segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sinais do Céu

A idade, por enquanto, não me incomoda. Enquanto houver coisas que me entusiasmem e me façam borbulhar de emoção, que venham os anos, que cá estarei para apanhá-los.
Se na adolescência despertava para os mistérios da Mulher, do cubo mágico e da melhor forma de defender a jogar à bola, aos quarenta, interesso-me pelos mistérios do Céu, de onde eu, e outros, interpretamos os seus sinais...
Somos um grupo de doze astrónomos (para não dizer cabeças no ar), amadores, que olham as estrelas e sempre que observamos três sinais luminosos no céu, mais ou menos alinhados, é a indicação para prepararmos as autorizações lá em casa.
Desde terça feira à noite, que sabia que a malta, toda casada, menos o Jólita que nutre uma paixão não correspondida desde os sete anos pela cunhada de um dos nossos comparsas, estava alinhada para uma saída no próximo sábado, pois nessa noite, cada um em sua casa observou três estrelas alinhadas, desta vez em triângulo equilátero, apesar do brilho de dois dos três vértices do triângulo, ser a luz de dois aviões...mas são pormenores, ainda ninguém me provou que a luz das estrelas é mais importante que a luz dos aviões!
A saída, determinada pelos astros, é a melhor do mundo e conduz-nos à melhor tasca do mundo, “A Canzoda”, que  não fica na melhor terra do mundo, mas junta algumas das melhores pessoas. Sei que para quem não é da Trofa, estas palavras poderão soar a estranho, mas é a verdade!
Após algumas autorizações das esposas e incompreensivelmente o Jólita ter pedido permissão à sua paixão, que segundo ele namora com um “tipo porreiro”, o Zé, telefono no dia seguinte à Dona Natália para marcar mesa para seis. O grupo é maior, mas como nunca conseguimos o “bingo” nas autorizações, contentamos-nos com a “linha” e os jantares realizam-se, com a regra de eu ter que estar sempre presente, já que os outros têm vergonha de telefonar e reservar mesa, o que faz de mim uma pessoa muito importante, apesar de sermos todos conhecidos do estabelecimento há muitos anos!!!
Chegamos sempre aprumados, com pinta de senhores e de muito conteúdo, que se esvazia de forma directamente proporcional à velocidade com que se esvaziam as garrafas. Este fenómeno, em nós, comprova-se pelo empirismo (conhecimento adquirido durante toda a vida, no dia-a-dia, que não tem comprovação científica nenhuma), chegando eu a pensar que há seres unicelulares bem mais interessantes!
O jantar finda sempre da mesma maneira, com dez minutos de conversa na rua, antes de irmos embora.
Desta vez, na despedida, o Jólita diz, com um copo a mais ou embriagado de amores:
- Para a semana temos que cá voltar.
- Porquê?
Ele olha para cima e a apontar, comunica:
- Estão três estrelas alinhadas!

Olhamos para o céu, com ele, e as três estrelas eram três candeeiros dos postes de iluminação. Mas são pormenores...  ainda ninguém me provou que a luz das estrelas é mais importante que a luz da iluminação pública!

