domingo, 26 de janeiro de 2014

Terráqueo! Eu?!

Já ouvi um pouco de tudo, desde a Ciência e a Religião serem antagónicas, passando pelos cientistas crentes em Deus até à Religião e Ciência se complementarem. E neste último caso, é facto que muitos historiadores e arqueólogos se basearam na Bíblia para descobrirem ou identificarem lugares julgados perdidos.
Apesar de me achar um ser evoluído e utilizador da razão,o que me dá um toque moderno e sofisticado permitindo-me deambular entre teorias, e nestas alturas peço a Deus para ninguém me interromper porque não as sei explicar, quero crer, porque me interessa, que a Bíblia tem razão ao identificar vida apenas no nosso planeta, apesar de não entender porque Deus fez o Homem à sua imagem, quando pelo que se vê, podia tê-lo feito um pouco melhor...

Esta minha crença de vida apenas no nosso planeta tem a ver com vergonha e status, da mesma forma, que certamente um habitante de Mogege tem vergonha em dizer onde mora. Não é muito bonito dizer, numa intervenção inter-planetária, “Eu sou um Terráqueo”. Já estou a imaginar o sorrisinho dos Venusianos e Uranianos, habitantes de planetas com estilo, equivalente ou melhor do que ser um Terráqueo a morar no Parque das nações!
Um dia que me apareça um ser extraterrestre e me pedir o cartão do cidadão, ele vai verificar que sou naturalmente Terráqueo e Terráqueo de residência…que parolice!
Se ao menos houvesse maternidades na Lua e a minha mãe lá tivesse o parto, poderia dizer que sou naturalmente Lunático e Terráqueo por obrigação. Como vêem, tenho vergonha de ser Terráqueo e se fosse rico e pudesse escolher, vivia em Neptuno e escondiria a minha origem saloia, diria apenas, “Sou Neptuniano e Sportinguista!”.

Estava uma destas noites em casa (casado e com quarenta, é onde estamos quase sempre) a olhar cá para fora e a ver a chuva a cair, quando vejo uma luz, a piscar, a atravessar o céu....que susto…afinal era um avião! E com o susto “tombei” num sono que me trouxe um sonho!

“Saturday night, vinte aninhos, estava eu na Gravity Disco Sound, de Marte, local onde não me sentia muito mal, porque os marcianos são tão parolos quanto eu, e é com eles que, nós terráquios, disputamos o derby mais quentinho desse desporto chamado futebol, a cair em desuso no Universo!
Enquanto dava uns “goles” numa bebida espirituosa, cuja fórmula química é segredo do barman que já trabalhou no Via Láctea Swing  Stereo Sound, de Plutão, e batia o pé ao som de uma nova banda de música de discoteca, os “BeeXees” de Saturno, uma miúda, pelo menos parecia-me, vem ter comigo e diz-me:
- Olá!
Pelo aspecto não é terráquia e pelo sotaque não me pareceu marciana.
- Olá! – respondo com outro cumprimento.
- És bem feiinho! – diz-me, insinuando-se.
Apesar de, certamente, não o ser como terráqueo, naquele espaço nocturno, de onde vinham seres de todo o Sistema Solar, de aspectos muito diferentes, como aquele ser com quem conversava, não sei de que planeta, tínhamos algo em comum, tínhamos dois olhos na cara!
- Há quem ache o contrário. – respondo.
- Já agora eu sou a XW, vim com a minha prima OW, e somos de Júpiter. E Tu?
- Eu sou o Zéquinha! – respondo.
- Que nome! – diz a XW, prosseguindo – E aonde moras?
- Na Trofa.
- Aonde fica? – insiste a XW.
- Em Portugal.
- Sim, mas onde?
- Na Europa.
- Não estás a perceber Zéquinha! De que planeta vens?
A XW fez a pergunta à qual tento escapar e que feita de forma tão directa obriga-me a mentir.
- Sou Neptuniano, moro em Neptuno! – menti.
- Uau, que chique, Neptuno! Sabeis cuidar do que è vosso e tendes o planeta sempre limpinho! – diz XW, entusiasmada.
A noite prosseguiu animada, baseada numa mentira!
À hora de ir embora despeço-me e vou para o terminal do Desmetropolitano Inter-galáctico. Sem saber, fui seguido pela XW que queria ver partir por quem se apaixonou. Estranhou ao não me ver entrar no Desmetropolitano para Neptuno e desiludiu-se quando entrei no Desmetropolitano com destino para a Terra via Lua!

