domingo, 27 de abril de 2014

Liberdades de Abril (parte I).

Félix, assina, como no bilhete de identidade, Felix DA Silva DE Pereira e é conhecido em casa por pai e “home”, mas é mais conhecido entre os amigos por Félix e mais conhecido entre os conhecidos por Félix. Quando conhece alguém apresenta-se como Félix DA Silva e entre quem não o conhece é conhecido por “aquele gajo, pá!”.
Em Março de 1974 fez quatro anos de casado, cerimónia que aconteceu em 1970, após a chegada de uma missão de dois anos e meio no norte de Moçambique, onde fez amizades de sangue que nunca esqueceu. Nesses quatro anos de alguma felicidade teve quatro filhos da mulher, a quem os pais puseram o nome de Maria, porque desejavam que a filha fosse um exemplo de mulher, como a mãe de Cristo, e “do Céu”, porque a mãe, devota seguidora do padre da aldeia, gostava de uma passagem da homilia, em que se faz referência à “Glória do céu”.
Com quatro gravidezes e actividade física restringida às lides domésticas e a tratar dos filhos e do “home”, o corpo de Maria do Céu tornou-se desinteressante (sem nunca o ter sido) aos olhos de Félix. O casamento pela igreja e a “vergonha” não davam coragem a Félix de deixar a mulher, apesar de ele ter a certeza disso nos festejos do  quarto aniversário. Precisava de uma reviravolta na sua vida!
Um mês depois aconteceu uma reviravolta ao país, através de um golpe de estado, com o objectivo (aparente) de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Félix DA Silva DE Pereira não era muito inteligente, mas não se deixava ir pelas “ondas como os cardumes” e apercebeu-se que o “Democratizar” aconteceu por um triz, visto que alguns (talvez a maioria) capitães de Abril queriam acabar com uma Ditadura de direita e impor outra, tornando Portugal um país satélite da União Soviética; o “Descolonizar” foi apressado, fazendo 500.000 portugueses voltar à metrópole, sem nada e deixando as ex-colónias entregues a facções armadas e a população negra desprotegida; e o “Desenvolver”, através de uma reforma agrária medieval!
- Isto eu não festejo! – Pensou Félix, ainda longe de imaginar o que o país esperava, a nossa “classe política”.
Mas graças ao 25, Félix festejou os dias 26, 29 e 30, datas correspondentes aos seus 3D’s de Abril.
Festeja o “Divertir”, a 26 de Abril. Sem medo junta-se com os amigos na mesa do café ou na rua e expressa as suas opiniões e no fim vai para casa em vez de ser preso…não imaginava que fosse tão animado falar sem ser em surdina e a espreitar por cima do ombro!
A 29 de Abril festeja o “Divorciar”. Foi neste dia de 1974, que chega a casa com os papéis para o divórcio e encontra a mulher de mini-saia, a mostrar as “carnes” e a fumar SG Gigante e com uns papéis de divórcio, também na mão. Foi um espanto para ele…sempre pensou que Maria do Céu fosse feliz, a cozinhar, limpar, a “levar” e a cuidar dos filhos e dele!
No dia 30 terminam os festejos de Abril, com o último “D” de “(en)Dividar”, o maior rasgo de desenvolvimento e modernidade português.
Neste dia de 74, Félix foi ao banco onde trabalho o amigo Tone e pergunta-lhe pelo estado da “conta”.
- Não tens dinheiro…mas também não deves nada a ninguém! – esclarece Tone.
- Está mal! – Responde Félix, continuando – Dá-me um crédito qualquer que me crie dívida.
Ao longo dos anos, Tone deu-lhe créditos para tudo, tornando Félix numa personalidade fiscal falida, mas moderna!

Nos festejos dos quarenta anos dos 3D’s de Félix, este foi obrigado a festejar o “dia da liberdade”, o 25, de cravo na lapela pela PDPC-DGS (Polícia do Politicamente Correcto-…)…mas o “D” de “Democratizar” vai festejar às escondidas desta, ao celebrar os trinta e nove anos do 25 de Novembro de 1975.

sábado, 19 de abril de 2014

Sou melhor que o macaco!