domingo, 10 de maio de 2015

Febre de sábado à noite

- Logo vou jantar com a A, com a B, com a C, com a D e com a E. Queres vir? Não queres pois não?
- Não. Vai tu! – respondo.
A pergunta a condicionar a resposta, poderia ser apenas a transmissão do facto, “Logo vou jantar com as minhas amigas e tu não vens.”.
Nos últimos tempos as minhas noitadas de sábado são no máximo até ás sete e meia da tarde, quando prolongo um pouco mais o meu treino no ginásio, mas hoje, só, seria diferente e a noitada seria de arromba, quem sabe até à meia noite!
Depois de jantar vou para o quarto de vestir onde me preparo: cinto camel, da cor dos sapatos com fivela, calças de ganga de modelo bonito, camisa e blazer azul.
Olho-me ao espelho, a cara brota um sorriso e sinto-me em modo “pito”.
- Vou sair. – digo a mim mesmo e de imediato pergunto-me – Mas como é que se sai?
Já passou muito tempo desde os meus tempos de “morcego”... já não sei aonde ir! Tinha que perguntar.
Telefono ao meu amigo Miguel, solteiro, que não me atende, mas mais tarde envia-me uma mensagem a dizer que está numa festa em Santo Tirso. De seguida telefono ao meu amigo Nando, divorciado e a morar em Famalicão...não atendeu e iria telefonar-me no dia seguinte...não o atendi! Deveria querer saber aonde se vai ao domingo à tarde, vou-lhe dizer amanhã, segunda feira!
Saio de casa e ao entrar no carro decido ir a Santo Tirso, ao fundo da minha rua mudo de ideias e, decidido, corto para Famalicão e ao cimo da estrada faço inversão de marcha e retomo a estrada para Santo Tirso.
Chegado à cidade estaciono o carro no sítio do costume, quando lá vou durante o dia, e dirijo-me para o centro, uma zona de bares e esplanadas. O tempo estava agradável e muita gente passeava na rua, novos, velhos, grupos de amigos e casais, alguns a correr num jogging nocturno e outros a passearem os cães. Decidi-me por uma esplanada, dirijo-me ao balcão e peço um café à menina que me atende, que sorriu...e eu sorri e sentia-me...bem...tinha vinte anos outra vez e a aliança no dedo anelar era mais um acessório como o cinto camel!
Paguei e saí...depois de cinco  passos, bem contados, olhei para trás e a miúda estava a atender outra pessoa, de perfil para mim, quase que olhou...a noite era minha!
De regresso à Trofa e com o ponteiro das horas quase a bater as doze, passo no café/bar Malte, que fica a caminho de minha casa e que apenas conheço na dimensão café, quando lá passo durante o dia para tomar...café.
Havia um concerto acústico e pela primeira vez, neste espaço, peço uma cerveja. Encontrei gente conhecida que não encontro durante o dia e que os conheci, há muitos anos, depois das vinte e três horas. Ao balcão e convicto que elas não me queriam ver só de costas olhei para as mesas...as miúdas estavam felizes, bem acompanhadas pelos namorados e amigas!
Num momento em que olhava para as minhas mãos, sinto um chapadão nas costas acompanhado por um viçoso:
- CALHEEEIIIIIROSSS!
Era o meu amigo Mário Velhote, personagem que conheço há mais de vinte anos e já na altura tinha este nome. O Mário é simpático, nas discotecas passava o tempo na pista a dançar (para mim a tentar não cair) e sempre que o encontro, desde o dia que o conheci, está bêbado.
Na conversa possível, entre alguém sóbrio e um amigo bêbado, o Mário diz de forma bem audível para quem quisesse ouvir:
- O Calheiros era o rapaz mais bonito da Trofa!
Com a frase fiquei mais embriagado que o próprio Mário, e como um adolescente numa saída de sábado à noite, digo-lhe:
- Queres curtir comigo?
O Mário, que só gosta de cervejas, vira-me costas e vai-se embora!

Esqueci-me que além de meu amigo, o Mário só é bêbado! Olho para o relógio e é meia noite e quinze.

