domingo, 16 de abril de 2017

Recorde Pascal

Em 1983, com nove anos a caminho dos dez, mantinha a minha colecção de selos, abastecida na correspondência recebida pelo meu avô no seu escritório, e desisti, ao fim de três semanas, da minha colecção de numismática depois de surrupiar todas as moedas diferentes que encontrei na carteira dos meus pais e familiares.
No domingo de Páscoa desse ano acordei cedo, sem despertador e sem os meus pais me chamarem, tão cedo que a emissão da RTP ainda não tinha começado! Acordei com um objectivo a tilintar na minha cabeça, bater o recorde do ano anterior de quinzes beijos na cruz do compasso.
Sim, com nove anos a caminho dos dez, abaixo de mim tinha um primo e o meu irmão, e acima, muitos mais primos, tios e tias, avós e tios-avós e bisavós, parecia que a minha família era a população do planeta e na casa de cada um deles podia beijar o compasso.
Como em todos os domingos, almoçávamos nos meus avós (pais da minha mãe), e desde há duas semanas, que bem cedo, eu e um dos meus primos, instalávamos nas traseiras da casa, uma banca onde vendíamos iogurtes e caramelos a quem passa-se para a missa, sem a concorrência do comércio local, sempre fechado, e das grandes superfícies, que ainda não existiam...sem concorrência praticávamos o preço que queríamos. Lembro-me de termos vendido um caramelo a dois escudos e cinquenta centavos...estávamos transformados em vendilhões do Templo!
Nessa manhã, depois da banca montada, dois extintores ao alto e uma tábua, o meu primo José Alberto expõe os iogurtes e pede-me para ir buscar os três caramelos que tínhamos em stock. Feito desentendido, faço de conta que os vou buscar e quando regresso, exclamo:
- Desapareceram! Assaltaram o nosso armazém.
O nosso armazém era uma beira debaixo das escadas, que dava acesso à cozinha, e os caramelos foram comidos por mim. A sociedade acabou, sendo eu vítima da estratégia comercial em voga na altura, os “stocks” (aos quais eu não resistia), quando eu estava talhado para o “Just in time”.
Esta minha postura comercial, a do “Surrupio”, veio a ser moda poucos anos depois entre os empresários portugueses, com a entrado do país na CEE.
Desfeita a sociedade, corro para a casa da minha avó (mãe do meu pai) onde iria dar o meu primeiro beijo na cruz. O segundo seria dado na casa ao lado, na minha tia Mina, irmã da minha avó (mão da minha mãe), desceria a rua e parava a meio, na casa do Miguel, onde actuava como infiltrado naquela família, e terminaria a rua com o quarto beijo na casa de outra tia. Regressava a casa dos meu avós e aí dava o quinto beijo. A estratégia estava montada de forma que o décimo sexto beijo, e novo recorde, fosse dado na casa dos meus bisavós, pais da minha avó, mãe da minha mãe, em Lousado.
Instalado na sala, ao lado da minha avò (mãe do meu pai), só pensava na menina de quem gostava e pela qual andava a treinar “o beijar”, principalmente com almofadas, mas também com o braço e a maçaneta da porta do meu quarto!
Ouvem-se os sinos e o pelotão pascal irrompe pela casa dizendo “Aleluia, aleluia,...”, dando a cruz a beijar. Eu, com o pensamento na menina, dou um beijo de língua nos pés de Cristo.

Escandalizado (e eu, também), o Senhor Padre não me deixou beijar mais a cruz!

domingo, 1 de janeiro de 2017

Club VIP

1987, o que tem este ano de especial? Nada..menos para mim.
Tinha 14 anos e já sabia há algum tempo que a pilinha não servia só para fazer chichi!