Sempre que o tempo permite, quando não está a chover, apesar de preferir os dias luminosos, e não está muito frio nem vento, apesar de preferir temperaturas amenas e uma brisa refrescante, abdico do carro para fazer uso da capacidade que nos distinguiu dos macacos, o bipedismo, quando os passeios, na ida e volta, não ultrapassam os cinco quilómetros num horizonte temporal de seis horas.
Durante o passeio tenho tempo para apreciar a paisagem que me escapa no dia-a-dia e perceber o sítio a que pertenço, aproveitando tempo só para mim, perdendo-me nos meus pensamentos, isto, quando inadvertidamente acaba a bateria do telemóvel que me desliga do Facebook e não me permite continuar a utilizar outra capacidade que nos distingue dos outros animais, o uso do polegar, para teclar e fazer “posts”.
Nestas caminhadas, por vezes  a caminho de nada, gosto de passar pelo café. Por vezes, como sinal de humildade da nossa espécie, paro num em especial, geralmente cheio e ruidoso. Cadeiras a serem arrastadas, máquina de café sempre a trabalhar, as pessoas despreocupadas, desatentas ao volume da voz, correndo o risco de ouvir uma estória minha, empregados atarefados, alguns sem tempo para um sorriso…recordando-me a algazarra do recreio da Escola Primária, faltando apenas uma bola a correr por entre as mesas, fazendo-nos parecer como todos os outros animais, deixando unicamente para a formiga a capacidade de viver numa sociedade organizada e complexa.
Noutras ocasiões, prefiro um outro café, mais sossegado, que me permite dar uso à inteligência, que me põe a anos- luz à frente dos outros (animais) e saber o que se passa no mundo, lendo os jornais, isto enquanto as poucas pessoas que o frequentam, não libertam a “Caras”, a “TV guia”, que me coloca a par da grelha televisiva, e a “Hola” espanhola.
Geralmente nestes passeios cruzo-me com gente, alguma de quem realmente gosto e me permito conversar, para dar uso á suprema característica que nos distingue do restante reino animal, o raciocínio…isto se não falarmos de futebol, nem de política, nem de algum reallity show e afins, fazendo-nos ser mais irracionais do que um ser unicelular…apesar de fugir do tema “Futebol”, quando encontro um amigo específico de adolescência, cuja capacidade de raciocínio equivale à de uma pedra…não desço tão baixo!
O  trajecto da caminhada, geralmente é o mais rural possível, dentro de uma cidade, para escapar à confusão do trânsito e ao roncar dos carros, prova da capacidade inventiva do Homem, que lhe permitiu viver nos meios mais hostis, enquanto o resto da bicharada teve que se adaptar…ainda só estranho os rasgos de primitivismo na comunicação, com buzinadelas, insultos e expressões amacacadas!
Mas se dúvidas houver desta superioridade, elas dissipam-se no regresso a casa, quando passo por miúdos, ainda em estado ligeiramente primitivo. Brincam na rua, andam de bicicleta, jogam à bola, em vez de estarem enfiados num quarto a provocar um holocausto num jogo de computador, e em vez disso, andam à fisgada à passarada, mostrando a supremacia do Homem sobre o resto dos animais. Entusiasmado, quando o Pantufa, um cão simpático de rua, se aproxima de mim a dar ao rabo, afasto-o com um pontapé – Sou o maior! – penso.

Cheguei a casa, feliz, por ter um cérebro maior do que o do Pantufa e o da passarada, que permite que o ser humana seja o mais inteligente…e o mais Asinino, também, sem desprimor para a raça! 

domingo, 6 de abril de 2014

O papelzinho?!

