domingo, 24 de novembro de 2013

A vida é um jogo.

O sábado é para mim um dos dias mais amigos, mesmo quando começa mal, como aconteceu este fim- de- semana.
O despertador toca às sete da manhã. Consciente do seu significado, estico as pernas, sacudo a cabeça na almofada… e o fim-de-semana que nunca chega.
- Alto, mas hoje é sábado. – pensei.
O corpo volta a encolher e mantém-se fofinho debaixo dos cobertores e a cabeça volta a “acamar” na almofada com um sorriso de menino que se deixa adormecer a pensar na futebolada dessa tarde, às cinco horas, com os “marretas” dos amigos!
Todas as actividades domésticas e de lazer, até às quatro e meia, são executadas com parte (quase todo) do pensamento virado para o jogo. Devo dizer-vos que mesmo quando estou em viagem e no melhor dos sítios, às cinco da tarde de todos os sábados, desejo estar no pavilhão do liceu da Trofa, para uma hora de intenso pontapé na bola.
O que acontece durante essa hora vou omitir, para que os caros leitores e amigos não fiquem a pensar, “Este gajo tem a mania de que é o melhor!”…mas curiosamente sou!
Muitas vezes, a futebolada é seguida de uma ida à tasca “Canzoada”, cujos donos, a dona Natália e o Sr. Manuel, são amigos de infância dos nossos pais. Ele não nos deixa passar sede e a dona Natália, não nos deixa passar fome!
É o nosso “sítio mágico”, onde deixamos de ser crescidos, de ser casados (a não ser que a mulher ligue a perguntar: – Demoras?), de ser pais, onde nos desligamos da posição profissional que cada um ocupa de segunda a sexta e esquecemos o politicamente correcto, que ficou há muito à entrada do ginásio para o jogo de futebol. A cabeça volta a ser pré-adolescente e a de alguns até infantil, onde a amizade basta e voltamos a descobrir o mundo! Ontem, já proibidos de soprar ao balão, ouvimos a história sobre um ex-gay e descobrimos que a mulher quanto mais velha, melhor…
Já atestado e num estado quase a roçar a má disposição, apesar da insistência de alguns para acabar de ver o FCP versus Nacional, despedi-me.
Parecia estar a sair de uma cena suave do “Feios, porcos e maus” mas mesmo assim sentia-me demasiado bonito para me esconder já em casa. Com vontade de uma comédia romântica, parei no café S. Martinho.
Entro e encosto-me ao balcão, lá dentro a sala está cheia.
- Café, Calheiros?
- Sim, David.
Ponho-me de lado para o balcão e fico de frente para uma das televisões sintonizadas no FCP versus Nacional. Por baixo dela, uma mesa, onde estavam sentados um rapaz e uma rapariga, novinhos…se calhar no primeiro encontro.
O FCP controlava o jogo e sem ela ver, ele mantinha as mãos debaixo da mesa, desassossegadas  de nervosismo. O Nacional não conseguia sair da defesa e o sorriso tremia, sem se conseguir manter firme, o FCP reparou nisso e sentia-se seguro e senhor do jogo, fazendo juz à tez morena e cabelos pretos ondulados.
Quando desviava o olhar da televisão para aquela mesa, nunca o via a falar… adivinhava-se uma goleada do Porto. Ela estende os braços pela mesa, e deixa uma mão próxima da dele.
“Põe a mão em cima da mesa e encosta-a à dela!” – Torcia eu, como se estivesse a jogar aquele jogo. Como sportinguista, queria muito que o Nacional empatasse, e acontece aquele momento.
Aquele momento em que ela lhe faz uma pergunta, o miúdo abre a boca e penso que o vou ver finalmente a falar, mas o Nacional perde novamente a bola e o Porto carrega mais uma vez….
Aquela menina, por quem era capaz de me apaixonar se tivesse dezasseis anos, massacrava aquele rapaz perguntando e respondendo por ele. Não entendia porque tinha ela saído com ele! Mas enfim… os jogos têm que ser jogados, senão perdemos por falta de comparência!
Cansado de ver um jogo em sentido único, paguei o café e fui embora com dúvidas se haveria um beijo nessa noite!

