domingo, 26 de abril de 2015

Passeio a Santo Tirso

Era final de tarde...de sexta feira.
Chegado a casa do trabalho, olho à minha volta com as mãos à cintura e naturalmente esboço um sorriso rasgado, só para um dos lados, como quem teve uma trombose, mas no meu caso num sinal de malandrice e libertinagem que ainda mantenho aos 41 anos e penso, “Ainda és um rebelde, Velhinho! Vai dar um passeio.”
Terminado o pensamento e quando ia dar uma borrifadela de perfume o telefone toca e do outro lado perguntam se já cheguei a casa.
- Sim! – respondo.
- E vais sair?
E sem me dar algum tempo para responder, a Cristina diz-me para estender uma bacia de roupa e repete a pergunta:
- Vais sair?
Respondi que não, com o mesmo sorriso rasgado só para um lado, com a malandrice pura de quem tem segredos e desliguei.
Depois de estender a roupa que mascarou o meu segredo preservando a minha integridade moral, saio de casa.
Entro no carro e começa aquilo que começou várias vezes durante o dia, a chover. Arranco e sigo na minha rua sem saber para onde ir. Entreguei-me ao destino, com o sorriso rasgado só para um dos lados, e lembrei-me que destino rima com casino - “É isso, vou ao casino da Póvoa.”, pensei, mas quando me preparava para dar o pisca para a esquerda, espirro e salivo o vidro sobre o lado direito, ´”É isso, vou para a direita!”, repensei, e dou o pisca para a direita e uma placa dizia “Santo Tirso”... lá fui.
Apesar de todos os sinais de rebeldia até ao momento, ir a Santo Tirso, para mim, não é um sinal de ir ao encontro do desconhecido. Estudei lá, dos 14 anos até aos 16, e de vez em quando continuo a lá ir.
Chegado ao meu destino, estaciono o carro no lugar de quase sempre, no parque da Câmara Municipal e quando desligo o carro, lá em cima também se desligou algo e parou de chover. Olho para o meu guarda-chuva e fico a pensar, “Levo-te ou não?!”.
Com aquele sorriso, que já sabem, num sinal de audácia ou tremenda estupidez, digo-lhe – Vais ficar. – e saio do carro sem nenhum sítio para onde ir, a ideia era apenas passear.
Santo Tirso, desde os meus tempos de estudante, mudou a um ritmo menor do que o meu passo arrastado  para fazer horas. E esta razão a par da recuperação do casario antigo, mantem a cidade pitoresca e aberta, cheia de jardins.
Num momento do passeio recomeça, aquilo que practicamente não deixou de acontecer durante o dia, a chover.
- Afinal fui estúpido! – digo baixinho a lembrar-me do guarda chuva no carro.
Atravesso a rua e entro na pastelaria mais conhecida lá do sítio a “Moura”, onde toda a gente vai comer “Jesuítas” e eu tomar café.
Por detrás do balcão as três senhoras do costume,entradotas na idade, cabelo armado pela melhor laca e com um sorriso de meninas que imagino ser o mesmo de há décadas atrás.
Antes de me sentar fui à casa de banho fazer uma coisa. Quando saí, perante a sala vazia, tive dificuldade em escolher uma mesa, gosto bem mais de cafés cheios, apenas com uma ou duas mesas de vago.
Uma quarta senhora, entradota de idade, mas mais nova do que as outras, esperou que eu parasse de deambular por entre as mesas, o que aconteceu quando me sentei na mesa ao lado da de uma miúda gira, que entretanto tinha chegado.
Pedi um café que me foi servido e enquanto o tomava, como a miúda gira não olhava para mim, perdi-me a olhar para as três senhoras mais velhas por detrás daquele balcão.
À minha frente, as cores começaram a mudar, para o preto e o branco, o balcão ficou antigo e por detrás dele estavam três meninas, certamente com menos de 20 anos, que, pelo sorriso, reconheci serem as senhoras, entradotas de idade, que pouco antes lá estavam. A miúda gira desapareceu e cá fora continuava a chover e apenas dois carros antigos estacionados. Via-se gente apressada a passar, eles, todos, de chapéu na cabeça e muitos de fato, cujos modelos só vejo em fotografia. No salão, um corropio de gente a entrar e a sair, onde todos se cumprimentavam com protocolo e faziam vénia às senhoras como manda (ou mandava) a boa educação. As mulheres não tinham tempo para ficar, mas eles, principalmente os que entravam de fato, todos eles cinzentos, tentavam um lugar ao balcão, para ficarem perto das meninas, que se riam com o que eles diziam e lhes lançavam sorrisos. Após o café, as meninas, com jeito para o negócio e sabendo os rapazes encantados, perguntavam:
- E então, não come um “Jesuíta”?
Rendidos diziam que sim, alguns, vi, a contarem os trocos sem darem nas vistas, não tivessem de dizer:
- Obrigado, mas agora não...estou cheio!
Com o olhar mais atento, em momentos diferentes, entraram três rapazes, para quem cada uma delas, sem perder o sorriso e as gargalhadas, o olhar se rendeu...mais nenhum rapaz ou senhor, que entrasse naquele salão, teria hipóteses com aquelas raparigas por mais “Jesuítas” que comessem!
Desviando o olhar do que acontecia à minha frente olhei cá para fora, quando o último dos três rapazes saiu. Tinha parado de chover.
Quando devolvi o meu olhar para o interior, o balcão era outro e com cor  e atrás estavam as três senhoras, entradotas na idade, e na mesa ao lado a miúda gira sem o sal daquelas velhinhas, cujas gargalhadas pararam no tempo, como a cidade.
Levantei-me, sem olhar para a miúda gira, e ao pagar o café, alguém entra e o olhar da senhora que me está a atender, rendeu-se. Ao virar-me para sair, vejo um senhor antigo, com a mesma postura do último rapaz que vi a sair!
Cá fora, apresso o passo em direcção ao carro enquanto não chove...e recomeça a chover. Entro, olho o guarda-chuva e antes de arrancar em direcção à Trofa a uns delinquentes 50 km/hora, alheio a qualquer lençol de água, refaço a mim mesmo a pergunta – Audaz ou estúpido?