Margarida, desde há quarenta anos, faz todos os dias úteis o mesmo percurso a pé para o local de trabalho, o Departamento de Licenças das Finanças, e há cinquenta e dois anos que faz o mesmo percurso todos os dias úteis, desde os seis anos, quando foi para escola primária, que ficava cinquenta metros após o edifício onde viria a ser instalado o Departamento de Licenças das Finanças e faz, desde que se recorda, o mesmo percurso todos os fins-de-semana e dias de feriado até ao parque, que fica situado após a antiga escola primária.
De tanta ida e volta, os sapatos rasos de Margarida estão marcados no passeio e todos respeitam estas marcas como se fossem uma passadeira válida apenas para ela. Fora do trabalho acham-na simpática em virtude do sorriso que mantém no vai e vem casa-trabalho, mas preso ao passado, em que recorda o boato transmitido por uma prima, de que um primo do amigo do primo, irmão da prima, estaria apaixonado por ela e com intenções sérias de casar. O casamento nunca chegou a acontecer, porque eles nunca se chegaram a conhecer! Ainda hoje, Margarida diz-se solteira por opção, apesar de ter vivido um grande amor!
Nesta vida aparentemente marcada pelos hábitos, tudo se desmorona à noite no segredo do quarto da casa, desde que a sua mãe faleceu. Debaixo dos cobertores, enquanto dura a reza do terço, Margarida contrai e relaxa os glúteos, mantendo-os em boa forma relativamente ao resto do corpo e permitindo-lhe usar as saias ligeiramente travadas e com folhos abaixo do joelho, estilo atrevido adoptado quando jovem e parolo com o passar dos anos…para a parte de cima, camisa com lenço ao pescoço, coberta sempre por um casaco de malha.
Sendo chefe da secção de atribuição de licenças, Margarida está sempre atenta às conversas dos seus colaboradores com os empreiteiros. Sempre que uma licença está prestes a ser atribuída, ela levanta-se da secretária, aproxima-se e pergunta – E o papelzinho? Já tem o papelzinho?!
Esta pergunta maldita para os promotores imobiliários, é o “click” para, atarefados, mexerem em toda a papelada que trazem na pasta. Depois de vasculharem impressos, selos e certificados, o papelzinho nunca é encontrado e a licença não é atribuída.
Quase não há construções novas na terra de Margarida desde 1970 e as poucas que foram realizadas, foi à custa de licenças atribuídas em período de doença ou de férias desta, atribuídas pela sua substituta. Sentindo-se desautorizada, quando regressava após a doença ou das férias, quase sempre passadas nas termas, tratava de as embargar.
Naquele dia, quando passa pela obra do Centro Comercial, licenciado durante uma gripe, mas devidamente embargada e com inauguração marcada para dali a duas semanas, cai num buraco e bate com a cabeça num tijolo.
Quando recupera os sentidos, levanta-se, olha para si, tem a saia composta mas o casaco está rasgado no braço – Ainda tenho umas cotoveleiras lá em casa! – pensa. Levanta a cabeça, olha à sua volta e – Uuiiii!!! – exclama.
Por todos os lados deserto, muito próximo, milhares de homens mal vestidos são chicoteados enquanto puxam pesadas pedras. Olha para a sua direita e abismada, Margarida vê uma construção a tomar forma de uma pirâmide e em frente, um homem aos berros – Deve ser este o empreiteiro! – pensou.
- Ó senhor. – chamou num tom bem audível.
O homem de trajes estranhos e tez muito morena aproxima-se.
- A licença para esta obra? – pergunta.
- Licença?! Eu fui mandado fazer esta pirâmide.
- Por quem? – pergunta Margarida, começando a perder a paciência.
- Pelo meu Amo, o Grande Tutankhamon!
Incomodada, Margarida manda chamar o Faraó e pede-lhe o papelzinho da obra. Perante a inexistência de papelzinho, Margarida embarga a obra e fiscaliza outras em curso: estátuas gigantes com corpo de gato e rosto humano, sete templos e quatro fortificações. Perante a ilegalidade, todas as obras ficaram suspensas.

Actualmente nas aulas de História fala-se de uma civilização antiga, que antes de atingir o seu apogeu, caiu em desgraça por falta do “papelzinho”!

domingo, 30 de março de 2014

A seis meses da reforma.