Oh, afinal é um Terráqueo, que bimbo!”

domingo, 19 de janeiro de 2014

Transformers.

Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo. Esta afirmação pode ser discutível.
Indiscutível, é o melhor jogo de futebol do mundo. Poderá haver um ou outro que dirá, “O melhor foi o jogo de Portugal contra a Coreia, em 1966!” ou um sportinguista, como eu, revivalista, poderá dizer, “Foi o jogo em que o Sporting ganhou a Taça das Taças!”, com o famoso “cantinho do Morais”, mas o melhor jogo de futebol do mundo, repete-se sábado após sábado, às cinco da tarde nas coordenadas 41° 20.088', -8° 33.808´, correspondentes ao pavilhão do Liceu da Trofa, Porto, Portugal, Planeta Terra.
Permito-me esta precisão, não vá haver vida além Terra, e um qualquer extraterrestre confundir o pavilhão do Liceu da minha cidade, com uma Trofa em Marte!
E é o melhor, não só pelos cinco a dez minutos de futebol bem praticado (que correspondem, curiosamente aos momentos em que tenho a bola nos pezinhos), no espaço de uma hora, mas também pelo fenómeno transformista que se verifica naquele grupo de dez amigos, ao estilo de super-heróis, mas ao contrário! Se Clark Kent, quando tira o fato, traz paz ao mundo como super-homem, já nós…!

Se antes do pontapé de saída, o mítico Gabriel Alves, fizesse a apresentação das equipas, seria: “Mário, simples e bom rapaz; Dário, tão calmo que mete impressão a um mestre de Ioga; Joquinha, brincalhão e gordo; Nando, o homem para quem está tudo bem; Jálita, o teórico; Beta, o professor de educação física, sem jeito nenhum para o desporto; Pedro, assertivo e educado; Mindo, prático e sério; João, rígido de princípios e usa o mesmo corte de cabelo desde os sete anos e Calheiros, uma jóia de rapaz;… As equipas estão alinhadas cada uma na sua metade do campo eeeeeeeee começa o jogo!”

É até aqui, altura em que começa o jogo, que tudo está bem. Mas invariavelmente há sempre um vencedor, raramente há empates, e é nos elementos da equipa que perde que geralmente se assiste a uma transformação de personalidade, que ao contrário de Clark Kent, não é para salvar uma velhinha em apuros!
No jogo de ontem, como poderia ser noutro qualquer, se estivessem alguns eleitores e cientistas de várias áreas a assistir, iriam fazer descobertas espantosas!
Logo a começar pelos Mários, bons rapazes, que se vão transformando em seres primitivos, tanto no comportamento como fisicamente. Começam o jogo com a cara limpa e terminam a espumar e de barba. Um antropólogo descobriria nestes seres, o elo perdido entre os hominídeos e os Australopitecos! Já nos Nandos, os pacíficos, um psiquiatra descobriria a doença tripolar ou quadripolar, tantas são as variações de personalidade apresentadas numa horinha apenas, chegando eu, como adversário, a pensar que o Nando está sempre a ser substituído! Já um estudioso de Ciências Políticas focaria a sua atenção nos Dários, os calmos, mas que durante o jogo, usam manhas discretas, ou não, para atingir os seus fins, transformando-se em “falsos”. Já os Joquinhas, os brincalhões, seriam a delícia dos matemáticos que veriam neles a propriedade comutativa da adição, em que se pode alterar a ordem das parcelas, sem que o resultado se altere, nem aquecem nem arrefecem. Nos tempos de escola só jogavam quando levavam a bola . Já os…
Quanto aos eleitores, entre os Mindos, Joões e Calheiros, prefeririam o último, que se assemelha a uma bandeirinha ou autocolante de campanha, porque o que quer é ganhar!