Num passeio normal com rebeldia faz de conta, houve um momento mágico!

domingo, 12 de abril de 2015

Parabéns, és pai

Rodolfo, nome fictício de um amigo de longa data, mas antes disso em tempos muito mais idos, amigo do meu irmão, tem uma figura cavalheiresca que carimba a sua educação e simpatia, mas que não lhe poupou, desde a adolescência, a alcunha de “Pêga do futebol”.
Não que ele abusasse ou quisesse abusar dos amigos do futebol no balneário, mas pelo facto  de ser um fingido convicto, na práctica da melhor actividade do mundo...jogar à bola.
Quase todos os domingos de manhã (ele joga na minha equipa) é com espanto que ainda o vejo a cair sozinho a três metros da grande área da equipa adversária (que é composta por outro grupo de amigos) e a pedir penalti.
Estes sintomas, no passado confundidos com devaneios de uma qualquer oferecida, que lhe valeram o título de “Pega do futebol” e que irritam o adversário e os colegas, são claramente sinais de esquizofrenia, confirmados pelo facto de ele se julgar o melhor jogador do mundo, quando nitidamente sou eu. Convido qualquer leitor a aparecer num qualquer domingo de manhã, para assistir a um dos jogos e confirmar o meu virtuosismo único!
Sofia, nome fictício de uma amiga de longa data, namorada e companheira de Rodolfo desde que me lembro, julgo até que já estariam prometidos um ao outro antes de nascerem (e não são ciganos), quando me vê, continua a perguntar, agora com uma barriga de fim do tempo:
- Ó Zé, como é que o aguentais nos jogos?
Geralmente, sem saber o que responder, encolho os ombros.
Ela é bonita, os dois são simpáticos e educados, ela sofisticada e grávida e ele não tem Facebook e engravidou-a...os dois queriam, estão felizes, agora ele mais, porque ela já sente o peso de 9 meses e a qualquer momento dá à luz!
Um destes dias, estou no Facebook e vejo um “post” da Sofia, acompanhado de uma fotografia na sala de partos, a dizer “Está a sair. J”. Espantado e feliz pelo casal amigo, telefono ao Rodolfo:
- Parabéns, pá!
- De quê? – pergunta-me o Rodolfo
- Por seres meio-pai! – e prossigo – Vi agora no Facebook, uma fotografia do teu filho.
- Ainda não sei de nada! É parecido comigo?  – pergunta-me do corredor do hospital.
- Ainda não sei! Só saiu metade e ao contrário. A cabeça ainda está lá dentro...mas já há muitos “gostos” e pessoas a dizer que ele é lindo
- Então é parecido comigo! – responde-me.
Além de melhor jogador, também se acha o mais bonito, em mais um sinal de viver por vezes uma realidade paralela, quando o mais lindo sou eu...convido o caro leitor, quando quiser, a aparecer num qualquer domingo de manhã, para assistir a um dos jogos e confirmar o meu virtuosismo técnico e beleza únicos!
- Espera! A Sofia postou outra fotografia e o bébé já está todo cá fora. Parabéns, já és pai por inteiro!
- Tenho que o ver! – diz-me o recente pai ansioso.
- Vais entrar na sala de partos?
- Não. Tenho o meu portátil comigo e vou abrir conta no Facebook e pedir amizade à Sofia!