Quando chego a casa, deito-me e ligo a televisão para me ajudar a adormecer. Quando vou a cerrar os olhos passa em rodapé, “Nacional empata no Dragão”. Adormeci como acordei, encolhido e fofinho debaixo dos cobertores e a cabeça “acamada” na almofada com um sorriso de menino, que conseguiu um beijo nessa noite, que vai guardar para toda a vida!

sábado, 16 de novembro de 2013

E a Trofa também é minha!

Bom dia amigos(as), o texto deste fim de semana, vão encontrá-lo no blogue eatrofaeminha, cujos administradores tiveram a gentileza de me convidar para escrever. Foi um prazer ter participado neste projecto sério e independente sobre a realidade trofense. Espreitem em,
http://eatrofaeminha.wordpress.com/

domingo, 10 de novembro de 2013

Vendedor de sonhos.

No parque estão dois palanques montados, cada um deles com as cores do seu respectivo partido. Neste cenário, há o facto bizarro dos dois comícios estarem marcados para a mesma hora!
À espera dos discursadores, candidatos a um cargo que interfere directamente com a vida das pessoas dessa terra de que não me lembro o nome, e nem sei se existe, está a população ainda mais bizarra do que o cenário.
Como não me lembro do nome da terra e nem sei se existe, embora julgue que fique próximo da Trofa, chamemos à população de jupiterianos.
Os jupiterianos são fervorosos adeptos de futebol, cada um com o seu clube, uns gostam mais de Magnum e outros de Perna de Pau, outros ainda não trocam um belo iogurte líquido por nenhum dos outros gelados, há quem goste de homens ou mulheres e quem goste dos dois, há quem goste de ginásio e quem goste de estar parado, há quem goste de se indignar e quem goste de meditar,…, mas o que os distingue dos habitantes das outras terras, apesar de não ter a certeza de esta pertencer ao nosso país, é o facto de nenhum jupiteriano ter partido político e gostar de ouvir a realidade e as verdades dos seus políticos…apreciam neles a honestidade!

Nesta noite de discursos, os jupiterianos não estão distribuídos pelos palanques, mas aproximam-se do que está próximo da figueira, onde começa a horas o discurso de um dos candidatos.
Após a apresentação pessoal, este candidato, chamemos-lhe de “A”, traça a história da freguesia, para dar a perceber em que sentido a terra evoluiu em consequência das políticas tomadas. Ao palanque próximo da pereira chega o candidato “B”, atrasado e sem audiência para quem falar, mesmo assim arrisca: – Boa noite!
Por norma, os jupiterianos não se deixam distrair por atrasados, mas mesmo assim o Antunes olha para a esquerda em direcção ao palanque próximo da pereira e quando avista o candidato “B”, pensa – “Seu anormal! Eu que perdi uma perna numa aposta estúpida, um braço num acidente de trabalho e uma mão por causa de outra aposta ainda mais estúpida, sou obrigado a andar ao pé-coxinho e por isso tomo horas para não me atrasar, mas tu…francamente!” – após este pensamento indignado, Antunes volta-se para a frente e prende a sua atenção ao candidato “A”.
Este continua o discurso apresentando o cenário actual, que compara a uma pega de touros em que os forcados estão de costas para o animal – Temos que nos virar de frente! – diz.
Os jupiterianos acenam em concordância, e o Sr. Antero ainda com mais vigor, motivado pela própria experiência, lembrando o dia em que ao atravessar a estrada, chamaram-no, volta-se, e leva por trás uma trombada de uma motorizada. “Parecia um touro”, diz sempre que lembra o acontecimento. Desde então nunca virou costas ao atravessar a estrada.
Do outro lado, o candidato “B” apercebendo-se que não iria conseguir competir em seriedade, tenta do seu palanque chamar a atenção, dizendo: – Comigo, vai entrar dinheiro fresquinho na casa de todas as pessoas, logo pela manhã, juntamente com o pão quentinho!
Ao ouvirem isto, uma parte dos jupiterianos, que prestavam o máximo de atenção ao candidato “A”, não resistiram em olhar para o outro palanque, tendo alguns exclamado: – O quê?!
Mas perante tamanha baboseira, a atenção revirou-se novamente para o palanque próximo da figueira.
- …e as pessoas vão deixar de pagar renda! – dispara o candidato “B”.
Estas duas baboseiras seguidas, turvou de tal forma a mente de alguns jupiterianos, que uma parte considerável deslocou-se do palanque próximo da figueira para o próximo da pereira, para ouvir o candidato “B”, que tenho a certeza que existe.
Mas o candidato “A”, que acho que não existe, agora com menos gente a ouvi-lo, mantinha o seu rigor, explicando o que se podia fazer com aquilo que se tinha, enquanto o candidato “B”, no seu palanque, garantia haver condições para aumentar o fim-de-semana para três dias e aumentar os vencimentos. Ao ouvir isto, os que ainda se mantinham magneticamente agarrados em frente ao palanque próximo da figueira, mudaram-se para o outro lado, ávidos para ouvir quem lhes apregoava ilusões em forma de realidade, com excepção do Antunes!
- A vida não vai ser fácil! – diz o candidato “A”!
- Comigo, todos vão ter uma vida perfeita! – declara o candidato “B”.
Ao ouvir isto, Antunes “pé-coxeia”, como nunca tinha “pé-coxeado” antes e baba-se em frente ao palanque do candidato “B”.
Pela cabeça de cada jupitureano, passava o que cada um entendia como “vida perfeita”, e abraçavam-se comentando uns com os outros “Agora é que vai ser!”