A sessão de cinema ainda nem a meio tinha chegado e António Neves já suspirava de tédio. Quando aparece a cena em que a personagem principal se reforma aos sessenta e seis anos ele desiste e tenta dormir.
Ao primeiro ronco, sente um cotovelo a bater-lhe, acompanhado de uma voz:
- Acorda vozinho! Estás a fazer barulho!
Sobressaltado, António Neves acorda, e meio perdido exclama – Ah, ah, o quê? – e apercebe-se do sítio onde está. Foca-se novamente no ecran e vê outra cena, desta vez da personagem secundária a ser reformada condignamente aos sessenta e seis anos - “Poça, estou farto disto!” – pensa. Depois, baixinho diz:
- Rapazes, espero por vós lá fora.
Quase uma hora depois, no pano branco aparece a palavra “Fim”, acendem-se as luzes e as pessoas começam a abandonar a sala. Toninho e Nuninho deixam-se estar sentados e são os últimos a sair. Dirigem-se para António Neves, o bisavô, que esperava no exterior do “Cine-teatro Alves da Cunha”.
- Então vozinho, não estavas a gostar do filme?
- Não, rapazes! Nunca gostei de filmes de ficção científica. Se fosse uma cowboyada…isso é que eu gosto!
- Não gosto! – respondem os bisnetos ao mesmo tempo.
- Ah, isso sim, são filmes! Aqueles índios e cowboys na Assembleia da República aos tiros uns aos outros…! – e é interrompido por espasmos, sintoma de uma doença grave e galopante, detectada há pouco tempo.

No país de António Neves, que ainda não é Portugal (mas por pouco tempo, digo eu), as pessoas reformam-se automaticamente, quando morrem, a título póstumo. Mas quando a morte é repentina, sem causa aparente, por suicídio ou provocada por acidente automóvel em que o falecido é culpado, se não for devidamente justificada, a reforma para o defunto é posta em causa e faz todo o sentido…há por aí muito “chico-esperto” a “falecer-se” de forma danosa para o Estado!
Quanto a António Neves, oitenta e nove anos e viúvo há dois, altura em que a esposa se reformou, sempre foi cumpridor naquilo que são as suas obrigações, para assegurar uma morte confortável e sossegada. Como a sorte, mais tarde ou mais cedo, bate à porta dos correctos, a António Neves, foi diagnosticada uma doença rara que lhe dava mais seis meses de vida.
Foi uma alegria lá em casa, quando António Neves, mais para lá do que para cá, anuncia entusiasmado aos filhos, netos e bisnetos:
- Vou morreeeeer!
- Quando? – perguntam alguns.
- Daqui a seis meses no máximo. – responde o patriarca da família Neves.
- Que bom, pai! – comenta o filho mais velho – Seis meses dá para tratar da reforma com calma.
Com a serenidade devida, que os seis meses lhe proporcionavam, António Neves tratou de toda a papelada e selos necessários. Na última ida à Segurança Social, vindo de uma consulta no Hospital, depois de um dia de trabalho, ficou acertada com a senhora que o atendeu a data do seu falecimento…seria entre o dia 05 e 28 de Maio. Antes de sair do balcão, António Neves ouve as últimas palavras da funcionária:
-…e se ao fim de cinco dias úteis após o seu falecimento, não receber o papelzinho da Segurança Social, passe por cá.
- Muito bem! – responde simpático, António Neves, apesar da debilidade física.

No dia 15 de Maio, António Neves falece, Nuninho e Toninho comentam entre si – Ainda bem, o vozinho já merecia a reforma. Foram setenta e oito anos a trabalhar!
Passados cinco dias úteis, ao caixão não chega nenhum papelzinho, mas ao sexto, António Neves é enviado para o Céu. Quando se apercebe onde está, pensa – “Aqui não devo precisar de nada, dizem que é o Paraíso, que se lixe o dinheiro da reforma!”. Mal termina este pensamento é abordado por um santo, que enquanto lhe entrega um uniforme, explica-lhe:
- Sabe Sr António, aqui o senhor vai ter que continuar a trabalhar por mais dois anos. O Altíssimo não soube governar o Céu e estamos debaixo de um resgate, encabeçado pelo Diabo!
- O quê, depois de morto vou ter que continuar a trabalhar?! – questiona António Neves, completamente aparvalhado.
- Pois é, isto aqui está infestado de Querubins e Serafins! Enquanto o Senhor não fizer a reforma do Céu, nós, os anjinhos, vamos continuar a trabalhar!

