o fenómeno!
- O CR7 está aí? – Pergunta o Reitor.
- Não! Já lhe disse, aqui está um casal com um bebé! – Diz Alzira, com cara de parva.
- Eles que esperem! Eu desço já! – Disse o Reitor intrigado.
Chegado à receção o reitor pergunta:
- Então dona Alzira, é este o casal?
- É , Sr. Reitor!
- E o fenómeno? – Pergunta o reitor, virado para o casal.
- É isto…o bebé! – Responde Augusto em tom sepulcral, elevando o filho com os braços.
- Não se importa de baixá-lo para eu poder vê-lo? – Pede o reitor.
- Ah, sim, sim. – Responde Augusto, como que voltando à realidade, e baixa o bebé.
- A mim parece-me normalzinho…uma cabeça, duas pernas, duas mãozinhas, uma pilinha…porque é rapaz…normal! – Aprecia o reitor.
- Normal o quê? É o mais bonito de todos! – Responde Dália, chateada.
- E um fenómeno! – Repete Augusto.
- Mas ele é superdotado? – Pergunta o reitor.
- Não, o meu menino é hiperdotado! – Responde Dália, com firmeza.
- Vamos até ao meu gabinete! – Diz o reitor
Todos sobem ao gabinete do Sr. Reitor, de onde ele faz um telefonema para um amigo médico, especializado em pediatria, que tinha tirado uma hiperespecialização em pediatria fenomenal, a quem pede para ir à Faculdade, para analisar o bebé Adélio Dani.