Desde os doze anos que os meus pais já me deixavam sair até uma pastelaria a cerca de cem metros de casa, chamada “Dália”, até ás vinte e três horas, o mais tardar.
Nesta altura da minha vida, as minhas obrigações e interesses passavam por estudar, jogar à bola, estar com os meus amigos e ir de vez em quando (ao fim de semana, sempre) à pastelaria. No final da noite costumava ajudar o Sr António, o empregado, a desmontar a esplanada (isto no Verão) e como recompensa, o Sr José, o dono, dava-me o tabuleiro de bolos, que não se tinham vendido durante o dia, que partilhava com o resto da canalha, minha amiga.
(Se és mais velho do que eu e te lembras de passar ao fim da noite na pastelaria “Dália” e ver uns putos de tabuleiro no colo a comer bolos, eu era um deles e a razão de os estarmos a comer)
Assim foi a minha vida até aos catorze anos, e continuou a ser, com a novidade de ter ido estudar para Santo Tirso e ter começado a sair de vez em quando para a “Pedra do Couto”, uma conhecida discoteca da zona.
Na primeira vez que lá entrei, apercebi-me da existente de um “Clube”, ou seja, uma área privada, à parte do resto da discoteca, mais para uma elite, nem que fosse saloia. E nesse primeiro momento apercebi-me, que a minha camisa de cornucópias, em tons de castanho, muito bonita e fashion (na altura, a sério), era digna de ser passeada nesse espaço restricto.
Como fiz isto acontecer? Fazendo-me de parvo. Característica que persiste, apesar de me esforçar para que não se faça notar.
Subo as escadas e indiferente à presença de quem controlava a entrada e saída de pessoas na porta do “clube”, entro...e sou puxado para fora.
- Não pode entrar! – diz-me o porteiro.
- Não?! – pergunto com cara de espanto e mostro-lhe o meu “cartão jovem”. Não me perguntem para que servia, mas este cartão dava ao adolescente dos anos oitenta um ar de sofisticação.
O porteiro chamava-se Silva e para sorte minha achou-me piada. E eu gostei que ele me achasse piada, porque o Silva era a pessoa certa para conhecer e pela conversa e aspecto era macho, comentando todo o “rabo de saia” que passava pela porta, deixando-me sossegado.
Fino como o Rato, para criar empatia com a minha vítima, entrei no mesmo jogo e fui mais além, comentando de forma babada, mulheres já avózinhas.
O Silva “caíu” como um patinho!
- Podes entrar! – diz-me ele, mesmo não fazendo parte de nenhuma lista VIP.
Com o tempo fui conhecendo as pessoas e quando ia à discoteca já entrava directamente pela porta do “clube”, sem nunca ter detectado nada distintivo entre as pessoas escolhidas para entrar por uma porta e escolhidas para entrar por outra!
Apesar de jovem e de fazer parte de uma “lista VIP”, nunca deixei de ir cumprimentar o Silva, que controlava a porta interior, mas sem joguinhos, comentando só as “jeitosas”.

Tinha a ideia que fazendo parte de uma lista VIP, seria mais fácil “sacar gajinhas”, mas não foi nestes tempos que a minha pilinha deixou de fazer só chichi!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ressaca de um aniversário

Apesar de estarmos a poucos dias de 2017, a dar passos firmes no século 21, e tendo eu nascido no século 20, na década de 70, e curtido o bom e o mau dos anos 80, mantenho hábitos do século 19. Não me interessam as igualdades de género (para mim de sexo), para mim, uma senhora é uma senhora! Continuo a abrir-lhes a porta, a dar-lhes a passagem, a cuidar a linguagem, a oferecer o meu lugar,...e apesar de achar que sou um espécime em vias de extinção, começo a ver jovens, que apesar das modernices de igualdade de género (para mim de sexo), têm igual comportamento. Começava a julgar-me estranho, adjectivo que utilizo para mim, para substituir o adjectivo parolo.
Ontem, dia seguinte ao meu aniversário, numa fila de trânsito, tive o comportamento normalmente estranho (parolo) em mim. Com um pisca-pisca, sinalizo assertivamente a minha mudança de direcção e ouço a buzina do carro que me seguia, dando-me indicação para parar. Estacionei e sou abraçado pelo condutor desse carro...também ele dá o “pisca”, quando conduz. Trocamos os números de telefone!
Por estas coisas e outras, há quem diga que sou uma pessoa à moda antiga, se calhar para não dizerem estranho (ou parolo), e a todas as duzentas e quarenta e quatro pessoas que me felicitaram pelo FB, sete amigos, trinta bons conhecidos, setenta e três conhecidos, cem conhecidos de vista e restantes desconhecidos, pelo meu aniversário, agradeci um a um pelas felicitações.
Algumas boas mentiras diziam, “Não te dava mais de trinta e oito”, e crente e contente, ao telefone, partilhei com a minha mãe:
- Mamã, havia quem não me desse mais de trinta e oito!
- Essa gente está tola meu filho! Se não tivesse sido eu a ter-te, não te dava mais de vinte e oito.
- Tens razão, mamã! No máximo, trinta!
- Estás tolo, meu filho! Vinte e oito.
...
Mas ontem, ao final do dia, depois de ler o título de um estudo, que dizia que elas acham os carecas mais atraentes (e eu que nem entradas tenho), sou atingido por um relâmpago de realismo, sob a forma de mensagem, enviada pelo meu amigo Miguel Paredes:
“Meu caro, parabéns atrasados pelo aniversário. Se eu fosse gaja, diria que cada vez estás melhor, mais elegante, mais charmoso, mais...Como sou gajo, digo que estás velho e mais gordo que uma vaca!!! Um forte abraço!”