Este grupo de amigos, que muito amiúde, não consegue fazer as pazes no balneário, e ainda bem porque a simples ideia me assusta, vão à sua tasca de eleição, “A Canzoada”, beber o “copo da paz”, e regressar àquilo que verdadeiramente são…ou não!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Sê interessante! Indigna-te!

Luís Vaz, um jovem adulto a rondar os quarenta anos, lembra-se perfeitamente de alguns episódios da pré-adolescência e adolescência, com um sorriso. Lembra-se da admiração que ele e os amiguinhos tinham por outro amigo, o Pedro Álvares, que quando se cruzava com uma miúda, como que por milagre engrossava a voz como se já tivesse vinte anos, quando ainda só tinham doze e com a voz aguda e melada, dizia: – Olá!
De seguida, para os amigos, recuperava a voz fina e estridente e comentava: – Esta é que é boa!
Além do engrossamento de voz, outra característica que fazia a geração de Luís Vaz parecer interessante aos olhos das meninas, era ter os pais divorciados ou ter problemas com eles, e o píncaro do “puto” interessante era juntar um amigo drogado aos restantes problemas familiares.
Mas como diz o ditado, e com razão, “És mais velho, és interessante de outra forma!”, e se Luís Vaz quiser ser interessante, tem de…

Luís Vaz ia a caminhar pelo passeio, enquanto seus olhos admiravam o lado rural que a cidade ainda mantinha, e a sua cabeça entretinha-se a juntar letras e palavras. Este estado, muito natural em Luís Vaz, é interrompido por berros a uma só voz e buzinadelas insistentes com o mesmo tom!
Todo esse ruído vinha do único carro que fazia a avenida, com o seu condutor em fúria, espumando frases de indignação, pelo facto de ele achar que o Eusébio deveria ir para o Panteão Nacional!
Ao reconhecer a “figura”, Luís Vaz faz sinal de paragem e cumprimenta o seu amigo. Para o sossegar, comenta-lhe:
- Não te preocupes, Viriato, estão todos os partidos do arco do poder de acordo, é provável que ele vá para lá! Eu até acho que ele deveria ter sepultura no estádio da Luz!
- Então estás indignado?
- Não! – responde.
Viriato enlouquece novamente e arranca intempestivamente aos berros e com buzinadelas.
Um pouco abalado, Luís Vaz para no primeiro café por onde passa, para tomar um e tentar recompor-se. Já sentado, vem a empregada, de sorriso cintilante e pergunta:
- O que deseja?
Não tendo coragem para dizer que a desejava, pede o que lhe levou lá.
- Bom dia! Quero um café.
- O QUÊ?!!! SEU CAPITALISTA NEO-LIBERAL E FASCISTA! “EU QUERO”, DIZES TU! SEU DESRESPEITADOR DA CLASSE OPERÁRIA!!!
Das mesas do lado, Luís Vaz, ouvia comentários das outras pessoas, do estilo, “Miúda interessante, está aqui para servir mas não perde a dignidade!”.
Sem saber como reagir Luís Vaz arrisca:
- Não se importa no exercício da sua função remunerada tirar-me um cafézinho?
A empregada, neste momento transformada em diabo indignado, mira-o por longos instantes e vai tirar o café.
Depois de servido apetecia-lhe uma bola de Berlim, que o “namorava” do expositor. Mas, na sua mente, sem encontrar palavras de sentido “uniquíssimo”, nem um modo que não desse azo a outras interpretações, decide virar costas ao bolo.
Com o desejo a consumi-lo, vai a uma grande superfície comprar um “pack” de quatro bolas de Berlim, sem correr riscos de ter de as pedir. Já na caixa, sem nada dizer, para não correr riscos, apresenta o produto à espera que a funcionária da caixa, de sorriso cintilante, lhe diga o preço. Em vez da conta, ouve de forma indignada:
- SEU PORCO MALCRIADO E FASCISTA,…”
Das pessoas atrás da fila, ouvia, “Sim senhora! Está aqui para servir mas não perde a dignidade!”.
Luís Vaz, atarantado, deixa dez euros na “caixa” e não espera pelo troco, tamanha era a vontade que tinha de sair depressa dali. Já no exterior da grande superfície, respira fundo. Quando desperta novamente para o que o rodeia, ouve barulho de gente que protestava indignada contra a fome em África e ao mesmo tempo fazia um peditório, patrocinado por ONG’s.
No meio desta balbúrdia, a pedir para combater a miséria de África, transformada em festa ruidosa, a atenção de Luís Vaz recai para um canto, onde está a Dona Ermelinda, senhora pobre, de cada vez mais parca reforma, que em idosa teve que se sujeitar à humilhação da mendicidade. Luís Vaz aproxima-se e partilha as bolas de Berlim com a dona Ermelinda. Ao serem avistados, possessas, as pessoas indignadamente interessantes da manifestação/peditório, vociferam-lhe:
- SEU VERME SEM PONTA DE INDIGNAÇÃO! SEU FASCISTA AMORAL! FAZ ALGUMA COISA PARA ACABAR COM A FOME NO MUNDO!
Luís Vaz “afasta-se”, sem perceber a lógica destes tempos!