- Hum, hum, hum, hum, sim, sim, sim, nha, nha, nha, ooooohhhhh, este bebé realmente é hiper… - Diz o médico, quando sem ter acabado, é interrompido por Augusto.
- É hiperdotado!
- Não! Mas não fiquem tristes, pois o bebé, tão novinho e já é HIPERtenso e HIPERcondríaco! – Diz o médico.
- Obrigado meu amigo médico, já podes ir. – Diz o reitor ao médico, acompanhando-o à saída e empurrando-o para fora do gabinete. Fecha a porta.
- São 100 €! – Ouve-se do lado de fora.
Voltando para a beira de Dália, Augusto e Adélio Dani, o Reitor mais esclarecido, diz:
- Pois nada garante que ele seja hiperdotado.
- Mas é, Sr. Reitor. O nosso bebé com três minutos de vida já falava! – Diz Augusto.
- Eh pá, realmente isso é fenomenal! – Exclama o Reitor.
 - Pois é, por isso é que viemos aqui. Para matriculá-lo na Faculdade! – Explica Augusto.
- Hi, hi, não pode ser! – Diz o Reitor.
 - Mas ele é mesmo fenomenal, pode vir a ser Presidente! – Diz Dália.
 - Da República? – Diz o Reitor admiradíssimo.
- Não! O meu sonho é que ele seja presidente de uma mesa de voto numas eleições autárquicas! – Diz Dália, com o pensamento no mundo dos sonhos.
- Bem, ele pode ser hiperdotado, mas tenho que lhe fazer uma prova oral! – Diz o reitor.
- À vontade. – Dizem Dália e Augusto.
- Como é que o bebé gosta de ser tratado? – Pergunta o reitor.
- Élio, Adélio! – Responde Augusto, cheio de orgulho.
O reitor pega no bebé e senta-o numa cadeira enquanto ele se senta noutra. Quando se vira para Adélio, ele já estava tombado. Augusto, prontamente pega no filho e:
- Bebé mimado. – Repara o reitor, e continua: – Muito bem Adélio, se realmente queres entrar na Faculdade de Economia, vou fazer-te umas perguntinhas. Se acertares, és matriculado, percebes?
Adélio Dani, sorri!
- Muito bem. Adélio, qual é a tua opinião sobre os princípios da economia política e da tributação, baseada na teoria da distribuição do excedente entre as diversas classes sociais? – Pergunta o reitor, tendo noção que fez uma pergunta difícil.
Adélio Dani, atacado pela fome, porque estava na hora de mamar, desata a berrar. Ao fim de um minuto de berros, o reitor intervém:
- Adélio, chega! Tens razão, eu acho o mesmo. “Os princípios da economia política e da tributação” são de berros! Agora cala-te e vamos à segunda pergunta. Descreve-me a “Teoria das vantagens absolutas”.
Dália estava ao lado do seu filho, e este agarra-se à sua mama para saciar a fome.
- Muito bem Adélio, tens uma semaninha apenas e pensas exatamente como eu. A “Teoria das vantagens absolutas” é para mamões! Sabes mais do que alunos que estão no último ano!
Neste momento a expressão do reitor é de enorme espanto, enquanto os pais sorriem, como se já estivessem à espera daquele desempenho.
- Vou fazer mais uma pergunta, cuja resposta está ao alcance de poucos! – Diz o reitor, e pergunta: - Bebé Adélio, o que achas da relação entre política e economia, nas teorias de Arrighi e Wallerstein?
Mal o reitor termina a pergunta, Adélio acaba de mamar e arrota e de seguida lança um pequeno vómito.
- Hei pá, é isso! O que Arrighi e Wallerstein disseram é um vómito, um arroto de porcaria! – Exclama o reitor.
Sem perder tempo telefona para um colega que lhe estava a preparar um discurso para ser apresentado no “Congresso Ibérico de Economia":
- Tou, Pires, sou eu. Já escreveste a parte do discurso sobre a relação entre política e economia, nas teorias de Arrighi e Wallerstein?
- Mal acabei de por o “ponto final”, tu ligas-te. Queres que te envie por e-mail? - Pergunta o Pires do outro lado da linha.
- Esquece, apaga e refaz essa parte! Vais escrever que “a relação entre política e economia, nas teorias de Arrighi e Wallerstein”, são um arroto, um verdadeiro vómito de leite! – Dita o reitor, desligando de seguida. Vira-se para a família maravilha e continua: – Muito bem meus senhores, vamos tratar da matrícula do vosso Adélio Dani, e certamente vai ter direito a bolsa!
- Ó, ó, ó Sr. Reitor, eu e a minha senhora tentamos acompanhar o evoluir dos tempos, mas não dá para oferecer uma bola de capão ao nosso menino? – Pergunta Augusto.
- Não percebo! – Diz o reitor.
Dália baixa as calças do menino, aponta para a pilinha de Adélio Dani e diz:
- Ó Sr. Reitor, está a ver isto?
- Um pénis! – Diz o reitor sem estar a perceber nada.
- Acha adequado uma bolsa para um menino? Não é melhor uma bola ou até uma fisga?! Mais um bocadinho oferece-lhe uma tatuagem no “Tania’s Tatoo Body”! – Remata Dália.
- Não, não estão a perceber! O que eu quis dizer é que o vosso filho receberá dinheiro para estudar. – Esclarece o reitor.

(continua)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Adélio Dani (1º episódio)

Adélio Dani é um jovem de trinta e três anos que sonha ver a família unida, e seus pais sonham que ele seja bem sucedido na vida. Mora com a mãe, Belaflor, carinhosamente chamada de Dália, florista de profissão. O pai, para melhorar a qualidade de vida da família, saiu de casa há dezasseis anos para embarcar numa traineira para ir à pesca do bacalhau…ainda não voltou.
A vizinha da frente, diz que o barco naufragou e ele morreu. Esta possibilidade foi o click para Adélio Dani pensar durante quinze segundos, em seguir a carreira de nadador-salvador. A vizinha do lado diz que tem visto o pai de Adélio Dani, nos últimos dezasseis anos, na freguesia da Areosa, sempre acompanhado de mulheres! Esta segunda possibilidade mantém, em Dália, a esperança secreta de que Augusto regresse a qualquer momento da faina…com o bacalhau!