O candidato “B” venceu, de forma esmagadora, e a vida dos jupiterianos ficou muito, mas muito…

domingo, 3 de novembro de 2013

Social Virtual.

Já era tarde e, também, tardava a fechar o computador. Apesar do dia ter corrido bem na vida real, ao serão ainda não tinha conseguido “postar” nada queriducho, estilo “eu dava a vida pelo pai natal”, ou pseudo-inteligente, do tipo que ninguém percebe, mas onde se faz um “like” por via das dúvidas para não se fazer má figura. Algo que também me estava a deixar tenso era o facto de ainda não ter recebido nenhum pedido de amizade, confirmando a estatística do facebook de um por dia, uma das razões porque abdiquei da realidade, em prol do “social virtual”!
Era já era muito tarde quando “cai” um pedido de amizade. Sôfrego, clico no ícone para avistar o pedido. Era uma figura estranha, com um nome estranho e que vive na Índia. De imediato aceitei aliviado, fechei o computador e fui-me deitar. Este novo amigo relaxou-me o suficiente para não ter que tomar a medicação para dormir: – Obrigado bom amigo! – pensei…

De manhã acordo de um pesadelo, em que estava no meio de uma tempestade, com o sol a entrar pela janela! É sábado de manhã, o momento oportuno para partilhar algo ligeiro e queriducho, que não tinha conseguido postar na noite anterior: – Estava a sonhar com água e está sol…LOL! J.
Fiquei paralisado, sentado na cama, à espera de ânimo para seguir a minha vida! Essa fonte de energia, para carregar as minhas “baterias vazias”, chegou trinta e sete minutos depois, com um “like” do meu novo amigo indiano! Levantei-me, preparei-me e fui até ao café. Não combinei nada com ninguém…aparece sempre alguém conhecido!
Quando entro na pastelaria, lá estavam três amigos, não daqueles “old fashion”, que esboçam emoções quando nos vêem, mas daqueles, do “social virtual”, que nos fazem parecer invisíveis aos seus olhos, mesmo estando ao lado deles. Como mandam as regras destas amizades que nos acrescentam valor, nem nos olhamos!
Já na mesa, a empregada pousa a chávena de café que pedi. Tiro uma fotografia à chávena, que partilho no Facebook com o comentário: – Pedi um café curto e a chávena veio, quase cheia J!
Num curto espaço de tempo, os meus três amigos, espalhados em três mesas da pastelaria, fizeram “like”, ou comentaram a minha fotografia, a que se juntaram mais pessoas comentando que lhes aconteceu o mesmo nessa pastelaria…aos poucos fomos descobrindo que a máquina devia ter um problema de dosagem…e assim fomos trocando opiniões sobre o assunto, enquanto a realidade crua aparecia nas notícias que passavam na televisão!
Lá tomei o café cheio, que tinha pedido curto, paguei e saí, sem olhar os meus amigos!
No regresso a casa, cruzo-me com o Joquinha, amigo de adolescência, que rasga um sorriso e me cumprimenta com alegria. Envergonhado e olhando para o chão, digo-lhe: – Tudo bem? – e apresso o passo. Continuo a minha caminhada e já recomposto do triste episódio, vejo que em sentido contrário vem a Lurdes, minha amiga virtual e com quem nunca falei pessoalmente, como mandam as regras.
Depois de nos cruzarmos, ela a olhar para a direita e eu para o ar, ouço um berro. Olho para trás e vejo a Lurdes deitada, agarrada à perna. Volto atrás, “saco” de telemóvel e com um braço por cima da Lurdes e virado para a câmara, com um sorriso bonito, tiro uma fotografia e sigo caminho. Durante o trajecto “posto” a fotografia com a mensagem: – A Lurdes está deitada, com um entorse, na Avenida da Estação Nova. Bora lá ajudar, agradeço a partilha!
Este meu gesto, fez-me sentir bem e leve, e foi suficiente para não me deixar abater pelos cinco mendigos e crianças a chorar, por quem me cruzei a seguir...
Durante o dia as partilhas foram-se sucedendo e já ao final da tarde, o Telmo, cuja amizade estamos a tentar recuperar, após o ter cumprimentado quando nos cruzamos na rua, depois de uma amizade solidificada no “social virtual”, “posta” nova fotografia da Lurdes, com a mensagem: – A Lurdes já não está no mesmo sítio! Arrastou-se e continua agarrada à perna no Largo de S. Martinho! Partilhem.
Novamente ansioso, desta vez para recuperar uma amizade, partilhei a fotografia da Lurdes, para ajudar o Telmo a sentir-se bonzinho!

Sorte da Lurdes em ter-nos como amigos!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Aniversário/Advertising.

Hoje, 25 de Outubro de 2013, faz um ano que “postei” o primeiro texto, “Sábado, dia porreiro!”, neste blogue, “Escrita com Norte.”.
O nome do blogue surgiu, porque obviamente é escrita, e porque quem escreve (eu) é do Norte (Trofa) e pretende ter norte nas ideias. Este trocadilho, meio enigmático, género Dan Brow, dá estilo e é bonito…achei eu, e continuo a achar!
No dia em que o anunciei ao mundo (entenda-se grupo de amigos facebookianos), através desta rede social, foi da seguinte forma:

“Boa noite a todos, tendo 38 anos e para o ano fazendo 40, esta conta baralha-me a cabeça, porque deita por terra a certeza do 1+1=2.
Mas o que me confunde mais são os comentadores de televisão e bloguers, uma boa parte ex-políticos, que ajudaram a afundar o país, a dar palpites salvadores! Como tal, e sendo um pouco mais responsável, acho-me no direito de palpitar e publicar as minhas tretas no blogue que criei, com um pormenor de classe…tretas diversas, sobre o mundo, o país e a minha rua!
Convido-os a visitar o endereço www.escritacomnorte.blogspot.pt, e a palpitar.

Obrigado pela atenção!”