…estar em constante estado de indignação!

domingo, 5 de janeiro de 2014

Massificação.

Tinha o sonho de ser um comando, daqueles que destroem exércitos inteiros…até ir para aquela escola! Nessa escola fiz dois amigos para a vida inteira, o António, que queria ser palhaço, e o Joaquim, que queria ser girafa no Jardim Zoológico (apesar  da baixa estatura, ele tinha muito jeito para imitar as girafas).
No primeiro momento dentro da sala de aulas, a professora, de farda cinzenta, sem maquilhagem e traços rudes, que quase se confundia com um homem, disse-nos:
- Se tendes sonhos, é melhor secá-los. Ides ser todos iguais.
Durante os anos foi-nos ensinada a imoralidade da individualidade, de ter sonhos e de alcançá-los. Impuseram-nos uma felicidade baseada no medo do sucesso (fosse material ou não).
Apesar do meu sonho de menino, aquelas primeiras palavras de há sessenta anos atrás foram um consolo! Como fiquei com medo de ser bem-sucedido, deram-me a mim e aos outros naquela escola, o conforto da mediocridade.
Nunca ninguém se destacou, nem o que estudava, e tirava boas notas, nem os calaceiros (aquilo em que me tornei), com as suas notas suf -.
Não havia mais bonitos e mais arranjados, o pentiadinho tinha o mesmo sem brilho que aqueles que não tomavam banho.
Disse à minha mãe que não precisava de comprar mais perfume, nem pentes para me aprumar logo pela manhã! Por isso e com o passar do tempo, de mais bonito, passei a ser mais um, que namorou com mais uma…e deixámos de ter nome e uma imagem, mas deram-nos uma farda e ficámos todos iguais. Com dificuldade distinguia a rapariga de quem gostava, quando estava junta com as amigas! Ainda hoje tenho dúvidas se a miúda a quem pedi em casamento e hoje é mãe dos meus cinco filhos é a rapariga de quem gostava! Mas também não faz mal, eram todas muito parecidas e interessantes da mesma maneira. As conversas que tinha com uma ou com outra ou até com outro eram todas iguais. Pensávamos o mesmo sobre os mesmos assuntos, tanto naquilo com que concordávamos, como naquilo que nos indignava ou aquilo a que simplesmente encolhíamos os ombros, tudo aprendido do mesmo manual e ensinado pela mesma professora! Não sei o que é discordar dos meus camaradas, denominação ensinada na escola, e nunca discuti com a minha mulher…apesar das dúvidas que ainda tenho sobre ela ser a certa!
Para matar saudades e tentar confirmar quem é aquela que tenho em casa, por vezes olho para uma fotografia de grupo tirada naquele tempo, salvo erro no quarto ano, todos simples, como se quer, apesar de um simplório destoar, o mesmo corte de cabelo, a mesma expressão zangada (aprendida nesse ano) e cinzenta (aprendemos a não sorrir no terceiro ano). Não distingo ninguém, aliás minto, vejo um de nós a esticar o pescoço, e aposto que é o Joaquim, que no seu íntimo nunca deixou de querer ser girafa…era um rebelde. Partilhávamos o mesmo quarto e durante a noite ele ousava sonhar com cores, quando, ainda no primeiro ano, aprendemos a sonhar entre o cinzento e o preto.