Rodolfo, por insistir ficar preso no passado, sem facebook e com um telemóvel ainda com botões, foi o último a saber que foi pai!

domingo, 5 de abril de 2015

Brito de Jesus

Zé, filho de José e de Maria José, nascido há muitos anos, era uma criança como todas as outras, vivaça, traquinas e de nome Zé como todos os seus amigos! Devido à necessidade de se diferenciarem, tratavam-se pelo segundo nome ou apelido e Zé, filho de José e de Maria José, era tratado por Brito.
O tempo, nas ruas de terra, era passado a chutarem uma amálgama de trapos entrelaçados em forma de bola, que chutavam na direcção de dois postes. Como não sabiam o nome do jogo a que gostavam de jogar, costumavam dizer, “Vamos jogar aquilo?”. Além disto, gadulhas…por vezes misturadas com “aquilo”.
Com as disputas de brincadeira, Brito criou um espírito competitivo e desde criança nunca gostou de perder, muito menos quando jogava “àquilo” mesmo sem saberem as regras e como se ganhava! Em jovem adulto, viciado no jogo, não da bola, mas de cartas e dados, nunca aceitou uma derrota, que significava perder dinheiro. Costumava frequentar um salão de jogos chamado de “Templo”, em Jerusalém, e nos tempos vagos ia para um monte de oliveiras descansar à sombra das mesmas. O espírito alegre, divertido e de humor refinado que o fazia invejado pelos outros rapazes e apreciado pelas mulheres, contrastava com o comportamento que assumia, como se estivesse possuído pelo diabo, mal entrava no “Templo”. Obcecado e sem regras, não deixava a mesa de jogo, nem quando seus amigos de infância, José Paulo, José Judas e José Pedro, insistiam para que viessem embora.
Numa tarde tórrida de Verão, quando já tinha perdido quase tudo e já estava a apostar as sandálias, o “coupier” da mesa, o sacerdote José Ahmushef, expulsa-o à força, tendo Brito durante a saída do “Templo” mandado umas mesas pelos ares.
Já numa esplanada de um café, Brito, mais calmo, e seus amigos, tomavam uma cerveja de tâmara fresquinha sem saberem que o dono do salão de jogos tinha mandado no seu encalço um grupo de capangas para o castigar pelos prejuízos causados. Quando estes chegam à esplanada, junto do grupo de amigos, o cabecilha pergunta:
- Conhecem o Brito?
- Sim! É aquele. – responde José Judas, apontando para Brito, sentado no outro lado da mesa.
A expressão de Brito e restantes amigos, foi de total espanto.
Os capangas atiram-se a Brito e este, desesperado, grita:
- Sou nada, o José Judas mentiu. Ou sou o Brito…de Jesus!
Perante este esclarecimento, no meio da confusão que se começava a instalar, os “gorilas”, comentam entre si - Nós queremos apanhar é o Brito…só! – e desaparecem!
Triste com a traição do amigo, Brito sente a necessidade de estar só e muda-se de mesa. Maria Madalena, rapariga avispada, que já andava de “olho” em Brito há algum tempo, aproxima-se e senta-se na mesma mesa.
- Olá, Brito!
Brito, cabisbaixo, estica as sobrancelhas para cima, franzindo a testa e avista a bela mulher. Recupera a compostura e:
- Conhecemos-nos, bela mulher?
Maria Madalena, mais conhecida na noite, como MM, perante o galanteio sorri e insinua-se:
- Gostava que fôssemos amigos!
- Nem pensar! – responde Brito, prosseguindo – Tinha cinco mil e um amigos, acabei de perder um dos melhores, por traição, e sobram-me cinco mil potenciais traidores! Chega de amizades, se quiseres, segues-me!
E assim foi, Maria Madalena começou a passar a palavra de que Brito atingiu o limite de amigos e que agora só aceitava “seguidores” começando a liderar um grupo cada vez maior, sedento de saber o que Brito fazia.
Contemporâneo de Brito e na mesma zona andava um indivíduo de nome Jesus, a fazer tanto ou mais sucesso do que Brito, sendo administrador de um “grupo fechado” de doze amigos, mas aberto a seguidores, cada vez em maior número. Herodes, o poderoso governante de Jerusalém, que se gabava de ser a pessoa com mais “seguidores”, movido pela inveja, manda os seus soldados prender Jesus. Nessa busca para o apanhar, os soldados vão ter à praça principal de Jerusalém, rodeada de esplanadas onde vários grupos de amigos e conhecidos matam a sede com a bebida mais servida, a cerveja de tâmara fresquinha.
Abel, comandante dos soldados, do meio da praça grita para todos ouvirem:
- Alguém sabe onde está Jesus?
Os capangas que dias antes perseguiam Brito, em uníssono respondem:
- O Jesus está ali! – apontando para uma mesa próxima, onde estava Brito, relaxado, de perna cruzada a coçar os dedos do pé.
Sem aviso prévio e sem direito a defesa, Brito é agarrado e levado para as masmorras.
Dois dias depois é crucificado na presença de seus amigos e seguidores encabeçados por Maria Madalena, que insistentemente gritam “Gosto! Gosto!...”