domingo, 3 de maio de 2015

Anténio Costa

Anténio Costa, nascido António há 41 anos, teria sido Rosa Costa, caso tivesse nascido menina.
Filho do Sr. Costa, um verdadeiro pinga-amor do seu tempo, que ainda hoje relembra, “Nos bailaricos dançava com elas todas...”, não herdou o jeito para dançar do seu progenitor. Quando se aproxima um casamento ou uma outra qualquer festividade, em que seja expectável Anténio dançar, treina uns passos com a mãe e depois evolui para o treino com a vassoura.
Numa dessas festas, no caso um casamento a quem lhe foi prometida uma dança, os treinos em casa começaram nesse mesmo dia, sempre supervisionados pelo pai.
A mãe sempre se esforçava para lhe ensinar convenientemente os melhores passos para o filho arranjar moça, da mesma forma que foi seduzida por um “Paso doble” do Sr. Costa há uma décadas atrás num arraial de Verão. Mas uma observação de Anténio no treino de dança  ia provocando o divórcio dos pais:
- Ó pai! A mãe dança melhor do que você.
- O que é que disseste rapaz?! – pergunta o Sr. Costa, resmungão.
- O que tu ouviste! – Diz a mãe em defesa do seu menino.
O treino de dança terminou ali.
Anténio senta-se e assiste à discussão dos pais, com um sorriso, sem saber porquê!
“Ainda vou acabar em casa sozinho”, pensou, quando pouco antes a mãe pensava, “É desta que ele vai arranjar moça”.
Lembro-me de ouvir, “Fizemos uma casa tão grande a pensar nos filhos e depois nos netos...”, mas esta preocupação dos pais era o que menos preocupava o filho.
No passado, Anténio, ainda António, embeiçado por uma rapariga entra para o coro da sua freguesia onde ela era soprano. Depois de lhe berrar uma área e pensar que tinha estragado tudo, contra tudo o que fazia prever ela convida-o para lancharem no dia seguinte à tarde, estragando tudo!
- Amanhã, não posso! – diz, depois de olhar para a agenda do telemóvel, prosseguindo – Vou jogar volei para a praia com os meus amigos.
- Eu posso ir? – diz a sua paixão em si bemol
- E sabes jogar? – pergunta António em ré maior.
- Não. – responde a pretendida com um acompanhamento de ferrinhos.
Ele, ainda António, nunca mais pôs os pés no coro...não se pode amar alguém que não joga o mesmo desporto.
Chega o dia do casamento e Anténio, que ficou assim conhecido quando ao fazer uma assinatura electrónica num curso on-line alemão o sistema trocou o “ó” por “é”, na hora de abertura da pista está sentado a contemplar algo que não está ali.
- Vamos dançar?...Vamos dançar?...Vamos dançar?
Anténio “desperta” e à sua frente está a rapariga que lhe prometeu uma dança.
- Sabes andar de bicicleta? – pergunta.
Anténio, ainda no tempo em que era António, com o coração dorido, deixou o volei e dedicou-se ao BTT, achando mais fácil encontrar raparigas que gostassem e soubessem andar.
- Não, Anténio, não sei andar. – responde a rapariga, prosseguindo – Só gosto e jogo volei, principalmente de praia. E então! Vamos dançar?
Ao ouvi-la, Anténio quase que cai da cadeira e responde-lhe.
- Não posso, dói-me o coração. – responde.
- O quê? – contra-pergunta a rapariga.
- Torci o tornozelo, não posso dançar.

Ainda hoje não percebo se os “desencontros” de Anténio são acasos da vida ou provocados por ele, mantendo a sua vida pouco mais complicada do que a de um ser unicelular, orientada por duas ou três regras, uma delas, insinuar em casa o que quer comer no dia seguinte, com a certeza de que a sua vontade será satisfeita por uma mãe dedicada!