Estou velho e acabado! E amanhã, pela manhãzinha, vou ligar à minha mãe!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A saga dos quarenta

Apesar de o dia ter nascido luminoso, lá fora fazia frio. Quando o telefone toca, eu estava num dos estados mais idílicos que existem, proporcionado pelo binómio quentinho/fofinho, enfiado debaixo dos cobertores.
Perante o toque irritante do telemóvel (tenho que o mudar) a querer separar esse binómio, estico o braço de debaixo dos lençóis e puxo-o para dentro do “casulo”.
- Estou?! – atendo com a voz sonolenta e melada.
- Parabéns filhinho! Como te sentes na caminhada de quarentão charmoso? – pergunta a minha mãe.
Fui apanhado desprevenido pela pergunta, não pelo lado do charmoso, mas pelo lado do quarentão. Hoje, 26 de Dezembro, faço quarenta e três anos.
Sem saber como me sentia, respondi:
- Sinto-me espectacular!!!
Desligamos e…não foi um sonho!
Passaram quarenta e três anos desde 26 de Dezembro de 1973 e quarenta  e três anos e dois dias desde que a minha mãe foi para o hospital para me ter. Demorei dois dias para nascer, claro, sentia-me quentinho/fofinho!
Ainda sonolento, ouço ao ouvido um anjo com um recado do diabo:
- Quando te levantares e antes de saíres de casa, estende a bacia de roupa que está na lavandaria...e depois estende a que está dentro da máquina.
Saí da cama com o mesmo custo com que saí do ventre da minha mãe!
Enquanto estendo a roupa, que garante a estabilidade marido/mulher, toca o telefone. É a minha tia:
- Olá Zé Augustinho, estás bom? Muitos parabéns, ainda ontem tinhas vinte e já tens quarenta e três! Estás um homem.
Perante a possibilidade de amanhã acordar com sessenta, fui pôr-me bonito!
Enquanto me arranjava, liguei o rádio. Durante as ultimas escovadelas nos dentes, o radialista que estava a passar música naquela estação, faz uma passagem que nem lembra ao diabo, de Beyoncé muda para Paco Bandeira, o gajo que canta “A ternura dos quarenta”.
No final de ouvir a canção e de, inconscientemente, ter prestado atenção à letra, pensei - A canção devia-se chamar, “A Ternura dos Oitenta” – e, despassarado, estava à procura dos meus netos!
A ideia era dar um passeio a pé, mas achei demasiado ternurento depois de ouvir Paco.
 “Faço” o saco e vou para o ginásio…miúdas, música frenética, pesos…altamente jovem!
Depois de equipado, antes de entrar no ginásio, encolho a barriga, como se ainda tivesse quarenta e dois e entro pela porta…passo o olhar pela sala e…quatro homens e música de Natal. Relaxei, a barriga também, e virei-me para os pesos.
Enquanto levantava “ferro”, um pouco acima do normal, aqueles quatro exemplares masculinos olhavam-me com admiração! E esse facto, devolvia-me a confiança abalada com a canção do Paco.
Um deles, ao reconhecer-me, diz para os outros – É o filho do Calheiros! – e vêm ter comigo, perguntando pelo meu pai. Afinal, eram quatro sessentões e um deles pergunta-me:
- Tu és da idade da minha filha, não és?
- Sim, talvez um ano mais velho!
- Tens quarenta e dois?
- Quase, faço quarenta e três!
- Tchiiiiiiii! – exclamam, olhando uns para os outros!
Virei costas e pus-me em frente ao espelho, “Estou igual!”, pensei, “Ou não?!”, voltei a pensar, “Estou, estou!”, convenci-me…e fui embora, achando o ambiente um pouco idoso!
À saída, uma boa amiga, sabendo da efeméride, abraça-me e diz-me:
- Parabéns! Deixa lá, é só um número!
O tom empregue foi o mesmo com que me deram os pêsames, dias antes, com a morte do um familiar…apenas mudava a frase!
- I will survive, Paulinha! – respondi e faço-me à estrada, em corrida, deixando o carro no parque de estacionamento.
Quando chego a casa, respiro fundo e pergunto-me como será a pulsação aos quarenta e três. Meço-a e a máquina batia tão certa como um carro, com pouquíssimos quilómetros, a sair de um stand de usados!
Afinal, eu sentia-me igual ao que era na manhã do dia anterior! Num momento tinha uma idade e no outro tinha outra..nada mudou!