Mas a verdadeira intenção, não era mostrar ao mundo (entenda-se grupo de amigos facebookianos), que sou uma pessoa de extremo interesse intelectual e que tenho opinião sobre tudo. Porque isso, nós portugueses, temos gravado a ferros quentes nos nossos genes, e alguns com uma capacidade de indignação de fazer inveja ao Francisco Louçã ou a um qualquer político de oposição!
No dia 25/10/2012, estava a ser preparado o lançamento do meu 1º livro, e até agora único, com o título “Venceslau e outras histórias.”, que aconteceria em Dezembro, e por esta altura já me começavam a perguntar como era.
Para não cair no exagero dos opostos, ou seja, não ser demasiado modesto, ou demonstrar total falta de modéstia, a falar do livro que estava para vir, criei este blogue, arranjando forma fácil de responder à pergunta: - Como é a tua escrita?
Perante a pergunta, convido as pessoas a visitar o blogue e a descobrirem como escrevo, por si próprias!

O livro “Venceslau e outras histórias” é constituído por três histórias, a primeira, “Venceslau Júnior”; a segunda, “Zé Musgo” e a terceira “Eça Opes” com muitas outras personagens que interagem com as principais!
Há pouco tempo, um amigo conhecedor do livro, comentou que ler este livro é como “ir na auto estrada a 120 km e de repente meter marcha atrás!” Parece estúpido? Parece! Mas mergulhando no livro, entramos num mundo em que o absurdo faz sentido.
Deixo-vos duas, das várias críticas, que recebi, a primeira de um conhecido e a segundo de um desconhecido, que fez chegar a sua opinião até mim:

“A primeira das três estórias já li. Foi muito bom rir sozinho enquanto me tentava colocar naqueles lugares tentando ajustar cada personagem a uma realidade que de facto existe. A originalidade da viagem que o José Calheiros faz até ao mais simples do nosso povo e da nossa sociedade está surpreendente, recomendo que não percam e não deixem de comprar, é uma forma divertida de ver o que de mais genuíno existe. Todos temos em nós um pouco de Venceslau, e se não temos devíamos ter.”

“Um dia destes fui à Baixa do Porto e dei comigo a descer à zona da Ribeira. Já algum tempo que não ia lá, mas tinha ainda muito presente as imagens criadas pelo livro “Venceslau e outras histórias” de José Calheiros. As imagens são de tal forma reais, que me vi, quase inconscientemente, à procura do bar da “Associação dos Passarinhos de Miragaia”. Esperava encontrar lá os amigos Travassos e Peiroteu a conversarem com o Venceslau, com três minis á frente.
Percorri as ruas lentamente a pé, e esperava a todo o momento encontrar o Venceslau Júnior a “roçar o rabinho” nas esquinas, ou a Rosa (não sei porquê, imagino a Rosa, gorda, de buço, de leggings rosa, a mostrar umas curvas disformes e barriga empinada).
O que quero dizer, é que este livro somos nós, ou melhor, o lado “tosco” e risível de nós. Rimo-nos a valer porque reconhecemos as personagens, da as termos visto alguma vez, passando por nós, quase invisíveis. “Elas” existem e José Calheiros deu-lhes visibilidade da melhor forma, com um sentido de humor deveras singular.”

Uma semana após o lançamento da minha OBRA, como lhe chamam na editora, e já me tendo esquecido de muitos pormenores das histórias, li-o como se fosse a primeira vez e não conhecesse o autor. Tentei manter o distanciamento possível, para ter uma opinião honesta, e agora, sem receios de exageros, posso dizer que o livro, como escrita de entretenimento, é muito bom!

Quem ainda não leu e estiver interessado em adquiri-lo, pode falar comigo, pois tenho sempre alguns exemplares, ou pode fazer a compra on-line, através da Wook, da Bertrand e ainda pela Fnac. Também está à venda em algumas livrarias tradicionais. O preço de venda é de 11 €.

Se o blogue ainda não “morreu”, é graças à minha vontade de escrever e a vós, que o ledes.


Obrigado a todos pela receptividade e agradeço que partilhem!

domingo, 20 de outubro de 2013

Quase que chegava atrasado!