Cá em baixo, no país que foi de António Neves, a sua família continua a trabalhar feliz e a pensar que quando morrerem vão poder reformar-se!

domingo, 23 de março de 2014

Poliglota.

Apesar de ser defensor do que é nosso, daquilo que simboliza a nossa Nação e de sentir-me também dono da língua que falo e que escrevo, isso nunca invalidou uma vontade clara de aprender o “Inglês”.
E são duas as razões principais. A primeira, porque na escola não gostava das outras opções, o “Francês” e o “Alemão” e a segunda, por vergonha.
Vergonha de fazer as mesmas “ceninhas” que amigos meus faziam quando em plena pista de uma discoteca tentavam acompanhar as músicas mexendo os lábios simulando um inglês, que pouco sabiam, que não encaixava nas letras, sendo pior do que uma novela venezuelana traduzida para brasileiro. Por diversas vezes, quando gingava o meu corpo de um lado para o outro, de cervejinha na mão e com o radar ligado no modo “fêmea”, e um amigo se atrevia a abrir a boca quando nem o playback de um “yes” conseguia fazer, eu, disfarçadamente, ia dando uns passos para o lado e olhava pare ele como se não o conhecesse de lado nenhum e comentava com a miúda do lado, “Que parolo!”.
Mas antes disto e ainda muito criança, o que eu gostava mesmo era de falar a língua dos animais. Autodidacta, aprendi a miar para os gatos, a ladrar para os cães, a cacarejar para as galinhas, a roncar para os porcos (língua em que me tornei um “expert”), a relinchar para os cavalos,…, faltando-me rugir cara a cara com um leão! Toda esta lógica só foi quebrada uma vez, quando na comunhão de um primo mais velho, fui apanhado a mugir para um passarinho, depois de beber uma cerveja às escondidas debaixo de uma mesa.
Agora adulto, um destes dias quis ir mais além de quem estuda línguas mortas, como o aramaico ou o latim, e mergulhei nos primórdios da língua indo ao jardim zoológico praticar o meu guinchar com um macaco.
No portão de entrada, um cartaz a anunciar o desconto de 80% para quem conseguisse imitar um cavalo. Consciente do meu saber e das minhas capacidades, imitei um híbrido de elefante com rinoceronte a discutir com uma couve. Perante a estupefacção da senhora da bilheteira entrei de graça!
Dirigi-me lesto para a jaula do macaco. Pachorrento, ele dormia.
- Acorda, pá! – gritei.
E com o barulho, ele acordou.
 - U,u,u,u,u,uuuuuuuu,u,u,u,u,uuuu,u,u,u,u! – guinchei, num orangotangês erudito.
- Pareces parvo, ó humano! – responde-me o macaco.
- Ui, tu falas! – exclamei mais admirado do que se houvesse um consenso político em Portugal.
- Sim, falo, ó parvalhão!
Perante o insulto não me deixo ficar e respondo-lhe – Parvalhão és tu, eu tenho vergonha de descender de vós!
- E nós macacos temos vergonha de ser ascendentes do Humano! Sois uns animais!
Sem querer mais conversa com o parente despeço-me num orangotanguês coloquial - U,u ,u uuu, u, u – e viro costas.
- Pane…! - chamou-me o macaco.
No regresso a casa, para relaxar da má experiência que foi a conversa com o macaco, tomo o caminho que atravessa o bosque. Aproveitei para praticar as palavras assobiadas das árvores e as palavras das plantas empurradas pelo vento! Cheguei a casa convicto de que percebia todos os seres do mundo e ouço barulho ao fundo, na sala.
- Zé, já chegaste? Anda cá. – chamou-me a Cristina – Estas são as minhas amigas. – diz-me, apresentando-me, uma a uma.
Para parecer simpático deixei-me ficar com elas cinco minutos, que me fizeram perceber que continuo a não compreender o dialecto feminino!

Saí de casa e voltei ao jardim zoológico, para conversar com o macaco.

domingo, 16 de março de 2014

Brito de Jesus.