A noite carregada de cinzento e a chuva persistente fazia o ribeiro que atravessa Campanhã rasgar as margens, quando num barraco, bem próximo, rompem as águas de Dália. Sem nenhum sinal celeste no céu, nem um sequer relâmpago, nesta noite de tempestade a anunciar um nascimento especial, no momento do parto, a mãe berra, bem alto, o nome do seu ídolo de sempre: - “ALAAAAAAIN DELONNNNNN!”. O berro termina quando sai o último pedacinho de bebé do ventre. Em choro é colocado num berço de palha por Rubi, que apanha o recém-nascido pelo cachaço. Durante este momento de ternura entre o cão e o novo membro de família, Augusto, possuído pelos ciúmes, sentimento superior à paternidade, berra com a mulher:
- Sua tola, até no nascimento do nosso filho tu pensas nesse gajo?! – Grita Augusto enquanto rasga a camisa.
- Boa! Não te compro outra! – Diz Dália.
- O quê?! – Augusto olha para si mesmo, e continua – O que é que eu fiz?! A minha melhor camisa! – E voltando a fixar a mulher, muda o tom de voz para berros: – Visto a minha melhor camisa para o pato e…
- Para o parto, para o parto. – Corrige Dália, num tom de paciência.
- Para o parto e tu dizes o nome desse Alain Delon, sua vadia!
- O quê?! Seu pescador de meia tigela… tu deves ter escamas nas orelhas. O que eu disse foi: “ Pelo meu querido filhinho, suporto qualquer dor. Sou uma leoa!” – Esclarece Dália, num tom exaltado.
- Aaahh, leoa! Tu és uma leoa! Enganaste-me bem, para me apanhares no altar… eu era o teu amor, eras do FCP, sabias fazer bainhas…e agora és leoa? Só falta jogar um Alain Delon no Sporting! Sua minhoca! Enganaste-me bem, enganaste!
- Tu é que me enganaste quando te conheci! Dizeres-me que praticavas pesca desportiva no teu barco, e eu a pensar que eras rico, e tu ias era à apanha da sardinha…seu falso!
- Aaahh, falso eu?! Iludida! Tu ouvias o que querias! Eu disse-te, e várias vezes, que praticava pesca da tainha, na traineira do meu primo Angelino!
Rubi, o cão da família, achando que aquele ambiente não era propício para um bébé, apesar de ser um pouco mais colorido do que cá fora, decide intervir e pôr um ponto final na discussão:
- Papá, mamã! – Ladrou Rubi!
Dália e Augusto, pasmados olham para trás, em direção ao berço de madeira onde está deitado o bebé.
- Oi… isto é milagre! O nosso menino falou! – Exclama Dália.
E os dois aproximam-se do berço:
- Mas ele está a dormir! – Diz Augusto.
- Mas falou, não ouviste? – Pergunta Dália.
- Ouvi, ouvi… temos que lhe dar já um nome. Se calhar amanhã vai-nos perguntar como se chama! Tens alguma ideia? – Pergunta Augusto.
A vontade de Dália era de pôr o nome do seu ídolo de sempre, Alain Delon, por quem se apaixonou muito nova, quando no quiosque onde costumava comprar o almanaque trimestral de ponto-cruz, viu-o do lado de lá, pendurado na capa de uma revista, foi amor à primeira vista. Mas isso iria trazer discussões diárias ao seio da família, devido aos ciúmes de Augusto.
- Não, não tenho nenhuma ideia! E tu?
- Sei lá, deixa-me pensar…humm… já sei. Podíamos pôr o nome do meu primo Angelino! – Propõe Augusto.
- Estás louco. Para me lembrar sempre desse chato, não?! – Retorquiu Dália.
- Então podia-se chamar Emília! – Diz Augusto.
De repente, furiosa, Dália agarra a pilinha do bebé e diz:
- Estás a ver esta ferramenta? Isto é macho! – Depois aponta para Augusto – Tu, burro!
- É que eu sempre gostei do nome Emília! Podíamos chamá-lo de João Emília! – Defende-se Augusto.
Dália, por momentos, entra no domínio do delírio e imagina-se feliz com Alain Delon e o filho de ambos. De volta ao mundo real, para ela não muito melhor do que o tempo lá fora, não por não gostar do marido, mas por não ter o seu amor próximo, responde-lhe:
- Esquece, já sei como ele se vai chamar. O nosso menino vai-se chamar Adélio Dani!
Dália acha este nome parecido com Alain Delon. Desta forma evita os ciúmes de Augusto e sente o seu ídolo mais presente.