Estava na fase entre o sono e o despertar, aquela que não sabemos se estamos a dormir acordados ou a sonhar que estamos despertos e apercebo-me de três barulhos, o miar das minhas gatas, o toque do despertador, que por norma me obrigam a sair da cama, mas o outro som, o da chuva a cair lá fora, que me faz desejar que esteja a sonhar que estou acordado! Mas num vislumbre de realismo lembrei-me – Tenho consulta no hospital!
Passo por um momento de ódio ao mundo, que dura sete segundos, e pincho da cama, muito mais reflexo de uma obrigação do que de uma vontade.
São oito horas e doze minutos, lavo a cara, tomo o pequeno-almoço, lavo os dentes, visto-me, dou de comer à Clarinha e à Julieta, as minhas gatas, e vou rápido para o hospital, onde tenho consulta às nove horas.
Já no hospital sou atendido por uma menina, que me pede para aguardar que me chamem, ao fundo do corredor.
São oito horas e cinquenta e oito minutos e já estou na sala de espera. Quase que chegava atrasado!
Poucos momentos depois, abre-se uma porta, de onde aparece uma outra menina, que chama:
 – Sr. José… - “Sou eu!”, pensei, e a menina prossegue - …Vasques! Sr. José Vasques!
- Não, não! Sr. José…Sr. José Calheiros! – Digo eu para a menina, corrigindo-a.
Pelas minhas costas aparece um senhor de idade:
 - Sou eu, menina!
- Faça o favor de entrar, Sr. Vasques
Olho para o relógio. São nove horas e três minutos e pensei, “Devem chamar-me a seguir!”.
A mesma menina, mas por vezes outra, abriam a porta e chamavam sempre, ou por uma senhora, ou por um José, que teimava em não ser Calheiros…e eu continuava à espera!
As pessoas eram atendidas e iam-se embora, outras chegavam e eu continuava à espera. Este jogo de cadeiras na sala de espera do hospital da minha terra parecia mais uma actividade de tempos livres para idosos, fazendo com que eu, com trinta e nove anos, me sentisse um puto.
No vai e vem de gente, naquela sala, nem uma mulher jovem e gira, para eu encher o “papo” e me sentir apreciado e melhor passar o tempo…sim, vivo nesta ilusão, fruto de meia dúzia de elogios recebidos entre 1989 e 1993.
São dez horas e vinte e cinco minutos, e por detrás da porta aparece novamente a menina, a chamar:
- Sr. José…
E eu completo - …Calheiros. José Calheiros!
E a menina continua -… António Azevedo.
Ainda não era a minha vez. E cansado de estar de pé, sento-me; e cansado de estar sentado, levanto-me, e por mim passa a Dona Rosa, pessoa que quando fico até mais tarde no trabalho, aparece para limpar o gabinete.
- Olá, bom dia! – Cumprimenta-me.
- Olá Dona Rosa, por aqui?! Está tudo bem?
Após esta pergunta inocente, carregada de boa educação e acompanhada por um sorriso, Dona Rosa metralha-me com todos os seus problemas de saúde (como se lhe dessem algum conforto e sentido à vida), mais os da sua cunhada, que ainda consegue estar em pior estado!
- Sr. José! Sr. José Calheiros, é a sua vez. – Chama-me a menina, protegida pela porta.
Depois de ouvir a Dona Rosa, hesitei em responder ao chamamento da menina…sentia-me com saúde para dar e vender, mas lá entrei, já sem saber do que me queixar ao Sr. Doutor!

Saí do Hospital da Trofa às dez horas e quarenta e nove minutos. Dos três encontros marcados para depois da consulta, o primeiro dos quais ás dez horas, cheguei atrasado, tendo estas pessoas chegado atrasadas ao seus compromissos posteriores.
À noite nas notícias, ouço, “Barack Obama, está há três horas, à espera de Sérgio Humberto, candidato vencedor à Câmara da Trofa, para uma reunião!”.
Ups, ainda bem que não cheguei atrasado…à consulta!

domingo, 13 de outubro de 2013

Politicamente (in)correcto.