Zé, filho de José e de Maria José, nascido há muitos anos, era uma criança como todas as outras, vivaça, traquinas e de nome Zé como todos os seus amigos! Devido à necessidade de se diferenciarem, tratavam-se pelo segundo nome ou apelido e Zé, filho de José e de Maria José, era tratado por Brito.
O tempo, nas ruas de terra, era passado a chutarem uma amálgama de trapos entrelaçados em forma de bola, que chutavam na direcção de dois postes. Como não sabiam o nome do jogo a que gostavam de jogar, costumavam dizer, “Vamos jogar aquilo?”. Além disto, gadulhas…por vezes misturadas com “aquilo”.
Com as disputas de brincadeira, Brito criou um espírito competitivo e desde criança nunca gostou de perder, muito menos quando jogava “àquilo” mesmo sem saberem as regras e como se ganhava! Em jovem adulto, viciado no jogo, não da bola, mas de cartas e dados, nunca aceitou uma derrota, que significava perder dinheiro. Costumava frequentar um salão de jogos chamado de “Templo”, em Jerusalém, e nos tempos vagos ia para um monte de oliveiras descansar à sombra das mesmas. O espírito alegre, divertido e de humor refinado que o fazia invejado pelos outros rapazes e apreciado pelas mulheres, contrastava com o comportamento que assumia, como se estivesse possuído pelo diabo, mal entrava no “Templo”. Obcecado e sem regras, não deixava a mesa de jogo, nem quando seus amigos de infância, José Paulo, José Judas e José Pedro, insistiam para que viessem embora.
Numa tarde tórrida de Verão, quando já tinha perdido quase tudo e já estava a apostar as sandálias, o “coupier” da mesa, o sacerdote José Ahmushef, expulsa-o à força, tendo Brito durante a saída do “Templo” mandado umas mesas pelos ares.
Já numa esplanada de um café, Brito, mais calmo, e seus amigos, tomavam uma cerveja de tâmara fresquinha sem saberem que o dono do salão de jogos tinha mandado no seu encalço um grupo de capangas para o castigar pelos prejuízos causados. Quando estes chegam à esplanada, junto do grupo de amigos, o cabecilha pergunta:
- Conhecem o Brito?
- Sim! É aquele. – responde José Judas, apontando para Brito, sentado no outro lado da mesa.
A expressão de Brito e restantes amigos, foi de total espanto.
Os capangas atiram-se a Brito e este, desesperado, grita:
- Sou nada, o José Judas mentiu. Ou sou o Brito…de Jesus!
Perante este esclarecimento, no meio da confusão que se começava a instalar, os “gorilas”, comentam entre si - Nós queremos apanhar é o Brito…só! – e desaparecem!
Triste com a traição do amigo, Brito sente a necessidade de estar só e muda-se de mesa. Maria Madalena, rapariga avispada, que já andava de “olho” em Brito há algum tempo, aproxima-se e senta-se na mesma mesa.
- Olá, Brito!
Brito, cabisbaixo, estica as sobrancelhas para cima, franzindo a testa e avista a bela mulher. Recupera a compostura e:
- Conhecemos-nos, bela mulher?
Maria Madalena, mais conhecida na noite, como MM, perante o galanteio sorri e insinua-se:
- Gostava que fôssemos amigos!
- Nem pensar! – responde Brito, prosseguindo – Tinha cinco mil e um amigos, acabei de perder um dos melhores, por traição, e sobram-me cinco mil potenciais traidores! Chega de amizades, se quiseres, segues-me!
E assim foi, Maria Madalena começou a passar a palavra de que Brito atingiu o limite de amigos e que agora só aceitava “seguidores” começando a liderar um grupo cada vez maior, sedento de saber o que Brito fazia.
Contemporâneo de Brito e na mesma zona andava um indivíduo de nome Jesus, a fazer tanto ou mais sucesso do que Brito, sendo administrador de um “grupo fechado” de doze amigos, mas aberto a seguidores, cada vez em maior número. Herodes, o poderoso governante de Jerusalém, que se gabava de ser a pessoa com mais “seguidores”, movido pela inveja, manda os seus soldados prender Jesus. Nessa busca para o apanhar, os soldados vão ter à praça principal de Jerusalém, rodeada de esplanadas onde vários grupos de amigos e conhecidos matam a sede com a bebida mais servida, a cerveja de tâmara fresquinha.
Abel, comandante dos soldados, do meio da praça grita para todos ouvirem:
- Alguém sabe onde está Jesus?
Os capangas que dias antes perseguiam Brito, em uníssono respondem:
- O Jesus está ali! – apontando para uma mesa próxima, onde estava Brito, relaxado, de perna cruzada a coçar os dedos do pé.
Sem aviso prévio e sem direito a defesa, Brito é agarrado e levado para as masmorras.
Dois dias depois é crucificado na presença de seus amigos e seguidores encabeçados por Maria Madalena, que insistentemente gritam “Gosto! Gosto!...”