O que pode mudar é a forma com que os outros encararam o meu novo número…pelo sim, pelo não, nesse dia não liguei mais o rádio!

domingo, 25 de dezembro de 2016

A extraordinária Ceia de 1973

Apesar de ter nascido no dia 26 de Dezembro de 1973, eu, dois dias antes, sem ter consciência de mim, comecei a animar de uma forma diferente uma ceia de Natal, quando o meu pai se ia servir pela segunda vez do bacalhau e dei um sinal de alarme à minha mãe:
- É agora! O nosso menino vai nascer! – diz ela
- Outra vez?! – interroga-se um dos meus tios, depois de se ter servido mais do vinho do que do bacalhau.
- Acho que a Tininha não está a falar do Menino Jesus, mas do nosso filho, que trás na barriga! – clarifica o meu pai.
Como quem se serve mais do copo do que do prato fica mais liberto de espírito, o meu tio exclama o que não teve coragem de dizer durante nove meses:
- Pensei que a Tininha estava a ficar gorda!!!
O meu avô, personagem expansiva e apreciador das diferenças, que sempre se animou com a felicidade dos outros, declara:
- Deve ser o Messias...o outro! Aquele pelo qual os Judeus estão à espera!
Meio perdido com a conversa e com uma espinha de bacalhau espetada na garganta, aquele que dois dias depois seria pai pela primeira vez, reclama:
- Messias, não! O meu rapaz vai chamar-se José Augusto.
(Tenho um tio, uma tia e uma prima que ainda me tratam por Gustinho)
- Paizinho, paizinho... – grita, aflita, aquela que dois dias depois seria a minha mãe.
(A melhor)
Aquele que dois dias depois viria a ser avô pela quarta vez levanta-se e dirige-se para o telefone:
- Estou! – e a minha avó a pensou que o meu avô estava a telefonar para a ambulância - Ès tu, António Absolum?
Do outro lado respondem afirmativamente. É o amigo judeu do meu avô.
- O vosso Messias vai nascer! Está aqui em casa, na barriga da minha filha...mas não te preocupes, vamos já para o hospital!
Do outro lado da linha António Absolum diz algo, que faz o meu avô virar-se para o meu pai:
- Ó Gusto! A vossa lua de mel...
(Este jovem que viria a ser meu pai, também é Augusto)
E sem deixar o meu avô terminar a frase, e com os dedos metidos na boca a tentar tirar a espinha, a única coisa que saiu foi:
- Quente! As noites estavam frias, mas a lua de mel foi quente!
O meu avô preferia que o meu pai tivesse cuspido a espinha em vez daquelas palavras, e virado para o telefone.
- A minha filha não vai dar à luz virgem! O vosso Messias também tem que nascer de uma virgem?
O meu tio que se esqueceu de comer e só bebia, olhava admirado para a “pança” da minha mãe e eu, sem consciência de mim, dou mais um sinal vermelho.
- ELE VAI NASCER!!! – berra a minha mãe.
O meu avô regressa à mesa e ao pegar no copo de vinho, a minha avó,
(A melhor)
 firme, ordena – Vamos já para o hospital.
Já na rua, as chaves do carro passavam de mão em mão, não estando ninguém em condições de conduzir. O meu tio a pensar que a minha mãe afinal não estava gorda; o meu pai aflito com a espinha na garganta; o meu avô, fora da realidade, a pensar, “Que ser especial estará para nascer”; as mulheres não tinham carta e a minha avó, virada para o meu primo de dessazeis anos, que só bebeu Spur-Cola nessa noite, diz-lhe:
- Levas tu o carro! – e passa-lhe as chaves para a mão, tendo sido esta a atitude mais sensata.
Chegados ao hospital, o meu tio enquanto aponta para um frasco pendurado numa maca, diz, “Quero beber daquilo!”, e foi colocado a soro; o meu pai foi para “Clínica Geral”, para tirar a espinha, e o médico ao ver a minha mãe, firme e em alta voz, anuncia, “A CRIANÇA VAI NASCER.”