Zé Nabo é um homem responsável, que zela pela família e tenta transmitir os mesmos valores que recebeu de seu pai, o respeito pelos outros e a ter uma vida honesta, sem enganos. Abomina de tal forma a mentira, que ainda hoje tem dificuldades em adormecer, pelo facto de um dia um estranho lhe perguntar o caminho para o registo civil e ele dizer para seguir em frente e virar à direita na quarta rua, quando deveria virar na quinta.

Como pensa que um país é como uma casa, e vendo o que se passa com o seu, de fronteiras escancaradas, sempre que sai de manhã com a sua família, fecha as janelas e tranca a porta.
Num fim de tarde, quando chega a casa com a família e está a abrir a porta, é interpelado por Álvaro, dirigente de uma ONG, de barba, cabelo despenteado e camisola de bico com um padrão aos losangos, que se faz acompanhar de um “farrapo”, nitidamente consumido pela droga.
- O senhor é o dono desta casa? – Pergunta em tom arrogante.
- Sim! – Responde Zé Nabo, admirado com a intervenção daquele estranho.
- Pois é! Está a ver este jovem? – Pergunta, apontando para o toxicodependente.
- Simmm!
- Ele, hoje, tentou assaltar a sua casa, mas como vocês têm tudo fechadinho, ao forçar a janela o vidro partiu e cortou-se na mão. Teve que receber tratamento hospitalar! – Diz Álvaro, irritado.
- Ui, é melhor chamar a polícia! – Diz a Sra. Maria Nabo, assustada com a ideia de intrusos no seu lar.
- Polícia, minha senhora?! Os senhores vão é pagar os tratamentos deste jovem desgraçado e não fosse o seu bom coração, iriam ter problemas em tribunal!