Nos dias seguintes, apesar das insistências de Dália e Augusto para fazerem conversa com o filho recém-nascido, Adélio Dani apenas chorava, dormia e mamava.

(continua) 

domingo, 12 de julho de 2015

Era uma vez a minha rua

Na minha adolescência, festejei apenas uma vez o S. João…sempre gostei de movimento, mas nunca de confusão!
No final dessa noitada, já de manhã e com o sol a brilhar, na altura da despedida dos amigos, um deles, chamemos-lhe Rocha, diz: – Agora vou pintar as grades das escadas, lá de casa!
Todos viraram costas a caminho das suas camas a pensar “coitado” e eu pensei o mesmo…no entanto, digo-lhe: – Rocha, vou ajudar-te!
Ao chegar à casa do Rocha e ver a extensão das grades, apercebi-me que íamos ter trabalho para todo o dia! Arrependi-me pela segunda vez nas últimas doze horas…a primeira foi a própria noitada… confusa!
Chegado o final do dia, o arrependimento transformou-se em satisfação, por ter ajudado um amigo! Sensibilizado, o Rocha convida-me para morar com ele! Olhei para ele desconfiado, mas rapidamente as más ideias que me estavam a passar pela cabeça foram postas de lado. Afinal o Rocha é mecânico, tem as mãos sujas de óleo e muda calços de travões…é muito macho!
Agradeci-lhe e disse que não, como os ingleses à moeda única, e expliquei-lhe que gostava dele como amigo, mas éramos muito diferentes para vivermos juntos!
Fui para casa, que fica na ponta da Rua Europa, como Portugal, e onde tenho como vizinho o Sr. Henrik, um simpático alemão que se apaixonou por Portugal, há 29 anos atrás!
Mal abro a porta, dirijo-me para o quarto, onde caio esmagado pelo peso do sono! Tinha de descansar…no dia seguinte iria ajudar o Sr. Henrik a cortar madeira, para a sua lareira.
O dia seguinte, depois da cooperação entre mim e o simpático Sr. Henrik, terminou com uma festinha na casa da dona Amélia, que convidou toda a vizinhança!
Houve muita gargalhada e discussão! Achávamos piada a algumas características de uns e outros e dizíamos com franqueza: – Não conseguia viver contigo!
Nessa noite, quando todos foram para suas casas e se deitaram, durante o sono, algo inexplicável aconteceu!
Acordei bem cedo e espreitei à janela. As casas da Rua Europa tinham desaparecido e dei por mim dentro de um palácio!
Olá! – ouço atrás de mim. - É o Sr. Henrik. Depois aparece a dona Amélia, depois outro vizinho, e outro…todos os moradores da Rua Europa estavam naquele palácio!
Sem encontrar explicação e com as casas desaparecidas, achámos boa ideia vivermos naquele casarão…afinal, havia espaço para todos!
Aparece um senhor, o mordomo do palácio, de aspecto austero que nos distribui pelas divisões da casa. Não foram distribuídas de igual forma, o Sr. Henrik teve direito a cinco divisões, a Dona Amélia, a três,…, e a mim coube-me apenas um pequeno quarto, mas limpo, quentinho e confortável. Chegava-me!
A primeira noite no palácio foi cor-de-rosa, estávamos todos juntos no mesmo espaço e sentíamos-nos seguros…apesar de alguns ruídos e hábitos.
Com o passar do tempo, o que no início era aceitável, começou a tornar-se um dor de cabeça!
Eram os roncos do Sr. Henrik durante o sono; era a vaidade da Carolina, que ninguém tirava de frente do espelho da casa de banho, o que impedia o Sr. Augusto dar livre curso às suas constantes descargas intestinais, motivada por uma fluidez fora do habitual; era o cheiro a tabaco espalhado pelo palácio, deixado pelos fumadores inveterados da casa; era a luta na hora das refeições, porque uns comiam mais do que outros… enfim… a discórdia começou a instalar-se no palácio da Rua Europa!
Como bom moço, ia aceitando tudo e todas as diferenças…mas aquele dia!
Nesse dia, o mordomo do palácio, de aspecto austero, entra no meu quarto onde tinha acabado de fazer a cama e alinhado as almofadas decorativas em forma de losango!
- Não pode ser! – diz-me o mordomo – As almofadas têm que estar em forma de triângulo cateto! Assim fiz, sem saber muito bem porquê!
No dia seguinte iria novamente colocar as almofadas em forma de losango e o mordomo, austero, determinar, outra vez, a colocação, desta vez em forma de triângulo obtuso!
Apesar das diferenças entre os moradores do palácio e os diferentes tratamentos, não conseguia mais permitir que o mordomo, de aspecto austero, entrasse no meu pequeno quarto e me impedisse de colocar as almofadas como eu queria!
No dia X, às Y horas abandono o palácio. Na Rua Europa, onde existiam casas com gente, há agora o palácio e se eu olhar para a ponta Este da rua vejo várias casas…de gente pobre ou remediada, que não fazia parte do nosso grupo!
A minha casa, onde eu determinava os hábitos e as regras, tinha desaparecido! Com umas tábuas, que estavam na rua, fiz um barraco ao lado do palácio…não tinha dinheiro!
Vi-me pobre e frustrado, a ter que começar tudo de novo, mas consciente que tenho que levar a vida que posso e não viver a vida dos outros!
Na primeira noite no barraco tive um pesadelo, sonhei com a Integração, quando vivi com toda a gente da Rua Europa na mesma casa! De manhã acordei a pensar o quanto era bom quando cada um vivia em sua casa e nos ajudávamos uns aos outros, em Cooperação!