Ao lado passava Jesus, que ao assistir à cena exclamou – Ui, eu é que devia estar ali e a MM a gritar por mim! Aquele gajo estragou tudo!

domingo, 22 de março de 2015

Clube VIP

1987, o que tem este ano de especial? Nada..menos para mim.
Tinha 14 anos e já sabia há algum tempo que a pilinha não servia só para fazer chichi!

Desde os doze anos que os meus pais já me deixavam sair até uma pastelaria a cerca de cem metros, no máximo, de nossa casa, chamada “Dália”, até ás vinte e três horas, o mais tardar.
Nesta altura da minha vida, as minhas obrigações e interesses passavam por estudar, jogar futebol, estar com os meus amigos e ir de vez em quando (ao fim de semana, sempre) à pastelaria. No final da noite costumava ajudar o Sr António, o empregado, a desmontar a esplanada (isto no Verão) e como recompensa, o Sr José, o dono, dava-me o tabuleiro de bolos, que não se tinham vendido durante o dia, que partilhava com o resto da canalha, minha amiga.
(se és mais velho do que eu e te lembras de passar ao fim da noite na “Dália” e ver uns putos de tabuleiro no colo a comer bolos, eu era um deles e a razão de os estarmos a comer)
Assim foi a minha vida até aos catorze anos, e continuou a ser, com a novidade de ter ido estudar para Santo Tirso e ter começado a sair de vez em quando para a “Pedra do Couto”, uma conhecida discoteca da zona.
Na primeira vez que lá entrei, apercebi-me da existência de um “Clube”, ou seja, uma área privada, à parte do resto da discoteca, para uma elite, nem que seja saloia. E nesse primeiro momento apercebi-me, que a minha camisa de cornucópias, em tons de castanho, muito bonita e fashion (na altura), era digna de ser passeada nesse espaço restrito.
Como fiz isto acontecer? Fazendo-me de parvo. Característica que persiste, apesar de me esforçar para que não se faça notar.
Subo as escadas e indiferente à presença de quem controlava a entrada e saída de pessoas na porta do “clube”, entro...e sou puxado para fora.
- Não pode entrar! – diz-me o porteiro.
- Não?! – pergunto com cara de espanto e mostro-lhe o meu “cartão jovem”. Não me perguntem para que servia, mas este cartão dava ao adolescente dos anos oitenta um ar de sofisticação.
O porteiro chamava-se Silva e para sorte minha achou-me piada. E eu gostei que ele me achasse piada, porque o Silva era a pessoa certa para conhecer e pela conversa e aspecto, era macho, comentando todo o “rabo de saia” que passava pela porta, deixando-me sossegado.
Fino como o Rato, para criar empatia com a minha vítima, entrei no mesmo jogo e fui mais além, comentando de forma babada, mulheres já avózinhas.
O Silva “caiu” como um patinho.
- Podes entrar! – diz-me ele, mesmo não fazendo parte de nenhuma lista VIP.
Com o tempo fui conhecendo as pessoas e quando ia à discoteca já entrava directamente pela porta exterior do “clube”, sem nunca ter detectado nada distintivo entre as pessoas escolhidas para entrar por uma porta e escolhidas para entrar por outra!
Apesar de jovem e já fazer parte de uma “lista VIP”, nunca deixei de ir cumprimentar o Silva, que controlava a porta interior, mas sem joguinhos, comentando só as “jeitosas”.