Depois de entregar o dinheiro do tratamento e de pedir desculpas, para evitar danos psicológicos no toxicodependente, entra em casa atordoado com a bizarria da realidade.
Sem jantar, vão todos dormir, porque certamente estavam a ter um sonho colectivo e o melhor sítio para o viver é na cama e pela manhã ao despertarem, tudo teria passado!
Uma hora depois de o novo dia ter começado na casa do Zé Nabo, toda a família sai aprumada. Zé Nabo fecha a porta à chave e ao dirigirem-se para o carro, a família ouve:
- Com que então a trancarem a porta?! É mesmo para complicar a vida aos desgraçadinhos…bando de insensíveis!
Quando Zé Nabo, a esposa e os dois filhos olham na direcção da voz, vêm Álvaro e são puxados para o mundo real, que lhes tinha parecido um sonho, no dia anterior!
- Mas o que é que o senhor quer? – Pergunta Zé Nabo, num misto de irritação e desapontamento.
Na realidade, Álvaro, queria manter o “tacho” que lhe dava alguma importância na ONG, porque nunca se conformou com o trabalho apagado, mas sério, na fábrica onde trabalhava.
- A sua família está referenciada como “desconfiada” e …”racista”! – Determina Álvaro.
- Desconfiada e racista?!!! Eu tranco a casa para proteger o que é meu!
- Não, não! O senhor tem maus instintos ao querer complicar a vida dos mais necessitados! – Diz Álvaro, prosseguindo – Quer que outro drogadinho aleije a mãozinha ao entrar em sua casa? Por que razão quer complicar o assalto dos ciganinhos, para lhe roubarem a roupa, para venderem na feira, ah? Só quer que a sua vida corra bem? E os ilegais, sem emprego?! Como quer que comam se lhes tranca a casa?
- Mas a casa é minha?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- ABRA JÁ A CASA, PARA OS DROGADINHOS E AFINS, SEU INGRATO…E PONHA-SE A ANDAR. – Ordena Álvaro, com o corpo esticadinho.
Num instante, como quem recebe a ordem de uma patente militar superior, abre a casa e ausenta-se, desta cena de filme, com a família.
À noite, chegados a casa, ouvem imenso barulho. Quando entram na sala, está acampado um clã cigano a festejar um casamento, avançam na casa e os quartos estão tomados por ilegais africanos, e de leste, e sul-americanos…, na casa de banho encontraram mortos-vivos de seringas penduradas nos braços. Na casa, o único espaço de vago é a cozinha e é de lá que telefonam à polícia de onde respondem:
- Caro senhor, compreendo a sua preocupação, mas da parte da tarde recebemos uma chamado do Sr. Álvaro, a transmitir que “desgraçadinhos coitadinhos” encontraram a dispensa fechada! Tivemos que ir aí arrombá-la. Para a próxima deixe tudo aberto, Sr. Zé Nabo, poupa trabalho a todos. – Responde o comissário de serviço.
A família Nabo, instala-se na cozinha e tenta adormecer depressa, com o desejo, mais forte do que nunca, de que tudo aquilo seja mesmo um sonho.