E nasci...dois dias depois, no dia 26 de Dezembro de 1973. O meu avô telefonou ao seu amigo judeu e diz-lhe, “Nasceu-me mais um Messias! É o quarto, tão especial como os outros!”.


E assim deviam ser as crianças, pelo menos para os Seus...Especiais!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Liberdades

Félix, assina, como no bilhete de identidade, Felix Da Silva De Pereira e é conhecido em casa por pai e “óme” e entre os amigos e conhecidos por Félix. Quando conhece alguém apresenta-se como Félix Da Silva e quem não o conhece de lado nenhum trata-o por “aquele gajo, pá!”.
Em Março de 1974 fez quatro anos de casado, cuja cerimónia aconteceu em 1970, após a chegada de uma missão de dois anos e meio no norte de Moçambique, onde fez amizades de sangue que nunca esqueceu. Nesses quatro anos de alguma felicidade, teve quatro filhos e uma filha da mulher, a quem puseram o nome de Maria, porque desejavam que a filha fosse um exemplo de mulher, como a mãe de Cristo, e “do Céu”, porque a mãe, devota seguidora do padre da aldeia, gostava de uma passagem da homilia, em que se faz referência à “Glória do céu”.
Com cinco gravidezes e actividade física restringida às lides domésticas e a tratar dos filhos e do “home”, o corpo de Maria do Céu tornou-se desinteressante (sem nunca o ter sido) aos olhos de Félix. O casamento pela igreja e a “vergonha” não davam coragem a Félix para deixar a mulher, apesar de ele ter a certeza que era isso que queria nos festejos do  quarto aniversário. Precisava de uma reviravolta na sua vida!
Um mês depois aconteceu uma reviravolta ao país, através de um golpe de estado, com o objectivo (aparente) de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Félix Da Silva De Pereira não era muito inteligente, mas não se deixava ir pelas “ondas como os cardumes” e apercebeu-se que o “Democratizar” aconteceu por um triz, visto que alguns (talvez a maioria) capitães de Abril queriam acabar com uma Ditadura de direita e impor outra, tornando Portugal um país satélite da União Soviética; o “Descolonizar” foi apressado, fazendo 500.000 portugueses voltar à metrópole, sem nada e deixando as ex-colónias entregues a facções armadas e a população africana desprotegida; e o “Desenvolver”, através de uma reforma agrária medieval!
- Isto eu não festejo! – Pensou Félix, ainda longe de imaginar o que esperava o país, a nossa “classe política”.
Mas graças ao 25, Félix festejou os dias 26, 29 e 30, datas correspondentes aos seus 3D’s de Abril.
Festeja o “Divertir”, a 26 de Abril. Sem medo junta-se com os amigos na mesa do café ou na rua e expressa as suas opiniões e no fim vai para casa em vez de ser preso…não imaginava que fosse tão animado falar sem ser em surdina e a espreitar por cima do ombro!
A 29 de Abril festeja o “Divorciar”. Foi neste dia de 1974, que chega a casa com os papéis para o divórcio e encontra a mulher de mini-saia, a mostrar as “carnes” e a fumar SG Gigante e com uns papéis de divórcio, também na mão. Foi um espanto para ele…sempre pensou que Maria do Céu fosse feliz, a cozinhar, a limpar, a “apanhar” de vez em quando e a cuidar dos filhos e dele!
No dia 30 terminam os festejos de Abril, com o último “D” de “(en)Dividar”, o maior rasgo de desenvolvimento e modernidade português.
Neste dia de 74, Félix foi ao banco onde trabalha o amigo Tone e pergunta-lhe pelo estado da “conta”.
- Não tens dinheiro…mas também não deves nada a ninguém! – esclarece Tone.
- Está mal! – Responde Félix, continuando – Dá-me um crédito qualquer que me crie dívida.
Ao longo dos anos, Tone deu-lhe créditos para tudo, tornando Félix numa personalidade fiscal falida, mas moderna!