domingo, 26 de abril de 2015

Passeio a Santo Tirso

Era final de tarde...de sexta feira.
Chegado a casa do trabalho, olho à minha volta com as mãos à cintura e naturalmente esboço um sorriso rasgado, só para um dos lados, como quem teve uma trombose, mas no meu caso num sinal de malandrice e libertinagem que ainda mantenho aos 41 anos e penso, “Ainda és um rebelde, Velhinho! Vai dar um passeio.”
Terminado o pensamento e quando ia dar uma borrifadela de perfume o telefone toca e do outro lado perguntam se já cheguei a casa.
- Sim! – respondo.
- E vais sair?
E sem me dar algum tempo para responder, a Cristina diz-me para estender uma bacia de roupa e repete a pergunta:
- Vais sair?
Respondi que não, com o mesmo sorriso rasgado só para um lado, com a malandrice pura de quem tem segredos e desliguei.
Depois de estender a roupa que mascarou o meu segredo preservando a minha integridade moral, saio de casa.
Entro no carro e começa aquilo que começou várias vezes durante o dia, a chover. Arranco e sigo na minha rua sem saber para onde ir. Entreguei-me ao destino, com o sorriso rasgado só para um dos lados, e lembrei-me que destino rima com casino - “É isso, vou ao casino da Póvoa.”, pensei, mas quando me preparava para dar o pisca para a esquerda, espirro e salivo o vidro sobre o lado direito, ´”É isso, vou para a direita!”, repensei, e dou o pisca para a direita e uma placa dizia “Santo Tirso”... lá fui.
Apesar de todos os sinais de rebeldia até ao momento, ir a Santo Tirso, para mim, não é um sinal de ir ao encontro do desconhecido. Estudei lá, dos 14 anos até aos 16, e de vez em quando continuo a lá ir.
Chegado ao meu destino, estaciono o carro no lugar de quase sempre, no parque da Câmara Municipal e quando desligo o carro, lá em cima também se desligou algo e parou de chover. Olho para o meu guarda-chuva e fico a pensar, “Levo-te ou não?!”.
Com aquele sorriso, que já sabem, num sinal de audácia ou tremenda estupidez, digo-lhe – Vais ficar. – e saio do carro sem nenhum sítio para onde ir, a ideia era apenas passear.
Santo Tirso, desde os meus tempos de estudante, mudou a um ritmo menor do que o meu passo arrastado  para fazer horas. E esta razão a par da recuperação do casario antigo, mantem a cidade pitoresca e aberta, cheia de jardins.
Num momento do passeio recomeça, aquilo que practicamente não deixou de acontecer durante o dia, a chover.
- Afinal fui estúpido! – digo baixinho a lembrar-me do guarda chuva no carro.
Atravesso a rua e entro na pastelaria mais conhecida lá do sítio a “Moura”, onde toda a gente vai comer “Jesuítas” e eu tomar café.
Por detrás do balcão as três senhoras do costume,entradotas na idade, cabelo armado pela melhor laca e com um sorriso de meninas que imagino ser o mesmo de há décadas atrás.
Antes de me sentar fui à casa de banho fazer uma coisa. Quando saí, perante a sala vazia, tive dificuldade em escolher uma mesa, gosto bem mais de cafés cheios, apenas com uma ou duas mesas de vago.
Uma quarta senhora, entradota de idade, mas mais nova do que as outras, esperou que eu parasse de deambular por entre as mesas, o que aconteceu quando me sentei na mesa ao lado da de uma miúda gira, que entretanto tinha chegado.
Pedi um café que me foi servido e enquanto o tomava, como a miúda gira não olhava para mim, perdi-me a olhar para as três senhoras mais velhas por detrás daquele balcão.
À minha frente, as cores começaram a mudar, para o preto e o branco, o balcão ficou antigo e por detrás dele estavam três meninas, certamente com menos de 20 anos, que, pelo sorriso, reconheci serem as senhoras, entradotas de idade, que pouco antes lá estavam. A miúda gira desapareceu e cá fora continuava a chover e apenas dois carros antigos estacionados. Via-se gente apressada a passar, eles, todos, de chapéu na cabeça e muitos de fato, cujos modelos só vejo em fotografia. No salão, um corropio de gente a entrar e a sair, onde todos se cumprimentavam com protocolo e faziam vénia às senhoras como manda (ou mandava) a boa educação. As mulheres não tinham tempo para ficar, mas eles, principalmente os que entravam de fato, todos eles cinzentos, tentavam um lugar ao balcão, para ficarem perto das meninas, que se riam com o que eles diziam e lhes lançavam sorrisos. Após o café, as meninas, com jeito para o negócio e sabendo os rapazes encantados, perguntavam:
- E então, não come um “Jesuíta”?
Rendidos diziam que sim, alguns, vi, a contarem os trocos sem darem nas vistas, não tivessem de dizer:
- Obrigado, mas agora não...estou cheio!
Com o olhar mais atento, em momentos diferentes, entraram três rapazes, para quem cada uma delas, sem perder o sorriso e as gargalhadas, o olhar se rendeu...mais nenhum rapaz ou senhor, que entrasse naquele salão, teria hipóteses com aquelas raparigas por mais “Jesuítas” que comessem!
Desviando o olhar do que acontecia à minha frente olhei cá para fora, quando o último dos três rapazes saiu. Tinha parado de chover.
Quando devolvi o meu olhar para o interior, o balcão era outro e com cor  e atrás estavam as três senhoras, entradotas na idade, e na mesa ao lado a miúda gira sem o sal daquelas velhinhas, cujas gargalhadas pararam no tempo, como a cidade.
Levantei-me, sem olhar para a miúda gira, e ao pagar o café, alguém entra e o olhar da senhora que me está a atender, rendeu-se. Ao virar-me para sair, vejo um senhor antigo, com a mesma postura do último rapaz que vi a sair!
Cá fora, apresso o passo em direcção ao carro enquanto não chove...e recomeça a chover. Entro, olho o guarda-chuva e antes de arrancar em direcção à Trofa a uns delinquentes 50 km/hora, alheio a qualquer lençol de água, refaço a mim mesmo a pergunta – Audaz ou estúpido?