Pela manhã, em vez de acordarem ao som do despertador, acordam sobressaltados com os berros de uma mulher, a gritar- SANGUE! SANGUE! SANGUE!...
Zé Nabo, abre uma frincha na porta da cozinha e vê, a correr pelo corredor, uma cigana de idade, com um lençol manchado de vermelho. Volta a fechar a porta e virado para a família, diz – Não morreu ninguém, a noiva era virgem! Vamos embora depressa!
Saídos de casa, a vontade era a de regressar o mais tarde possível. Só quando já não aguentam o frio da noite, regressam a casa. A algazarra continua, e os Nabos seguem o corredor directos ao único espaço que não está tomado, a cozinha. Estranhamente, por cima da porta está instalado um reclame luminoso com caracteres esquisitos!
Zé Nabo abre a porta e vê meia dúzia de chinocas a bater umas cartas e uma roleta a girar na marquise…a cozinha está transformada em casino. Zé Nabo olha para trás e das paredes do corredor desapareceram as fotografias de família e dos seus antepassados. Roubaram a sua história e agora sem espaço para eles, sentem-se uns estranhos na própria casa! Foram dormir para o quintal.
No dia seguinte o ritual desta estranha realidade, repetiu-se. A família saiu logo pela manhã e Zé Nabo apercebe-se da presença de Álvaro, que pergunta a alguém:
- Estão a ser bem tratados?
Ao qual, esse alguém responde – Os donos da casa olham para nós com cara de esquisitinhos!
- Pois é! Depois não querem que vocês sejam uns revoltados…discriminados desta maneira! Mas a minha ONG está aqui para vos proteger. – Conclui, seguro, Álvaro.
Nessa noite, quando chegam a casa, os Nabos, arriscam espreitar se têm um lugar na própria casa. Quando entram no corredor, vive-se um ambiente de guerra, pelos desentendimentos de pessoas tão diferentes. Assustado com o cenário, quando antes os desentendimentos naquela casa, eram meras discussões porque deixava um chinelo fora do sítio ou um raspanete aos miúdos, Zé, mais num acto irreflectido do que racional, grita – PAREM! Saiam já da minha casa.
De inimigos, os ocupantes da casa unem-se e “apertam” a família Nabo, que sentindo-se ameaçada, consegue escapar para dentro da dispensa, levando consigo um livro de história!
- O que vamos fazer? – Perguntam os filhos.
Zé Nabo abre o livro e lê-lhes “…confinados a um buraco na montanha, lutaram, liderados por Pelágio, rechaçando o inimigo ocupante. Desta maneira se formou o Reino das Astúrias e se iniciou a Reconquista Cristã, isto é, a recuperação dos territórios em poder dos Muçulmanos. A Reconquista cristã, durou oito séculos, cheios de guerras, mas também de periodos de paz.”

Cinco dias depois, os Nabos, liderados por Zé, já controlavam a dispensa, a cozinha e os quartos, vivendo neste momento um período de relativa paz com os ciganinhos, ocupantes da sala, e com os toxicodependentes, ocupantes da casa de banho. Álvaro, para manter o “tacho” na ONG, é agora um acérrimo defensor dessa minoria…os Nabos!