Tinha a ideia que fazendo parte de uma lista VIP, seria mais fácil “sacar gajinhas”, mas não foi neste tempo que a minha pilinha deixou de fazer só chichi!

domingo, 15 de março de 2015

Isto não se passa comigo

- Queres apanhar a roupa do estendal ou aspirar a casa? - perguntou-me a... ou melhor, contou-me um amigo, dizendo que a sua mulher lhe fez esta pergunta.
Perante a minh...ou melhor, perante a hesitação do meu amigo, apesar de ele me contar que detesta menos aspirar, porque não corre o risco de ser apanhado pela vizinhança a estender roupa, a Crist...ou melhor, a mulher dele, além de perguntar, respondeu por ele:
- Está bem! Aspiras e apanhas a roupa.
- Mas eu prefiro aspirar! – respondi...respondeu o meu amigo, não fui eu!
- Está bem! – diz a Cristina, por acaso a mulher do meu amigo tem o mesmo nome da minha mulher, e prossegue – Então podes escolher aspirar antes ou depois de apanhar a roupa.
O meu amigo continuou com os desabafos, lamentando os desequilíbrios, as passagens do 8 para o 80 em quase todas as actividades do ser humano. Para ele, no caso concreto da “libertação” da mulher, de lhe garantir direitos fundamentais, não estava consagrado o direito de se libertar dos mimos e de actividades domésticas, que nós, homens, em solteiros, tínhamos garantido pelas nossas mães. Este facto dá direito por si só, a que voltemos por justa causa para o colo das nossas mães e que se celebre o Dia Mundial do Homem  no dia a seguir ao Dia Mundial da Mulher.
Cheguei a...ou melhor, o meu amigo chegou a pensar,apesar de não ter nenhuma filiação religiosa, depois de ler a Bíblia e de estar a ler o Alcorão, o Livro Sagrado do Islamismo, tornar-se muçulmano, onde o papel da mulher é bastante simplificado e não tem nada que enganar. É tão simples, claro e cristalino, quanto isto, “obedecer ao homem”.
Concordei imed...imediatamente disse ao meu amigo:
- Isso não! Isso seria uma regressão, como passar do 80 para o 8.
Apesar deste meu argumento, de suposta racionalidade, o organismo dava-me uma resposta contrária e esta ideia macabra da mulher obedecer cegamente ao homem, fazia-me salivar...da mesma forma que salivo, quando alguém está à minha frente com a boca cheia de sugos!
No Ocidente não prevejo uma marcha-atrás no respeito pela mulher como individuo e voltar, como não há muitos anos atrás, ao tempo dos nossos pais, avós,...em que a mulher era criada para saber servir o homem.

Por isso, é muito provável, que me vejam...ou melhor, que eu veja, um destes dias, o meu amigo, ou a viver novamente na casa da mãe ou a passear a Cristina, sua mulher, de burka!

domingo, 8 de março de 2015

Um Dia Mundial de...