Quando tiver dinheiro, vou comprar almofadas e decorar a minha cama como eu quero!
Na porta da casa preguei o poema “Cântico Negro”, para não me esquecer… 

domingo, 14 de junho de 2015

“A canalha”, espécie perdida

Uma das espécies que começou a entrar em declínio nos anos oitenta, da qual eu era um belo exemplar, mas sem plumas, em contraposição com o “boom” do eucalipto, foi a “a canalha”.
O sexo masculino da espécie “a canalha”, depois da escola, juntava-se na rua, não atraído pelas feromonas do sexo feminino da espécie, porque estas ainda se pareciam com o sexo oposto,rasas de peito, mas pela gritaria dos outros elementos, enquanto  corriam atrás de uma bola.
Os elementos desta espécie de comportamentos castiços, que “gadulhavam” entre si e de seguida andavam aos abraços, olhavam com desconfiança para os carros que passavam, legitimamente, na estrada, ocupada por nós, e apreciava muito os cantos, não os marcados quando a bola saía pela linha de fundo (imaginária), mas os da rua, que serviam de casa de banho, para alivio em momentos de aperto!
Esta espécie, ”a canalha”, ao contrário de todas as outras, não se reproduzia, a regeneração ficava a cargo da espécie “Adultus pós canalha”, que me fez pensar que deixaram de o fazer.
“A canalha” de oitenta desapareceu e lembro-me de ver o último exemplar vivo no início dos anos noventa, sozinho, de bola debaixo do braço, na mesma estrada em que eu jogava à bola com os meus amiguinhos, na altura em paralelos e agora de asfalto e transformada em IC (itinerário complementar). Nini, o último da sua espécie, usava a mesma coleira que colocam nos linces ibéricos, para serem monitorizados...foi atropelado. Ainda hoje é chorado na Quercus, o Nini e a Matilde, a última da sua espécie também, uma begónia rara de exterior!
Curiosamente, a caminho do meu trabalho, passo pela EB 2/3 , no meu tempo chamada de Ciclo, onde vejo muitos seres parecidos com a extinta espécie “a canalha”, mas não os vejo na rua no fim das aulas. Não sei como se chamam, mas são muito parecidos!
E curiosamente, num desses dias de regresso a casa, o meu amigo Miguel telefona-me para à noite vermos o “Jurassic Park” e o “Anikibóbó”...devia-lhe apetecer ver filmes com espécies extintas!
Entusiasmado pelo convite, que me aumentou os níveis de adrenalina, na minha rua, sempre calma, acelero e ultrapasso o Sr. Libório, que se desloca sempre de bicicleta. Já com o carro estacionado, ouço gritaria, para mim mágica, que me leva para tempos antigos...olho para a frente e vejo dois exemplares da espécie “a canalha”, a chutarem a bola um para o outro, com balizas marcadas com quatro pedras.
Entrei em casa preocupado que o convite do Miguel me tivesse deixado drogado. Subi rapidamente ao 1º andar e na sala continuava a ouvir o barulho da “canalha”...espreito à janela e eles lá estão!