Num passeio normal com rebeldia faz de conta, houve um momento mágico!

domingo, 12 de abril de 2015

Parabéns, és pai

Rodolfo, nome fictício de um amigo de longa data, mas antes disso em tempos muito mais idos, amigo do meu irmão, tem uma figura cavalheiresca que carimba a sua educação e simpatia, mas que não lhe poupou, desde a adolescência, a alcunha de “Pêga do futebol”.
Não que ele abusasse ou quisesse abusar dos amigos do futebol no balneário, mas pelo facto  de ser um fingido convicto, na práctica da melhor actividade do mundo...jogar à bola.
Quase todos os domingos de manhã (ele joga na minha equipa) é com espanto que ainda o vejo a cair sozinho a três metros da grande área da equipa adversária (que é composta por outro grupo de amigos) e a pedir penalti.
Estes sintomas, no passado confundidos com devaneios de uma qualquer oferecida, que lhe valeram o título de “Pega do futebol” e que irritam o adversário e os colegas, são claramente sinais de esquizofrenia, confirmados pelo facto de ele se julgar o melhor jogador do mundo, quando nitidamente sou eu. Convido qualquer leitor a aparecer num qualquer domingo de manhã, para assistir a um dos jogos e confirmar o meu virtuosismo único!
Sofia, nome fictício de uma amiga de longa data, namorada e companheira de Rodolfo desde que me lembro, julgo até que já estariam prometidos um ao outro antes de nascerem (e não são ciganos), quando me vê, continua a perguntar, agora com uma barriga de fim do tempo:
- Ó Zé, como é que o aguentais nos jogos?
Geralmente, sem saber o que responder, encolho os ombros.
Ela é bonita, os dois são simpáticos e educados, ela sofisticada e grávida e ele não tem Facebook e engravidou-a...os dois queriam, estão felizes, agora ele mais, porque ela já sente o peso de 9 meses e a qualquer momento dá à luz!
Um destes dias, estou no Facebook e vejo um “post” da Sofia, acompanhado de uma fotografia na sala de partos, a dizer “Está a sair. J”. Espantado e feliz pelo casal amigo, telefono ao Rodolfo:
- Parabéns, pá!
- De quê? – pergunta-me o Rodolfo
- Por seres meio-pai! – e prossigo – Vi agora no Facebook, uma fotografia do teu filho.
- Ainda não sei de nada! É parecido comigo?  – pergunta-me do corredor do hospital.
- Ainda não sei! Só saiu metade e ao contrário. A cabeça ainda está lá dentro...mas já há muitos “gostos” e pessoas a dizer que ele é lindo
- Então é parecido comigo! – responde-me.
Além de melhor jogador, também se acha o mais bonito, em mais um sinal de viver por vezes uma realidade paralela, quando o mais lindo sou eu...convido o caro leitor, quando quiser, a aparecer num qualquer domingo de manhã, para assistir a um dos jogos e confirmar o meu virtuosismo técnico e beleza únicos!
- Espera! A Sofia postou outra fotografia e o bébé já está todo cá fora. Parabéns, já és pai por inteiro!
- Tenho que o ver! – diz-me o recente pai ansioso.
- Vais entrar na sala de partos?
- Não. Tenho o meu portátil comigo e vou abrir conta no Facebook e pedir amizade à Sofia!