A propósito do Dia Mundial da Mulher, pus-me a questionar porque não abranger este dia e transformá-lo no Dia Mundial da Fêmea? Após breve reflexão, apercebi-me que não fazia sentido!
Em todas as espécies, à excepção da nossa, a Natureza faz o seu papel e organiza as comunidades e famílias, em que cada um, macho e fêmea, desempenham instintivamente o seu papel, sem atropelos.
Isto acontece nas várias espécies sem grandes diferenças e de forma muito básica. O macho caça e seduz, a fêmea protege as crias e deixa-se “galar”, como os nossos antepassados também o faziam. É a Natureza.
Uma excepção a este teatro acontece com uma espécie de aves australiana, em que o macho, cem por cento monogâmico, quando a fêmea morre, lança-se de um penhasco ao encontro da morte, sem que outro pássaro lhe tivesse dito de antemão, que iria encontrar um sem número de pássaras virgens à espera dele, no céu!
Mas o Homem, ao tornar-se cada vez mais “inteligente”, foi-se afastando da Natureza, criando as suas próprias organizações sociais e relevando ou diminuído o papel dos indivíduos, criando Culturas e Religiões, com comportamentos tão díspares, que resultaram na divisão do Mundo entre Ocidente e Oriente. Qualquer outra espécie animal não difere nos comportamentos, esteja onde estiver…um cão tanto levanta a pata para fazer “chichi”, em Portugal, como levanta a pata para fazer o mesmo no Vietname.
São estes atropelos do Homem (cada vez mais inteligente) sobre os outros, que o levaram a criar o “Dia Mundial de…” para nos lembrarmos de como deveria ser, aquilo que transformamos em…!
Um desses dias foi o Dia Mundial da Mulher, cujo papel, as Religiões e diferentes Culturas, trataram de diminuir na sociedade, desde há séculos.
Mas no Ocidente algo iria acontecer, e o marco do primeiro movimento feminista acontece no século XIX e coincide com a revolução industrial. Até aqui, o estatuto social da mulher resumia-se a um ser que necessita da tutela e de protecção do homem. E é nos fins do século XIX e inícios do século XX que um grupo de mulheres inglesas, lidera um movimento pela igualdade perante a lei, pela instrução, por um salário justo e pelo direito de voto.
Todas estas reivindicações, com sentido, aconteceram e acontecem, em consequência de comportamentos extremos em que durante séculos o homem diminuiu a importância da mulher.
Mas este movimento, que deu origem a outros durante o século XX, também espalhou a ideia errada entre muitas mulheres de que deveriam ser iguais aos homens, em tudo. É quando chegamos a um ponto em que não existe equilíbrio na cabeça de cada um, onde tudo se confunde.
Um destes dias, alguém falou (e foi uma mulher) nas características da mulher ocidental moderna, e apresentava o dom de reproduzir como uma característica menor.
As fêmeas, no mundo animal, têm esta capacidade de emprenhar, que talvez seja a, ou uma das coisas mais importantes no Planeta! Permite-lhes criar um vínculo com a cria, que o pai, provavelmente, nunca conseguirá compreender na plenitude, como quando se tira “satisfaz bastante” no teste de matemática. Somos bons, mas não dominamos a matéria toda!
Fisicamente também somos diferentes, o que impede de atingirmos a igualdade plena. Anatomicamente a mulher não pode dar uma coçadela sôfrega nos testículos, quando as truses lhe apertam, ou uma mais amena, enquanto põe a conversa em dia com os seus semelhantes. No máximo, podem cuspir para o chão e dizer uns palavrões…mas, se para algumas de vocês, a igualdade passar por aqui, resistam, porque isto não tem nada de encantador!
Não queiram ser como nós, homens…não sejam pragmáticas e cumpridoras de horas!
Não queiram ser como nós, que com 37,8 graus de temperatura dizemos que vamos morrer e vocês com 40 graus não deixam de tomar conta dos filhos.
Gosto de vós quando eu digo que branco é branco e vós, só porque vos apetece, dizeis que se calhar é azul. Gosto de vós quando “me tirais do sério”, porque quereis dizer “parede” e pela boca vos sai “chão”. Gosto de vós quando combinamos às três da tarde e apareceis às três e quarenta e cinco e dizeis: “Desculpa, atrasei-me um bocadinho!”…Gosto de vós, porque simplesmente, quanto mais o tempo passa, mais tenho a certeza que vos compreendo menos…
Mas sei que ninguém ama como vós, que ninguém luta como vós, que ninguém cuida como vós e que ninguém resiste como vós! E isto chega.