Telefono ao meu amigo e digo-lhe:
- Miguel, vai espreitar à tua janela. Pode ser que vejas dinossauros na rua!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sinais do Céu

A idade, por enquanto, não me incomoda. Enquanto houver coisas que me entusiasmem e me façam borbulhar de emoção, que venham os anos, que cá estarei para apanhá-los.
Se na adolescência despertava para os mistérios da Mulher, do cubo mágico e da melhor forma de defender a jogar à bola, aos quarenta, interesso-me pelos mistérios do Céu, de onde eu, e outros, interpretamos os seus sinais...
Somos um grupo de doze astrónomos (para não dizer cabeças no ar), amadores, que olham as estrelas e sempre que observamos três sinais luminosos no céu, mais ou menos alinhados, é a indicação para prepararmos as autorizações lá em casa.
Desde terça feira à noite, que sabia que a malta, toda casada, menos o Jólita que nutre uma paixão não correspondida desde os sete anos pela cunhada de um dos nossos comparsas, estava alinhada para uma saída no próximo sábado, pois nessa noite, cada um em sua casa observou três estrelas alinhadas, desta vez em triângulo equilátero, apesar do brilho de dois dos três vértices do triângulo, ser a luz de dois aviões...mas são pormenores, ainda ninguém me provou que a luz das estrelas é mais importante que a luz dos aviões!
A saída, determinada pelos astros, é a melhor do mundo e conduz-nos à melhor tasca do mundo, “A Canzoda”, que  não fica na melhor terra do mundo, mas junta algumas das melhores pessoas. Sei que para quem não é da Trofa, estas palavras poderão soar a estranho, mas é a verdade!
Após algumas autorizações das esposas e incompreensivelmente o Jólita ter pedido permissão à sua paixão, que segundo ele namora com um “tipo porreiro”, o Zé, telefono no dia seguinte à Dona Natália para marcar mesa para seis. O grupo é maior, mas como nunca conseguimos o “bingo” nas autorizações, contentamos-nos com a “linha” e os jantares realizam-se, com a regra de eu ter que estar sempre presente, já que os outros têm vergonha de telefonar e reservar mesa, o que faz de mim uma pessoa muito importante, apesar de sermos todos conhecidos do estabelecimento há muitos anos!!!
Chegamos sempre aprumados, com pinta de senhores e de muito conteúdo, que se esvazia de forma directamente proporcional à velocidade com que se esvaziam as garrafas. Este fenómeno, em nós, comprova-se pelo empirismo (conhecimento adquirido durante toda a vida, no dia-a-dia, que não tem comprovação científica nenhuma), chegando eu a pensar que há seres unicelulares bem mais interessantes!
O jantar finda sempre da mesma maneira, com dez minutos de conversa na rua, antes de irmos embora.
Desta vez, na despedida, o Jólita diz, com um copo a mais ou embriagado de amores:
- Para a semana temos que cá voltar.
- Porquê?
Ele olha para cima e a apontar, comunica:
- Estão três estrelas alinhadas!