O que no início me assustou e depois me consolou, foi que o “MAIS” valia o mesmo que o “MENOS”!

domingo, 29 de dezembro de 2013

Ternura dos quarenta!

Era de manhã e lá fora chovia muito. Quando o telefone toca, eu estava num dos estados mais idílicos que existem, proporcionado pelo binómio quentinho/fofinho, enfiado debaixo dos cobertores.
Perante o toque irritante do telemóvel (tenho que o mudar) a querer separar esse binómio, estico o braço de debaixo dos lençóis e puxo-o para dentro do “casulo”.
- Estou?! – atendo com a voz sonolenta e melada.
- Parabéns filhinho! Como te sentes no teu primeiro dia de quarentão charmoso? – pergunta a minha mãe.
Fui apanhado desprevenido pela pergunta, não pelo lado do charmoso, mas pelo lado do quarentão. No dia anterior, 26 de Dezembro, tinha feito quarenta anos.
Sem saber como me sentia, respondi:
- Sinto-me espectacular!!!
Desligamos e…não foi um sonho!
Passaram quarenta anos desde 26 de Dezembro de 1973 e quarenta anos e dois dias desde que a minha mãe foi para o hospital para me ter. Demorei dois dias para nascer, claro, sentia-me quentinho/fofinho!

Saí da cama com o mesmo custo com que saí do ventre da minha mãe!
Enquanto me arranjava, liguei o rádio. Durante as ultimas escovadelas nos dentes, o radialista que estava a passar música naquela estação faz uma passagem que nem lembra ao diabo, de Beyoncé passa para Paco Bandeira, o gajo que canta “A ternura dos quarenta”.
No final de ouvir a canção e de inconscientemente ter prestado atenção, à letra, pensei, “A canção devia-se chamar, A Ternura dos Oitenta”, e despassarado estava à procura dos meus netos!
A ideia era dar um passeio a pé, mas achei demasiado ternurento depois de ouvir Paco.
 “Faço” o saco e vou para o ginásio…miúdas, música frenética, pesos…altamente jovem!

Depois de equipado, antes de entrar no ginásio, encolho a barriga, como se ainda tivesse trinta e nove e entro pela porta…passo o olhar pela sala e…quatro homens e música de Natal. Relaxei, a barriga também, e virei-me para os pesos.
Enquanto levantava “ferro”, um pouco acima do normal, aqueles quatro exemplares masculinos olhavam-me com admiração! E esse facto, devolvia-me a confiança abalada com a canção do Paco.
Um deles ao reconhecer-me, diz para os outros – É o filho do Calheiros! – e vêm ter comigo, perguntando pelo meu pai. Afinal, eram quatro sessentões e um deles pergunta-me:
- Tu és da idade da minha filha, não és?
- Sim, talvez um ano mais velho!
- Tens trinta e nove?
- Quase, fiz quarenta, ontem!
- Tchiiiiiiii! – exclamam, olhando uns para os outros!
Virei costas e pus-me em frente ao espelho, “Estou igual!”, pensei, “Ou não?!”, voltei a pensar, “Estou, estou!”, convenci-me…e fui embora, achando o ambiente um pouco idoso!
À saída chovia, e enquanto me convencia a iniciar a caminhada até casa, sem guarda-chuva, digna de um espírito rebelde, uma boa amiga, sabendo da efeméride, abraça-me e diz-me:
- Parabéns! Deixa lá, é só um número!
O tom empregue foi o mesmo com que me deram os pêsames, dias antes, com a morte do meu avô…apenas mudava a frase!
- I will survive, Paulinha! – respondi e faço-me à estrada.
Devido à chuva cada vez mais intensa, acelero o passo, quase correndo, até que chego a casa. Pouso o casaco, respiro fundo e pergunto-me como será a pulsação aos quarenta. Meço-a e a máquina batia tão certa como um carro, com pouquíssimos quilómetros, a sair de um stand de usados!
Afinal, eu sentia-me igual ao que era na manhã do dia anterior! Num momento tinha trinta e nove e no outro quarenta..nada mudou!


O que mudou foi a forma com que os outros encararam o meu novo número…pelo sim, pelo não, nesse dia não liguei mais o rádio!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Morreu o Maior.