Não confundais “direitos” com “ser iguais”… não deixeis de ser Mulheres!

Só não percebo…porque razão o Dia do Trabalhador, não se festeja a trabalhar!

domingo, 1 de março de 2015

A racionalidade tem limites

Quinta feira, hora de jantar, estamos na sala da casa dos meus pais. Eles, eu, o meu irmão e o filho deste, o Gonçalo, meu sobrinho de quatro anos e dez meses ...as esposas nesta noite não estão presentes. Esta reunião familiar, desde que casei, fui o primeiro, realiza-se duas vezes por semana, forma de estarmos juntos. Geralmente a televisão perde para a rádio, que a minha mãe sintoniza numa estação, onde passam músicas bonitas, segundo ela, porque no Telejornal só passam desgraças, a não ser que num qualquer canal esteja a dar um filme com cãezinhos e gatinhos! Lá em casa, além de sermos todos Sportinguistas, gostamos muito de bicharada!
Por entre conversas da actualidade e outras meramente banais, mas as mais importantes, porque são as nossas, o meu irmão diz, que no carro, à vinda para o jantar, passou a notícia na rádio de que o Sporting tinha perdido a 1ª mão da Liga Europa com os alemães do Wolf... não sei das quantas por 2-0 e imediatamente desligou o rádio.
O filho, meu sobrinho, com o clube ainda não muito bem definido, apesar dos chapéus e camisolas do Sporting que lhe dei e quando fica em minha casa a dormir eu lhe repetir ao ouvido, quando já está num sono profundo, “Sporting, Sporting,...”, e por influência de terceiros que o tentam desviar para clubes que não interessam, não tendo em conta o alto interesse da criança, como a adopção gay, em que nunca ouvi falar nas vantagens e do bem das crianças a adoptar, não pode nem deve ouvir notícias com as palavras “Sporting” e “Perder”, para evitar associações como o cão de Pavlov, que ao ouvir a campainha, baba-se.
Hoje, domingo, dia de Porto-Sporting.
Telefono ao meu irmão que me pôs à conversa com o meu sobrinho:
 - Gonçalo, ora diz Sporting! – peço-lhe
- Sporting, tio, Sporting!
Do outro lado da linha ouço a minha cunhada:
- Ora diz Porto, Gonçalo!
- Porto, Por...
- Não, Gonçalo! É Sporting... – insisto.
Num mundo cada vez mais perigoso, cada vez mais desapaziguado, com os casos extremos de jovens a fugir da Europa, para se filiarem no EI, era o que faltava o meu sobrinho filiar-se num clube que não seja o Sporting! Combinado com o meu irmão, e inspirados no filme “Goodbye Lenin”, vamos criar um mundo que já não existe!
Logo à noite, os três, eu , o meu irmão e o Gonçalo, em vez do jogo verdadeiro, vamos ver uma gravação do jogo Porto- Sporting, realizado a 27 de Janeiro de 1946, que serviu de inspiração para o filme “O Leão da Estrela”, com resultado favorável ao Sporting (2-3); na quarta feira, vamos ver o Sporting-Apoel, jogado em 13 de Novembro de 1963 (resultado, 16-1 para o Sporting) e vamos dizer ao Gonçalo que é a meia-final da Champions, no próximo domingo vamos assistir ao saudoso jogo de 4 de Dezembro de 1986, entre Sporting-Benfica (7-1, para o Sporting) e vou dizer ao meu sobrinho que passamos para o primeiro lugar do campeonato e para, de uma vez por todas, cimentar o sportinguismo do Gonçalo, na quarta feira dessa semana vamos assistir à Final da Taça dos Campeões Europeus 1966-67, ganha pelo Celtic de Glasgow ao Inter de Milão. Como o Celtic veste de verde e branco, facilmente passa como sendo o Sporting. Eu e o meu irmão já combinamos uma hora com um grupo de amigos, para passarem na rua a buzinar e a gritarem pelo Sporting.
Nessa quarta feira, o meu sobrinho, vai participar pela primeira vez ( o pai e o tio também) na caravana que festeja a Liga dos Campeões Europeus ganha pelo Sporting!

O cão, ao ouvir a campainha, vai deixar de babar-se e começar a uivar e a ferrar!