Olhamos para o céu, com ele, e as três estrelas eram três candeeiros dos postes de iluminação. Mas são pormenores...  ainda ninguém me provou que a luz das estrelas é mais importante que a luz da iluminação pública!

domingo, 10 de maio de 2015

Febre de sábado à noite

- Logo vou jantar com a A, com a B, com a C, com a D e com a E. Queres vir? Não queres pois não?
- Não. Vai tu! – respondo.
A pergunta a condicionar a resposta, poderia ser apenas a transmissão do facto, “Logo vou jantar com as minhas amigas e tu não vens.”.
Nos últimos tempos as minhas noitadas de sábado são no máximo até ás sete e meia da tarde, quando prolongo um pouco mais o meu treino no ginásio, mas hoje, só, seria diferente e a noitada seria de arromba, quem sabe até à meia noite!
Depois de jantar vou para o quarto de vestir onde me preparo: cinto camel, da cor dos sapatos com fivela, calças de ganga de modelo bonito, camisa e blazer azul.
Olho-me ao espelho, a cara brota um sorriso e sinto-me em modo “pito”.
- Vou sair. – digo a mim mesmo e de imediato pergunto-me – Mas como é que se sai?
Já passou muito tempo desde os meus tempos de “morcego”... já não sei aonde ir! Tinha que perguntar.
Telefono ao meu amigo Miguel, solteiro, que não me atende, mas mais tarde envia-me uma mensagem a dizer que está numa festa em Santo Tirso. De seguida telefono ao meu amigo Nando, divorciado e a morar em Famalicão...não atendeu e iria telefonar-me no dia seguinte...não o atendi! Deveria querer saber aonde se vai ao domingo à tarde, vou-lhe dizer amanhã, segunda feira!
Saio de casa e ao entrar no carro decido ir a Santo Tirso, ao fundo da minha rua mudo de ideias e, decidido, corto para Famalicão e ao cimo da estrada faço inversão de marcha e retomo a estrada para Santo Tirso.
Chegado à cidade estaciono o carro no sítio do costume, quando lá vou durante o dia, e dirijo-me para o centro, uma zona de bares e esplanadas. O tempo estava agradável e muita gente passeava na rua, novos, velhos, grupos de amigos e casais, alguns a correr num jogging nocturno e outros a passearem os cães. Decidi-me por uma esplanada, dirijo-me ao balcão e peço um café à menina que me atende, que sorriu...e eu sorri e sentia-me...bem...tinha vinte anos outra vez e a aliança no dedo anelar era mais um acessório como o cinto camel!
Paguei e saí...depois de cinco  passos, bem contados, olhei para trás e a miúda estava a atender outra pessoa, de perfil para mim, quase que olhou...a noite era minha!
De regresso à Trofa e com o ponteiro das horas quase a bater as doze, passo no café/bar Malte, que fica a caminho de minha casa e que apenas conheço na dimensão café, quando lá passo durante o dia para tomar...café.
Havia um concerto acústico e pela primeira vez, neste espaço, peço uma cerveja. Encontrei gente conhecida que não encontro durante o dia e que os conheci, há muitos anos, depois das vinte e três horas. Ao balcão e convicto que elas não me queriam ver só de costas olhei para as mesas...as miúdas estavam felizes, bem acompanhadas pelos namorados e amigas!
Num momento em que olhava para as minhas mãos, sinto um chapadão nas costas acompanhado por um viçoso:
- CALHEEEIIIIIROSSS!
Era o meu amigo Mário Velhote, personagem que conheço há mais de vinte anos e já na altura tinha este nome. O Mário é simpático, nas discotecas passava o tempo na pista a dançar (para mim a tentar não cair) e sempre que o encontro, desde o dia que o conheci, está bêbado.
Na conversa possível, entre alguém sóbrio e um amigo bêbado, o Mário diz de forma bem audível para quem quisesse ouvir:
- O Calheiros era o rapaz mais bonito da Trofa!
Com a frase fiquei mais embriagado que o próprio Mário, e como um adolescente numa saída de sábado à noite, digo-lhe:
- Queres curtir comigo?
O Mário, que só gosta de cervejas, vira-me costas e vai-se embora!