Desde que me lembro de mim como pessoa, lembro-me do Maior sempre presente, mesmo quando estava ausente!
Os domingos na casa do Maior eram cheios, onde ele reunia a família e no topo da mesa, onde se sentava, os olhares e as conversas passavam por lá…era bem-disposto e gostava de conversas animadas e para completar este quadro de desordem feliz, lá estava a Pantera, a cadela da casa!
A meio da tarde rumávamos ao Cine-Teatro Alves da Cunha, com balcão e onde a primeira fila da plateia eram cinco cadeiras, propositadamente lá instaladas, para mim, para o meu irmão e os meus primos. Estávamos tão próximos da tela que éramos engolidos por ela e sentíamos-nos personagens dos filmes!
O Cine-Teatro Alves da Cunha, foi mandado construir pelo pai do Maior, depois de em finais da década de 20 do século passado, a sala de espectáculos existente na Trofa, ter-se incendiado. Além da sala de espectáculos, o pai do Maior tinhas outros negócios, que lhe valiam respeito, mulheres e muitos filhos bastardos. Tudo isto associado ao fervor republicano, e os fervores não são bons conselheiros (digo eu), o pai do Maior deixou-lhe de herança, não dinheiro, mas o gosto pelas mulheres e uma vontade férrea para fazer o seu caminho!
Já aqui vos mostro que o Maior não é Deus, não quero desumaniza-lo, o Maior era gente!
Gente com a certeza de que o caminho para ter as coisas era o trabalho e ainda adolescente trabalhava numa fábrica e no final fazia uns biscates de electricista. Um desses biscates, num final de tarde, foi na fábrica de chapéus do tio do Maior. Imagino-o a passar os olhos pelas empregadas, mas ao olhar para uma, os olhos param e não avançam. Ela chama-se Maria e o Maior ficou encantado!
Ficando a saber que a Maria tinha vários pretendentes, o Maior tinha a seu favor o facto de ser sobrinho do patrão, mas não queria usar essa arma. Um dia chegou à fala com ela oferecendo-lhe um quilo de figos.
Começaram a namorar, casaram e tiveram duas filhas. E desde que ofereceu esse quilo de figos à Maria, a mulher mais admirável e das mais bonitas que alguma vez conheci, a vontade férrea do Maior em busca de trabalho, para a família estar bem, levou-os por vários sítios. Para a Maria, na altura, apesar das dificuldades, o mundo perfeito era quando estavam os quatro, juntos!
Novamente na Trofa e já definitivamente instalados, uma empresa com duas áreas de negócios começa a crescer, fruto do trabalho do Maior. Uma de electricidade, que lhe valeu instalar a rede eléctrica em Trás-Os-Montes (para quem estiver a ler este texto e estiver nesta região, é provável que todos os postes que ainda existam de madeira, tenham sido instalados por ele e os empregados), e outra, fruto de um encanto de menino, o cinema!

Tenho bem presente, alguns dias, ainda pré-adolescente, em que o Maior me tirava a um dia de brincadeira e punha-me a levantar postes com os empregados. Desde cedo sempre quis mostrar a mim, ao meu irmão e aos meus primos, que sem trabalho não se consegue nada…esse é o segredo…nós não entendíamos!
Com os anos a parte eléctrica foi dando lugar ao cinema e o Maior na década de 80 do século passado era o maior empresário cinematográfico do país, não contando com a Lusomundo, que além de exibidores, também eram (e ainda são) distribuidores, de quem o Maior era o melhor cliente.
Depois veio o vídeo e mais tarde os Multiplex e já ninguém ia aos Cine-Teatros ver filmes. O que se ganhou foi-se perdendo, tendo o Maior vendido a sua última casa, o Cine-Teatro de Anadia, à Câmara local.
Apesar do que ele construiu e perdeu, via nele sempre uma inocência de criança, que não entendia e que o prejudicava. O Maior acreditava nas pessoas, acreditava na palavra dada e no aperto de mão. Desiludiu-se imensas vezes e mesmo assim não deixava de acreditar nas pessoas!!!
Após a “queda” e já mais velho a vontade de continuar a ganhar mundo e de trabalhar eram injecções de rejuvenescimento…e em vez de descansar carregou o cinema às costas!
Se em excursões, as pessoas do interior vinham ver o mar, o Maior e o seu cinema itinerante levaram a sétima arte às pessoas do interior. Tive a felicidade de, nas minhas férias da escola, fazer milhares de quilómetros com o Maior. Não raras vezes, quando chegávamos ao fim do mundo, eu perguntava:
- Já chegámos?
E ele respondia:
- Não! Ainda falta um bocadinho.
Quase sempre, quando parávamos para além do fim do mundo, a surpresa acontecia! Com o Maior fiquei a saber o quanto Portugal é bonito e a perceber as suas gentes…e a ele também!
Ele afinal era como aquelas pessoas do interior, gente de uma palavra e o aperto valia o mesmo que uma assinatura…confiavam uns nos outros! Por isso ele se sentia tão bem, lá!