Ao lado passava Jesus, que ao assistir à cena exclamou – Ui, eu é que devia estar ali e a MM a gritar por mim! Aquele gajo estragou tudo!

domingo, 9 de março de 2014

Estarei deprimida?

À porta, uma placa com a inscrição “Dr. Luís Fernando, Psicólogo”. Do lado de fora, meia dúzia de cadeiras vazias e outra meia dúzia ocupada de pessoas à espera que lá dentro, a consulta de Vânia termine, na parede em frente um quadro de 1983 do SLB, clube pelo qual o Dr. Luís Fernando, pessoa que ferve em pouca água, é maluco.
- E então, estranha estar a sentir-se melhor?! – pergunta o psicólogo Luís Fernando.
- Sr. Doutor, há três dias que não consigo tirar uma “selfie”, ainda em sono, quinze minutos antes do despertador tocar! – conta Vânia, pesarosa.
- Ui, e você conseguia? – pergunta espantado, o médico.
- Sim, Doutor! E é por isso que sou altamente admirada pelos meus cinco mil amigos e setecentos e oitenta e quatro milhões de seguidores. – responde com toda a naturalidade.
- UI, isso não é normal? – responde o médico, dando um salto na cadeira.
- Pois não é não!!! Já são três dias…deve ser um esgotamento! – tenta adivinhar.
- O que não é normal é ter tantos amigos e seguidores! – corrige o psicólogo Luís Fernando - Mas conte-me mais...
E Vânia prossegue:
- Hoje, por exemplo, acordei cheia de fome e partilhei isso com o meu marido, ele preparou-me o pequeno-almoço…e conversámos!
- Que bonito! – responde o psicólogo – Tem a certeza que veio à consulta certa?
- Claro que sim, Sr. Doutor! Então a minha vida está a descambar e não estou nada preocupada com isso…isso preocupa-me! Ainda há poucos dias partilhava com o mundo que tinha acordado com fome e tirava fotografias à torrada, à meia de leite e às migalhas, anunciava as minhas tristezas e alegrias, amores e zangas, fazia amigos com um click e desfazia amizades com outro…era uma alegria…agora?! Que estranho, agora também é – desabafa.
- Então não se sente triste?
- Não, Doutor, e o dia até foi estranho! Eu e o meu marido sorrimos um para o outro, ele disse que gosta de mim e sorrimos, falei na rua com pessoas que conhecia e vi-lhes a expressão, mas não é tão estimulante como um “like” ou uma “partilha”! Devo ter alguma coisa na cabeça, de certeza!
- Hummm, interessante! – exclama, o psicólogo.
- Sou um caso de estudo? – pergunta Vânia.
- Você? Não creio.
E Vânia prossegue:
- E faz quatro dias que não me indigno “furiosamente” , três vezes ao dia após as refeições principais, com um qualquer assunto banal!
- E isso é importante para si? – pergunta o médico, enquanto toma apontamentos.
- Achava que sim! Fazia-me sentir interessante…agora, estranhamente já não, aceito-me como sou, dando importância ao que interessa!
- A senhora tem a certeza que veio à consulta certa? – repete a pergunta,Luís Fernando.
- Tenho, Doutor. Estarei a ficar deprimida?
- Não, a senhora está é a ficar normal!

Quando a paciente saíu da consulta, Luís Fernando, marido de Vânia, sorriu e partilhou no facebook, “estou a sentir-me feliz!”.