Esqueci-me que além de meu amigo, o Mário só é bêbado! Olho para o relógio e é meia noite e quinze.

domingo, 3 de maio de 2015

Anténio Costa

Anténio Costa, nascido António há 41 anos, teria sido Rosa Costa, caso tivesse nascido menina.
Filho do Sr. Costa, um verdadeiro pinga-amor do seu tempo, que ainda hoje relembra, “Nos bailaricos dançava com elas todas...”, não herdou o jeito para dançar do seu progenitor. Quando se aproxima um casamento ou uma outra qualquer festividade, em que seja expectável Anténio dançar, treina uns passos com a mãe e depois evolui para o treino com a vassoura.
Numa dessas festas, no caso um casamento a quem lhe foi prometida uma dança, os treinos em casa começaram nesse mesmo dia, sempre supervisionados pelo pai.
A mãe sempre se esforçava para lhe ensinar convenientemente os melhores passos para o filho arranjar moça, da mesma forma que foi seduzida por um “Paso doble” do Sr. Costa há uma décadas atrás num arraial de Verão. Mas uma observação de Anténio no treino de dança  ia provocando o divórcio dos pais:
- Ó pai! A mãe dança melhor do que você.
- O que é que disseste rapaz?! – pergunta o Sr. Costa, resmungão.
- O que tu ouviste! – Diz a mãe em defesa do seu menino.
O treino de dança terminou ali.
Anténio senta-se e assiste à discussão dos pais, com um sorriso, sem saber porquê!
“Ainda vou acabar em casa sozinho”, pensou, quando pouco antes a mãe pensava, “É desta que ele vai arranjar moça”.
Lembro-me de ouvir, “Fizemos uma casa tão grande a pensar nos filhos e depois nos netos...”, mas esta preocupação dos pais era o que menos preocupava o filho.
No passado, Anténio, ainda António, embeiçado por uma rapariga entra para o coro da sua freguesia onde ela era soprano. Depois de lhe berrar uma área e pensar que tinha estragado tudo, contra tudo o que fazia prever ela convida-o para lancharem no dia seguinte à tarde, estragando tudo!
- Amanhã, não posso! – diz, depois de olhar para a agenda do telemóvel, prosseguindo – Vou jogar volei para a praia com os meus amigos.
- Eu posso ir? – diz a sua paixão em si bemol
- E sabes jogar? – pergunta António em ré maior.
- Não. – responde a pretendida com um acompanhamento de ferrinhos.
Ele, ainda António, nunca mais pôs os pés no coro...não se pode amar alguém que não joga o mesmo desporto.
Chega o dia do casamento e Anténio, que ficou assim conhecido quando ao fazer uma assinatura electrónica num curso on-line alemão o sistema trocou o “ó” por “é”, na hora de abertura da pista está sentado a contemplar algo que não está ali.
- Vamos dançar?...Vamos dançar?...Vamos dançar?
Anténio “desperta” e à sua frente está a rapariga que lhe prometeu uma dança.
- Sabes andar de bicicleta? – pergunta.
Anténio, ainda no tempo em que era António, com o coração dorido, deixou o volei e dedicou-se ao BTT, achando mais fácil encontrar raparigas que gostassem e soubessem andar.
- Não, Anténio, não sei andar. – responde a rapariga, prosseguindo – Só gosto e jogo volei, principalmente de praia. E então! Vamos dançar?
Ao ouvi-la, Anténio quase que cai da cadeira e responde-lhe.
- Não posso, dói-me o coração. – responde.
- O quê? – contra-pergunta a rapariga.
- Torci o tornozelo, não posso dançar.

Ainda hoje não percebo se os “desencontros” de Anténio são acasos da vida ou provocados por ele, mantendo a sua vida pouco mais complicada do que a de um ser unicelular, orientada por duas ou três regras, uma delas, insinuar em casa o que quer comer no dia seguinte, com a certeza de que a sua vontade será satisfeita por uma mãe dedicada!