Foram milhares de quilómetros, milhares de discussões, milhares de pontos de vista diferentes…e milhares de abraços que não te dei! Pensei que tinha todo o tempo do mundo, afinal eras o Maior…e dou por mim a pensar cada vez mais como tu!

Em Março de 2007, a mulher sempre presente, a Micas, como o Maior gostava de a tratar, devido a doença prolongada morreu numa madrugada de sexta para sábado, às quatro da manhã. O Maior passou o resto da noite a falar com a Micas e tenho a certeza que lhe pediu desculpa de algumas coisas…afinal o Maior é humano!

A morte da Maria, a pessoa mais admirável que conheci, foi uma grande perda!

O maior sentiu muito, mas continuou a trabalhar, voltou a casar e a divorciar-se vinte dias depois (é mesmo o Maior), e eu, o meu irmão e um primo, continuávamos a ir com o Maior, por vezes, a uma tasca a Vizela, comer e beber, que alimentava acesas discussões, muitos pontos de vista diferente…e quem estivesse a observar, facilmente se apercebia o quanto aquelas pessoas se gostavam!
Aos oitenta e quatro anos o corpo do Maior começa a fraquejar e sinais de senilidade começaram a aparecer. Quando a boa vontade já não era suficiente para cuidar dele, foi para um lar, na Trofa. “Arrebitou” com a presença das meninas que cuidavam dele e mesmo na doença, levou-nos para um mundo que já existiu e no qual mergulhávamos com ele!
Os nossos encontros eram viagens no tempo, ao estilo “Good bye Lenin”, onde na cabeça do Maior estávamos ainda na década de oitenta, e falávamos da programação para os cinemas, se tinha ido buscar o amplificador à oficina e enviado a publicidade para a Régua,…e de repente o lampejo de realidade e de falta surgia com a pergunta:
- A Micas?
A saúde continuou a degradar-se e começou a fazer umas “visitas” ao hospital, cada vez mais prolongadas. Na última “visita”, não iria regressar ao lar e na minha última visita que lhe fiz, estava ali o corpo do Maior, que só respirava, mas ele já não estava lá…mas os olhos brilharam e captaram a minha atenção!
Estava sozinho. Debrucei-me ao nível da cabeça dele e “espreitei” para dentro do seu olhar. No fundo dos olhos do Maior, via-o sentado no escritório a preparar a programação para o mês de Dezembro nos seus cinemas…e sorri! Dois dias depois, morreu.

21 de Dezembro de 2013, o Maior foi enterrado depois de décadas a “comer terra” como diria Miguel Torga e pela primeira vez vi um padre no final da celebração da missa a falar do defunto com um sorriso na boca e da alegria que foi ter conhecido tamanha figura, há muitos anos atrás, em Rio de Moinhos!
O Maior, pela sua actividade única (sem nunca ter pedido ou recebido subsídios), teve cartas de elogios (sapatadinhas nas costas) de governantes, foi notícia em tudo o que é jornais, revistas e canais de televisão.

O Maior chama-se Joaquim da Costa Azevedo e é meu AVÔ!
Não me dêem os pêsames, dêem-me os parabéns por ser neto do Maior! 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Distraído Anónimo.