Rodolfo, por insistir ficar preso no passado, sem facebook e com um telemóvel ainda com botões, foi o último a saber que foi pai!

domingo, 5 de abril de 2015

Brito de Jesus

Zé, filho de José e de Maria José, nascido há muitos anos, era uma criança como todas as outras, vivaça, traquinas e de nome Zé como todos os seus amigos! Devido à necessidade de se diferenciarem, tratavam-se pelo segundo nome ou apelido e Zé, filho de José e de Maria José, era tratado por Brito.
O tempo, nas ruas de terra, era passado a chutarem uma amálgama de trapos entrelaçados em forma de bola, que chutavam na direcção de dois postes. Como não sabiam o nome do jogo a que gostavam de jogar, costumavam dizer, “Vamos jogar aquilo?”. Além disto, gadulhas…por vezes misturadas com “aquilo”.
Com as disputas de brincadeira, Brito criou um espírito competitivo e desde criança nunca gostou de perder, muito menos quando jogava “àquilo” mesmo sem saberem as regras e como se ganhava! Em jovem adulto, viciado no jogo, não da bola, mas de cartas e dados, nunca aceitou uma derrota, que significava perder dinheiro. Costumava frequentar um salão de jogos chamado de “Templo”, em Jerusalém, e nos tempos vagos ia para um monte de oliveiras descansar à sombra das mesmas. O espírito alegre, divertido e de humor refinado que o fazia invejado pelos outros rapazes e apreciado pelas mulheres, contrastava com o comportamento que assumia, como se estivesse possuído pelo diabo, mal entrava no “Templo”. Obcecado e sem regras, não deixava a mesa de jogo, nem quando seus amigos de infância, José Paulo, José Judas e José Pedro, insistiam para que viessem embora.
Numa tarde tórrida de Verão, quando já tinha perdido quase tudo e já estava a apostar as sandálias, o “coupier” da mesa, o sacerdote José Ahmushef, expulsa-o à força, tendo Brito durante a saída do “Templo” mandado umas mesas pelos ares.
Já numa esplanada de um café, Brito, mais calmo, e seus amigos, tomavam uma cerveja de tâmara fresquinha sem saberem que o dono do salão de jogos tinha mandado no seu encalço um grupo de capangas para o castigar pelos prejuízos causados. Quando estes chegam à esplanada, junto do grupo de amigos, o cabecilha pergunta:
- Conhecem o Brito?
- Sim! É aquele. – responde José Judas, apontando para Brito, sentado no outro lado da mesa.
A expressão de Brito e restantes amigos, foi de total espanto.
Os capangas atiram-se a Brito e este, desesperado, grita:
- Sou nada, o José Judas mentiu. Ou sou o Brito…de Jesus!
Perante este esclarecimento, no meio da confusão que se começava a instalar, os “gorilas”, comentam entre si - Nós queremos apanhar é o Brito…só! – e desaparecem!
Triste com a traição do amigo, Brito sente a necessidade de estar só e muda-se de mesa. Maria Madalena, rapariga avispada, que já andava de “olho” em Brito há algum tempo, aproxima-se e senta-se na mesma mesa.
- Olá, Brito!
Brito, cabisbaixo, estica as sobrancelhas para cima, franzindo a testa e avista a bela mulher. Recupera a compostura e:
- Conhecemos-nos, bela mulher?
Maria Madalena, mais conhecida na noite, como MM, perante o galanteio sorri e insinua-se:
- Gostava que fôssemos amigos!
- Nem pensar! – responde Brito, prosseguindo – Tinha cinco mil e um amigos, acabei de perder um dos melhores, por traição, e sobram-me cinco mil potenciais traidores! Chega de amizades, se quiseres, segues-me!
E assim foi, Maria Madalena começou a passar a palavra de que Brito atingiu o limite de amigos e que agora só aceitava “seguidores” começando a liderar um grupo cada vez maior, sedento de saber o que Brito fazia.
Contemporâneo de Brito e na mesma zona andava um indivíduo de nome Jesus, a fazer tanto ou mais sucesso do que Brito, sendo administrador de um “grupo fechado” de doze amigos, mas aberto a seguidores, cada vez em maior número. Herodes, o poderoso governante de Jerusalém, que se gabava de ser a pessoa com mais “seguidores”, movido pela inveja, manda os seus soldados prender Jesus. Nessa busca para o apanhar, os soldados vão ter à praça principal de Jerusalém, rodeada de esplanadas onde vários grupos de amigos e conhecidos matam a sede com a bebida mais servida, a cerveja de tâmara fresquinha.
Abel, comandante dos soldados, do meio da praça grita para todos ouvirem:
- Alguém sabe onde está Jesus?
Os capangas que dias antes perseguiam Brito, em uníssono respondem:
- O Jesus está ali! – apontando para uma mesa próxima, onde estava Brito, relaxado, de perna cruzada a coçar os dedos do pé.
Sem aviso prévio e sem direito a defesa, Brito é agarrado e levado para as masmorras.
Dois dias depois é crucificado na presença de seus amigos e seguidores encabeçados por Maria Madalena, que insistentemente gritam “Gosto! Gosto!...”