Nos festejos dos quarenta e um anos dos 3D’s de Félix, este foi obrigado a festejar o “dia da liberdade”, o 25, de cravo na lapela pela PDPC-DGS (Polícia do Politicamente Correcto-…)…mas o “D” de “Democratizar” vai festejar às escondidas desta, ao celebrar os quarenta um anos do 25 de Novembro de 1975.

domingo, 1 de maio de 2016

A tasca.

Quim, homem de esquerda, canhoto desde a primeira classe, quase deficiente das forças armadas, quando rasgou a gengiva ao abrir uma cerveja com os dentes, no Quartel de Chaves, é, ainda hoje, dado a frases feitas.
Apesar de nunca ter sofrido as agruras do Ultramar, diz que a sua cicatriz (que não se vê) resultou da explosão de uma granada durante uma missão no meio do mato.
Na altura, na enfermaria, aplicaram-lhe cinco pontos na ferida e desinfectaram-na com álcool, hábito que adoptou desde então, ano de 1969.
Actualmente é dono da “Tasca da Berta”, nome da enfermeira que o tratou, onde se bebe, não para molhar a palavra, mas para sarar as feridas, e tanto se bebe,  que naturalmente as cirroses começaram a aparecer!
Quem passa na rua, sempre pelo outro lado, sacudidos pelo cheiro, que atrai só os que têm vinho nas veias, vê pela porta, que se apresenta como uma moldura de um quadro de outros tempos, um balcão de madeira. Por trás, várias bancadas com garrafões e o Zé, o empregado, criteriosamente seleccionado e que se apresenta todos os dias ao trabalho, não de farda, mas sempre com 2 gramas de álcool por litro de sangue. Da parte da frente do balcão, sempre uma meias dúzia de bêbados para atender e aturar e no chão um grande tapetão com um bordado a dizer “O povo é quem mais bebe”, tapado há décadas pelo vomitado da clientela.
Todos os anos para dinamizar a tasca, o Quim promove um concurso com um prémio de três cálices de tinto, maduro ou verde, para quem adivinhar o dizer do tapetão e no tecto a única mensagem legível num pano colocado há seis anos, que diz “Assim, se vê, a força do Tinto”, para dinamizar a tasca com um concurso mensal, visto que ele se esquece, amiúde, do concurso anual, em que a clientela tenta vomitar o pano...ainda não há vencedores, nem para um nem para outro concurso e o único dinamismo visível é o decréscimo de clientes, conforme vão sendo internados, ou numa cama de hospital quando a bebedeira é moderada, ou no cemitério, quando a bebedeira é de caixão à cova.
Lá dentro, mesmo no Verão, quando os dias são longos, o ambiente escurece à medida que se bebe, parecendo por vezes meia noite quando é meio dia, e hoje, quando faltavam vinte minutos para as doze horas, o Ramos atravessou a porta para outro mundo e veio para o passeio.
- Que puta de gaja boa! – exclamou, com o máximo de cuidado que o maduro permite.
No outro lado da rua passava uma mulher anafada, de banhas expostas pelo top que vestia e coxão quase a rebentar-lhe as calças. Ela, indiferente ao comentário, sorri por dentro pelo elogio recebido!
- Ui, será que é mesmo boa?! – pergunta Ramos para si mesmo! – Ó pessoal, vinde cá fora. – chama pelos outros companheiros de copos. E aparece o Quim.
- Ó Quim, aquela gaja é boa? – pergunta.
- Que gaja? Não sei! – responde – Ó Zé, anda cá.
Sendo o menos bêbedo, porque se encontra no local de trabalho, sempre que há questões duvidosas, o Zé é chamado para esclarecer.
- O Ramos está ver uma gaja boa! Eu não estou a ver nenhuma gaja! E tu? – pergunta o Quim.
- Eu estou a ver o sapateiro! – responde ao ver a gorda, agora em sentido contrário, de bolo de aniversário na mão.

-Ahhhhh! – exclamam os outros dois.