Há algo que o homem durante o seu crescimento não desenvolve, algo para qual nem a sua mãe o consegue preparar…

Foi a primeira vez para João, e ainda não eram casados, quando Lurdes lhe pergunta:
- Não notas nada de diferente?
- Aonde? – responde à pergunta com outra pergunta.
- Em mim, meu lindo!
Esta cena aconteceu no início de uma tarde de Verão e enquanto o dia durou, João olhava para Lurdes com a tensão a aumentar sem vislumbrar nada de diferente na namorada, e já o sol se punha quando finalmente ele arrisca responder com sinceridade:
- Não, não vejo nada de diferente! – disse, esboçando um sorriso tímido.
Perante a resposta, Lurdes a “morenaça”, que da parte da manhã tinha pintado o cabelo de amarelo com madeixas liláses, em vez de acabar o namoro, pensou, fruto de uma raiva imensa, “Havemos de casar e tu vais sofrer!”.

É final de tarde, João está a chegar a casa e depois de três meses de namoro e quinze anos de casamento, a pergunta que mais teme continua a ser: “Não notas nada de diferente?”.
Abre a porta da cozinha e dá de caras com a mulher.
- Olá meu amor! – diz com voz trémula.
- Olá Jójó! Não notas…
E as pernas de João tremem que nem varas verdes.
- …que está frio?
João suspira de alívio: – Um bocadinho, minha Linda! - e segue para o corredor para pousar o casaco no bengaleiro.
- Por falar em “linda”, não notas nada de diferente?
Perante a pergunta temida, João vai para o escritório e enquanto abre o computador, exclama em voz alta:
- Linda?!
- Sim! Na sala, vê bem!
O computador está ligado e João abre uma pasta onde tem as fotografias tiradas nessa manhã à mulher e a todas as divisões da casa. Sem perder tempo vai para a sala com o computador e compara o que vê com as fotografias tiradas dessa divisão.
- Amooor! Está tudo igual!
Furiosa, Lurdes irrompe pela sala:
- Iguaaal? E em mim, não notas nada?
João abre as fotografias tiradas a Lurdes nessa manhã, olha para ela e:
- Cortaste o cabelo?!
Lurdes, a “espumar”, veste um casaco, pega num saco e nas chaves do carro e sai, sacudindo a cabeça fazendo sobressair as extensões que tinha colocado nessa tarde, dizendo-lhe:
- Se queres comer, faz o jantar!
Triste e a precisar de algum ânimo, João vai a uma drogaria perto de casa, que só fecha às vinte, comprar um pisca-pólos e ver as ferramentas. Enquanto bisbilhota uma chave de estrela, ouve:
- Olá João!
Era um bom conhecido, que mora há já algum tempo ao fundo da rua, atulhado de ferramentas de medição: régua, esquadro, escantilhão, nível, fio-de-prumo…
- Vais construir uma casa? – pergunta João a brincar.
Depois de um compasso de espera, Miguel, o bom conhecido, decide confiar em João…e desabafa:
- Não, João. Todo este material é para fazer marcações no chão de minha casa. Hoje, para a agradar, deixei os chinelos no sítio e a Maria pôs-me de castigo com o argumento de que o chinelo do pé direito estava deslocado dois graus para norte…!!!
Ao ouvir isto João, sem nada dizer, acena a cabeça em concordância com o amigo e com um olhar solidário! E Miguel prossegue:
- …E para acalmar os ânimos, disse que os brincos novos que ela estava a usar lhe ficavam muito bem!
- E?! – pergunta João, expectante.
- Afinal não eram novos! Ofereci-lhe os brincos há cinco anos, num fim de semana romântico!!! Foi o caos…estou aqui sem comer!
Por detrás de uma estante, onde estava a ver umas tintas de interiores, Vilaça, que casou uma segunda vez, esquecendo-se amiúde que mudou de mulher, sem querer ouviu a conversa e, interpôs-se:
- Amigos, eu posso ajudar-vos! Logo à noite estais livres?
- Sim! - respondem em uníssono, João e Miguel.

Nessa noite, João, Miguel e Vilaça, estão numa sala cheia de homens heterossexuais e uma mulher lésbica, sentados em roda, em que uma pessoa dá as boas vindas aos presentes:
- Muito boa noite e sejam bem vindos! Eu sou o Rui e sou um Distraído Anónimo!...