Ao lado passava Jesus, que ao assistir à cena exclamou – Ui, eu é que devia estar ali e a MM a gritar por mim! Aquele gajo estragou tudo!

domingo, 22 de março de 2015

Clube VIP

1987, o que tem este ano de especial? Nada..menos para mim.
Tinha 14 anos e já sabia há algum tempo que a pilinha não servia só para fazer chichi!

Desde os doze anos que os meus pais já me deixavam sair até uma pastelaria a cerca de cem metros, no máximo, de nossa casa, chamada “Dália”, até ás vinte e três horas, o mais tardar.
Nesta altura da minha vida, as minhas obrigações e interesses passavam por estudar, jogar futebol, estar com os meus amigos e ir de vez em quando (ao fim de semana, sempre) à pastelaria. No final da noite costumava ajudar o Sr António, o empregado, a desmontar a esplanada (isto no Verão) e como recompensa, o Sr José, o dono, dava-me o tabuleiro de bolos, que não se tinham vendido durante o dia, que partilhava com o resto da canalha, minha amiga.
(se és mais velho do que eu e te lembras de passar ao fim da noite na “Dália” e ver uns putos de tabuleiro no colo a comer bolos, eu era um deles e a razão de os estarmos a comer)
Assim foi a minha vida até aos catorze anos, e continuou a ser, com a novidade de ter ido estudar para Santo Tirso e ter começado a sair de vez em quando para a “Pedra do Couto”, uma conhecida discoteca da zona.
Na primeira vez que lá entrei, apercebi-me da existência de um “Clube”, ou seja, uma área privada, à parte do resto da discoteca, para uma elite, nem que seja saloia. E nesse primeiro momento apercebi-me, que a minha camisa de cornucópias, em tons de castanho, muito bonita e fashion (na altura), era digna de ser passeada nesse espaço restrito.
Como fiz isto acontecer? Fazendo-me de parvo. Característica que persiste, apesar de me esforçar para que não se faça notar.
Subo as escadas e indiferente à presença de quem controlava a entrada e saída de pessoas na porta do “clube”, entro...e sou puxado para fora.
- Não pode entrar! – diz-me o porteiro.
- Não?! – pergunto com cara de espanto e mostro-lhe o meu “cartão jovem”. Não me perguntem para que servia, mas este cartão dava ao adolescente dos anos oitenta um ar de sofisticação.
O porteiro chamava-se Silva e para sorte minha achou-me piada. E eu gostei que ele me achasse piada, porque o Silva era a pessoa certa para conhecer e pela conversa e aspecto, era macho, comentando todo o “rabo de saia” que passava pela porta, deixando-me sossegado.
Fino como o Rato, para criar empatia com a minha vítima, entrei no mesmo jogo e fui mais além, comentando de forma babada, mulheres já avózinhas.
O Silva “caiu” como um patinho.
- Podes entrar! – diz-me ele, mesmo não fazendo parte de nenhuma lista VIP.
Com o tempo fui conhecendo as pessoas e quando ia à discoteca já entrava directamente pela porta exterior do “clube”, sem nunca ter detectado nada distintivo entre as pessoas escolhidas para entrar por uma porta e escolhidas para entrar por outra!
Apesar de jovem e já fazer parte de uma “lista VIP”, nunca deixei de ir cumprimentar o Silva, que controlava a porta interior, mas sem joguinhos, comentando só as “jeitosas”.

Tinha a ideia que fazendo parte de uma lista VIP, seria mais fácil “sacar gajinhas”, mas não foi neste tempo que a minha pilinha deixou de fazer só chichi!